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Zema defende ampliar trabalho para menores e reacende debate eleitoral

O ex-governador de Minas Gerais Romeu Zema (Novo) volta a defender, neste sábado (2), a ampliação de oportunidades de trabalho para menores de idade. Após a repercussão de falas no Dia do Trabalhador, o pré-candidato à Presidência insiste que o emprego como aprendiz afasta jovens do crime e critica o que chama de proibições excessivas no Brasil.

Zema reage a críticas e reforça bandeira

A nova manifestação ocorre um dia depois de Zema usar o podcast Inteligência Ltda, na sexta-feira (1º), para lamentar que crianças não possam trabalhar no país. No programa, ele compara o Brasil aos Estados Unidos, cita a experiência de jovens que entregam jornais e promete que, se eleito, pretende “mudar” as restrições atuais. A reação de opositores e especialistas em direitos da infância toma conta das redes sociais ainda na noite de 1º de maio e força o presidenciável a detalhar sua posição.

Nas postagens deste sábado, Zema tenta enquadrar a polêmica como defesa da responsabilidade juvenil e combate ao tráfico de drogas. “No Brasil, já é permitido trabalhar a partir dos 14 anos, como aprendiz. Isso é uma coisa boa. Porque o jovem precisa aprender, ter responsabilidade. O que defendo é ampliar oportunidades para quem quer começar cedo”, escreve, ao reforçar o modelo do menor aprendiz como porta de entrada. Ele sustenta que, com proteção e sem atrapalhar a escola, a experiência profissional precoce pode ser um antídoto contra a ociosidade.

No podcast, a fala é mais direta e confronta a legislação atual. “Lá fora, nos Estados Unidos, criança sai entregando jornal, recebe não sei quantos centavos por cada jornal entregue, no tempo que tem. Aqui é proibido. ‘Você está escravizando criança’. Então é lamentável. Mas tenho certeza de que vamos mudar”, afirma. A comparação com práticas antigas do mercado americano, hoje também mais reguladas, provoca reação imediata de entidades ligadas à proteção infantil.

A lei brasileira, em vigor desde a Constituição de 1988 e reforçada pelo Estatuto da Criança e do Adolescente, considera trabalho infantil qualquer atividade remunerada regular antes dos 16 anos. A única exceção é justamente o contrato de aprendizagem, a partir dos 14 anos, com jornada reduzida, vínculo formal e exigência de matrícula e frequência escolar. Mesmo assim, o país ainda convive com índices elevados de informalidade juvenil, sobretudo em regiões mais pobres.

Zema mira esse cenário ao argumentar que “a esquerda criou a noção de que trabalhar prejudica a criança” e que meninos e meninas poderiam “ajudar com questões simples”, desde que os estudos continuem no centro. Críticos acusam o presidenciável de relativizar riscos históricos de exploração, como jornadas exaustivas, acidentes e evasão escolar. Aliados, por outro lado, enxergam nas falas um aceno a eleitores que cobram mais rigor contra o crime e rejeitam o que chamam de tutela excessiva do Estado.

Trabalho, crime e disputa de narrativas

Na série de publicações no X (antigo Twitter), o pré-candidato amarra o debate sobre trabalho juvenil ao avanço do tráfico de drogas nas periferias. “Porque o maior erro é deixar o jovem sem perspectiva, ou na informalidade. É aí que o tráfico faz a festa. As facções já oferecem um plano de carreira perverso para recrutar adolescentes para o crime. Nós vamos oferecer um caminho do bem. E esse caminho é o da educação e do trabalho honesto”, escreve. A mensagem tenta contrapor o que o Novo chama de “plano de carreira do crime” a uma trilha de inserção produtiva regulada.

A discussão ganha peso adicional porque ocorre em meio à pré-campanha presidencial de 2026. Pesquisa AtlasIntel/Bloomberg divulgada em 28 de abril mostra empate técnico entre Zema e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em um cenário de segundo turno. O ex-governador aparece com 46,5% das intenções de voto, contra 47,4% do petista. Outro potencial adversário, o senador Flávio Bolsonaro (PL), também surge tecnicamente empatado com Lula, com 47,8% a 47,5%. Os números indicam um ambiente competitivo em que temas de moral, segurança pública e trabalho ganham centralidade.

A defesa de mais espaço para menores no mercado formal dialoga com uma agenda liberal de flexibilização trabalhista já associada ao Novo, mas toca em um ponto sensível da opinião pública. O Brasil tem histórico de combate ao trabalho infantil em atividades insalubres, como lavouras extensivas, mineração e serviços domésticos informais, e é cobrado por organismos internacionais para reduzir esses índices. Ao mesmo tempo, enfrenta uma taxa de desemprego juvenil que costuma superar em muito a média geral em períodos de crise.

Especialistas em políticas sociais costumam lembrar que programas de aprendizagem, quando bem estruturados, reduzem evasão escolar e melhoram a renda familiar. O desenho da lei, porém, limita o tipo de atividade, a carga horária e exige acompanhamento pedagógico. A proposta implícita de Zema, ao elogiar experiências em que crianças circulam pelas ruas para entregar produtos, sugere um afrouxamento desse modelo e desloca o debate para uma fronteira mais controversa sobre até onde vai o direito de trabalhar e onde começa o risco de exploração.

A repercussão nas redes expõe a polarização. De um lado, apoiadores celebram o que chamam de “volta do mérito” e resgatam relatos pessoais de quem começa a trabalhar cedo. De outro, críticos apontam que experiências individuais não substituem políticas públicas e lembram que as estatísticas de acidentes de trabalho entre adolescentes são subnotificadas. O embate reforça a tendência de transformar temas complexos, como proteção à infância, em bandeiras identitárias de campanha.

Agenda eleitoral e incertezas pela frente

A ofensiva de Zema sobre o tema indica que o pré-candidato pretende usar trabalho juvenil como marca de diferenciação em relação a Lula e à direita bolsonarista. Enquanto o governo atual associa proteção social à ampliação de programas de transferência de renda e cotas educacionais, o ex-governador mineiro aposta na combinação de ensino técnico, inserção precoce no mercado e endurecimento no combate ao crime organizado. O desenho concreto dessa proposta, porém, ainda não aparece em projetos detalhados ou minutas de lei.

Ao insistir que “vamos mudar” a atual proibição de trabalho infantil, Zema coloca pressão sobre especialistas, Congresso e órgãos de controle, que terão de reagir caso o tema avance na campanha. Uma eventual revisão de regras exigiria negociação com centrais sindicais, entidades de defesa de direitos humanos e setores empresariais, que hoje operam dentro do marco da aprendizagem assistida. O debate entra em 2026 carregado de incertezas: até onde o eleitor está disposto a flexibilizar normas de proteção à infância em troca da promessa de mais oportunidades e menos crime?

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