Alcolumbre barra leitura de requerimentos e trava CPI do Banco Master
O presidente do Congresso, Davi Alcolumbre (União-AP), rejeita nesta quinta-feira 21 a leitura dos requerimentos para criar a CPI do Banco Master. A decisão impede o início imediato da investigação e acirra o embate entre governo e oposição em torno do banco ligado ao empresário Daniel Vorcaro.
Prioridade a vetos de Lula trava comissão
A resistência de Alcolumbre se dá em sessão conjunta do Congresso, convocada para analisar vetos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Sob pressão de deputados e senadores, o presidente do Congresso afirma que a pauta do dia é fechar acordos sobre os vetos presidenciais e que qualquer outro movimento depende de sua avaliação política.
O embate se instala quando parlamentares pedem que ele faça a leitura formal dos requerimentos que pedem a instalação da CPI do Banco Master. Sem esse ato, que costuma ser um gesto protocolar, a comissão não nasce. Alcolumbre segura o microfone e explica que não pretende avançar naquele momento. “Requerimentos de leituras de matérias devem ser objeto de despacho da presidência”, diz. “Portanto, o momento da leitura é um ato discricionário da presidência da mesa do Congresso Nacional.”
A afirmação escancara o poder concentrado na cadeira que ele ocupa. Pela prática recente do Congresso, presidentes das Casas costumam ser cobrados a ler requerimentos de CPI assim que eles cumprem as exigências regimentais, como número mínimo de assinaturas e fato determinado. Ao tratar a leitura como um ato político, Alcolumbre desloca a discussão para o terreno da conveniência e do calendário legislativo.
No plenário, o movimento provoca reação imediata. Senadores e deputados que articulam a CPI acusam o presidente do Congresso de blindar temas sensíveis. O clima fica mais tenso porque a pressão por transparência cresce desde a revelação das conversas entre o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, que colocam sob suspeita a relação entre o banco e decisões políticas.
Crise na pré-campanha de Flávio Bolsonaro alimenta disputa
Flávio Bolsonaro, pré-candidato à Presidência em 2026, vira um dos principais defensores da CPI em plenário. A aposta do senador é se colocar como fiador da apuração, num momento em que sua pré-campanha enfrenta desgaste com a divulgação dos diálogos com Vorcaro. A revelação das trocas de mensagens expõe uma proximidade incômoda com o empresário, que já foi preso e usou tornozeleira eletrônica.
Enquanto Alcolumbre resiste, a oposição pressiona para transformar o caso em exemplo de transparência. Petistas e aliados do governo enxergam outra frente: usar o microfone para cobrar explicações do pré-candidato. O deputado Lindbergh Farias (PT-RJ) sobe à tribuna e provoca diretamente o senador do PL. Ele questiona a visita de Flávio a Vorcaro logo após a saída do empresário da prisão. “O senhor foi visitá-lo um dia depois que ele saiu da prisão com tornozeleira eletrônica? Quer dizer que não sabia dos envolvimentos dele?”, pergunta.
Na sequência, Lindbergh associa o caso a uma cifra bilionária. Ele lembra a aplicação de 970 milhões de reais do RioPrevidência, fundo de previdência do Rio de Janeiro, em operações ligadas ao banco. O período coincide com governo de um aliado político da família Bolsonaro no estado. “Vossa Excelência não sabia da aplicação de 970 milhões de reais do Rio Previdência, governado pelo seu partido, no seu estado?”, insiste o petista, ao microfone, diante de um plenário dividido.
Os números reforçam o peso potencial da CPI. Uma investigação parlamentar teria poder para convocar executivos, quebrar sigilos bancário e fiscal mediante autorização judicial e rastrear operações com dinheiro público. A recusa de Alcolumbre em dar o passo inicial não enterra essa possibilidade, mas empurra a crise para frente e dá tempo ao Palácio do Planalto e aos líderes do Congresso para medir custos e benefícios políticos.
No entorno de Alcolumbre, aliados alegam reserva. Dizem que a pauta de vetos envolve bilhões de reais do Orçamento e afeta acordos entre governo e base aliada. Nos bastidores, a leitura é mais direta: abrir uma CPI que atinge um banco com fortes conexões políticas, no meio de um ciclo pré-eleitoral, amplia o risco de exposição para vários partidos, não só para o PL de Flávio.
Investigação adiada e disputa sobre poder da presidência
A decisão desta quinta segura, por tempo indeterminado, a abertura formal da CPI do Banco Master. Sem a leitura do requerimento, não há indicação de relator, não há definição de número de vagas nem instalação de estrutura técnica. A investigação fica congelada e o foco, por enquanto, permanece nos vetos de Lula, que travam cerca de dezenas de bilhões de reais em gastos públicos e emendas negociadas com o Congresso.
O gesto de Alcolumbre reacende um debate antigo sobre o papel dos presidentes da Câmara e do Senado no controle da agenda. O uso do poder de pauta como filtro político já aparece em outras situações, como pedidos de impeachment na Câmara ou CPIs sensíveis ao governo. No caso do Banco Master, a recusa expõe um impasse entre o direito da minoria de investigar e o cálculo da maioria, preocupada com os efeitos de uma devassa sobre finanças públicas e financiamento de campanhas.
A oposição tenta transformar o ato em combustível para a narrativa eleitoral. Flávio Bolsonaro já usa a defesa da CPI como bandeira de campanha, enquanto busca se distanciar do noticiário negativo sobre sua relação com Vorcaro. Os governistas, por sua vez, enxergam na demora uma chance de organizar a base, avaliar o alcance da CPI e, se for inevitável, moldar sua composição para reduzir danos.
Parlamentares que assinam o pedido de CPI articulam novos movimentos. Falam em recorrer à Mesa Diretora, pressionar líderes partidários e acionar o Supremo Tribunal Federal, caso considerem que o direito de minoria está sendo bloqueado. Não há prazo definido para que Alcolumbre volte ao tema. A cada sessão conjunta, porém, cresce a expectativa em torno de um simples gesto: a leitura em voz alta de um requerimento de algumas páginas.
Enquanto a CPI não sai do papel, seguem abertas as dúvidas sobre as operações do Banco Master, o destino de 970 milhões de reais do RioPrevidência e o alcance da influência de Daniel Vorcaro na política nacional. O plenário do Congresso volta a se reunir para novas votações de vetos nas próximas semanas. A decisão de Alcolumbre de manter a CPI em compasso de espera dirá até onde vai, na prática, o poder de um único cargo sobre a capacidade do Parlamento de investigar a si mesmo.
