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Irã planeja golfinhos-mina e ameaça cabos em escalada no Ormuz

O Irã planeja usar golfinhos treinados para carregar minas contra navios dos Estados Unidos no estreito de Ormuz, em uma nova escalada militar. A ofensiva inclui o envio de submarinos à região e a ameaça de cortar cabos submarinos de telecomunicações, vitais para a internet global.

Ormuz volta ao centro da disputa com Washington

A movimentação ocorre em meio à pressão do bloqueio econômico e militar imposto por Washington sobre Teerã desde o governo Donald Trump, intensificado a partir de 2018 com sanções ao petróleo iraniano. O estreito de Ormuz concentra cerca de 20% do petróleo negociado no mundo, em média 17 milhões de barris por dia, segundo estimativas da Agência Internacional de Energia, e funciona como gargalo estratégico entre o Golfo Pérsico e o restante do planeta.

Segundo o “Wall Street Journal”, autoridades iranianas discutem internamente o uso de mamíferos marinhos treinados para se aproximar de embarcações militares e civis dos EUA carregando minas explosivas presas ao corpo. A manobra mira diretamente a 5ª Frota americana, baseada no Bahrein, responsável pela patrulha das rotas de energia no Golfo. Fontes ligadas ao aparato de segurança descrevem o plano como parte de um pacote mais amplo de ações para forçar a redução do bloqueio e aumentar o custo da presença norte-americana na área.

A estratégia inclui também o reposicionamento de submarinos iranianos, alguns com capacidade de operar em águas rasas e difíceis para grandes navios de guerra. O objetivo é multiplicar pontos de pressão sobre comboios comerciais e militares, elevando o risco diário de qualquer travessia pelo estreito, que chega a ter largura navegável de apenas 39 quilômetros em alguns trechos.

Aposta em métodos não convencionais amplia risco global

O uso de golfinhos em operações militares não é inédito. Estados Unidos e Rússia investem em programas desse tipo desde a Guerra Fria, com animais treinados para localizar minas, vigiar portos e, em raros casos, neutralizar mergulhadores inimigos. A diferença, agora, está na disposição declarada de empregar esses animais como vetores ofensivos, carregando explosivos contra navios norte-americanos em uma rota por onde passam dezenas de petroleiros por dia.

Teerã também envia um recado ao mencionar a possibilidade de cortar cabos submarinos de telecomunicações que cruzam a região. Esses cabos carregam mais de 95% do tráfego internacional de dados, de transferências bancárias a chamadas de vídeo, e se tornaram infraestrutura crítica da economia global. Uma interrupção prolongada em um desses pontos pode atrasar transações financeiras, derrubar serviços digitais e afetar bolsas de valores, com impacto direto sobre mercados emergentes como o Brasil.

Hamidreza Azizi, pesquisador especializado em Oriente Médio ouvido pelo “Wall Street Journal”, afirma que, em Teerã, o bloqueio econômico dos Estados Unidos é cada vez mais enxergado como uma forma de guerra. “O bloqueio é cada vez mais visto não como um substituto para a guerra, mas como uma manifestação diferente dela”, diz. “Como resultado, os tomadores de decisão iranianos podem em breve passar a considerar a retomada do conflito como menos custosa do que continuar a suportar um bloqueio prolongado.”

A avaliação ecoa entre diplomatas que acompanham o Golfo Pérsico desde o acordo nuclear de 2015, abandonado unilateralmente por Washington em 2018. Desde então, o Irã responde com avanços no programa nuclear e com ações assimétricas em mar aberto, de apreensões de petroleiros a ataques com drones contra instalações de petróleo, sempre negando responsabilidade direta.

Mercado de petróleo e internet entram na linha de fogo

A ameaça no estreito de Ormuz atinge dois sistemas que sustentam a economia global: energia e comunicação. Qualquer interrupção, mesmo breve, no fluxo de navios pode disparar o preço do barril de petróleo, que já oscilou mais de 10% em pregões recentes diante de rumores de conflito na região. Em 2019, uma série de ataques a petroleiros e instalações sauditas levou o Brent a saltar para perto de US$ 70, após ter recuado abaixo de US$ 60 poucos dias antes.

Para países dependentes de importações de combustíveis, como o Brasil, movimentos bruscos no preço internacional se refletem em reajustes de combustíveis em questão de dias. Empresas de transporte, aviação e agronegócio sentem primeiro o impacto, que depois chega ao consumidor em forma de inflação. Bancos centrais são forçados a recalcular projeções, o que pode influenciar decisões de juros e de investimentos.

A possível sabotagem de cabos submarinos adiciona outra camada de incerteza. Mais de 400 cabos cruzam os oceanos hoje, alguns instalados desde a década de 1990, e boa parte deles passa por gargalos geográficos semelhantes ao estreito de Ormuz. Intervenções em apenas um ou dois pontos podem causar lentidão ou indisponibilidade de serviços em vários continentes, mesmo que existam rotas alternativas. Especialistas alertam que o ataque deliberado a essa infraestrutura seria visto por muitos governos como passo grave rumo a um confronto direto.

A presença crescente de submarinos na região também eleva o risco de incidentes acidentais. Um erro de identificação de navio, uma leitura equivocada de radar ou um choque entre embarcações militares podem deflagrar respostas rápidas em questão de minutos, deixando pouco espaço para a diplomacia. Em 1988, um navio dos EUA derruba por engano um avião comercial iraniano no Golfo, matando 290 pessoas. O episódio ainda é lembrado em Teerã como prova de que a margem para erro nessa região é quase nula.

Tensões em alta e horizonte de negociação estreito

A comunidade internacional acompanha com atenção a escalada, mas as margens de manobra diplomática parecem menores a cada ano. As tentativas europeias de salvar o acordo nuclear de 2015 enfrentam resistência em Teerã, que cobra alívio efetivo nas sanções, e em Washington, onde qualquer gesto de aproximação com o regime iraniano enfrenta oposição no Congresso.

Governos da região buscam se proteger. Países do Golfo reforçam sistemas de defesa aérea, aceleram a compra de navios patrulha e negociam garantias adicionais de segurança com os Estados Unidos e parceiros europeus. Ao mesmo tempo, investidores reavaliam exposição a ativos ligados ao petróleo do Oriente Médio, temendo novos choques em um intervalo curto.

Os próximos meses devem mostrar se o discurso iraniano sobre golfinhos-mina, submarinos e cabos submarinos ficará no plano da dissuasão ou se avançará para ações concretas. Qualquer teste de limites no estreito de Ormuz, mesmo localizado, tende a provocar resposta rápida de Washington e de aliados. A grande dúvida, hoje, é se ainda existe espaço para um recuo calculado das duas partes antes que um incidente transforme a pressão econômica em confronto aberto.

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