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Concurso de soneca em Seul expõe crise de sono entre jovens

Um concurso de soneca reúne dezenas de jovens fantasiados no centro de Seul neste 2 de maio de 2026. O evento, lúdico à primeira vista, tenta chamar atenção para um problema que se agrava há anos na Coreia do Sul: a falta crônica de sono em uma geração pressionada por jornadas exaustivas de estudo e trabalho.

Fantasias coloridas para denunciar noites em claro

No gramado de uma praça próxima ao rio Han, grupos de amigos se alinham em colchões infláveis, travesseiros gigantes e cobertores estampados com personagens de desenho. Muitos vestem pijamas combinando, máscaras de dormir e tiaras de bichos de pelúcia. O narrador do evento inicia a contagem regressiva, mas, em vez de corrida ou prova de resistência física, o objetivo é simples: dormir, ou pelo menos ficar imóvel, com o menor nível possível de batimentos cardíacos por 90 minutos.

Organizadores dizem que cerca de 200 jovens se inscrevem na primeira edição do Concurso de Soneca, número considerado alto para um formato experimental. A dinâmica mistura medidores de pulso, avaliadores circulando entre os colchões e um painel eletrônico exibindo em tempo real o ritmo cardíaco médio dos participantes. Vence quem apresenta sinais mais consistentes de relaxamento profundo.

O tom leve contrasta com relatos de exaustão. Muitos participantes chegam direto de turnos noturnos e provas simuladas. Alguns contam que mal somam cinco horas de sono por noite. “A gente ri, se fantasia, mas é um desespero real”, diz uma estudante de 23 anos, que prefere não se identificar por temer represálias no emprego. “Trabalho quase 60 horas por semana e ainda estudo para concursos. Dormir virou luxo.”

A escolha da data não é aleatória. Promotores do evento apontam o início de maio, marcado por feriados e alta de contratações temporárias, como um período em que a pressão por produtividade costuma aumentar. A proposta é ocupar um espaço público de grande circulação e inverter a lógica do desempenho: ali, o valor está em desacelerar.

Um país que trabalha muito e dorme pouco

A Coreia do Sul figura há anos entre os países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico com maiores cargas de trabalho anuais. Antes de reformas graduais, trabalhadores coreanos registram em média mais de 2.000 horas por ano, contra cerca de 1.500 na média europeia. Ao mesmo tempo, pesquisas nacionais apontam que quase 40% dos jovens adultos dormem menos de seis horas por noite, abaixo das sete a nove horas recomendadas por especialistas em sono.

A combinação entre cultura de alta performance, pressão escolar desde a infância e competição feroz no mercado de trabalho cria um terreno fértil para a privação de sono. Médicos coreanos alertam para o aumento de casos de depressão, ansiedade e doenças cardiovasculares ligados à rotina exaustiva. “Estamos vendo sinais claros de uma epidemia silenciosa de fadiga”, afirma um psiquiatra de Seul ouvido pela reportagem. “Quando um país precisa organizar um concurso de soneca para lembrar as pessoas de que dormir é essencial, algo está fora do lugar.”

O histórico recente ajuda a entender a dimensão do problema. Na década passada, o governo tenta limitar horas extras e criar incentivos para jornadas mais curtas, inclusive impondo teto semanal de 52 horas. Empresários reagem, e parte da população, temendo perda de renda, resiste a mudanças. Jovens, no entanto, se veem esmagados entre metas agressivas e o ideal de sucesso financeiro. O resultado aparece nos dados de saúde e nas ruas, em cafés abertos 24 horas e bibliotecas lotadas de madrugada.

O Concurso de Soneca surge desse ambiente. A ideia nasce em um coletivo de jovens profissionais e estudantes universitários, que desde 2024 organiza debates sobre saúde mental. Eles se inspiram em eventos semelhantes na Europa e em campanhas globais de valorização do sono, mas adaptam o formato ao cenário coreano. A lógica é usar humor e imagens fortes para comunicar uma mensagem incômoda.

As redes sociais amplificam o gesto. Fotos de jovens deitados lado a lado, com fantasias de unicórnio, dinossauro e super-herói, viralizam em poucas horas. Vídeos que mostram participantes cochilando em meio ao barulho da cidade acumulam centenas de milhares de visualizações. “Nunca achei que ia ganhar curtidas por dormir”, ironiza um dos finalistas, de 26 anos, funcionário de uma startup de tecnologia. “Mas se isso fizer meu chefe pensar duas vezes antes de marcar reunião às 22h, já valeu.”

Pressão sobre empresas e autoridades

A repercussão do concurso ultrapassa o clima de brincadeira. Em transmissões ao vivo, influenciadores cobram respostas concretas de empresas e autoridades trabalhistas. Organizações de saúde mental usam o evento como gancho para divulgar dados sobre o custo econômico da privação de sono. Um estudo citado pelos ativistas estima que a sonolência e a queda de produtividade podem consumir o equivalente a 2% do Produto Interno Bruto coreano por ano, somando perdas bilionárias.

O debate também chega ao Parlamento, onde projetos de lei sobre jornada flexível e direito à desconexão digital avançam lentamente desde 2023. Pressionados pela exposição internacional, alguns legisladores prometem pautar, ainda neste semestre, propostas que restringem o envio de mensagens de trabalho fora do horário comercial e ampliam a fiscalização do cumprimento do limite de horas extras. Sindicatos, por sua vez, apontam que sem punições mais pesadas muitas regras viram letra morta.

Empresas de tecnologia, educação e varejo, setores que empregam grande parte dos jovens participantes do concurso, passam a ser questionadas em entrevistas e coletivas de imprensa. Executivos respondem com programas de bem-estar, dias de folga extras e campanhas internas sobre equilíbrio entre vida pessoal e trabalho. Críticos consideram que as ações ainda são pontuais e, muitas vezes, mais voltadas à imagem do que à mudança estrutural. “Colocar pufes na sala de descanso ajuda, mas não resolve o problema de metas inalcançáveis”, resume um pesquisador de políticas trabalhistas.

Inspirados pelo caso coreano, coletivos de jovens em países como Japão, China e até no Ocidente começam a discutir eventos semelhantes. Universidades asiáticas avaliam incluir atividades de educação para o sono em semanas de recepção de calouros. Especialistas em saúde veem espaço para políticas regionais que associem desempenho acadêmico a rotinas mais saudáveis de descanso, em vez de glorificar madrugadas em claro como prova de dedicação.

Do cochilo performático à política pública

Organizadores do Concurso de Soneca em Seul já trabalham em uma segunda edição, prevista para o fim de 2026, com meta de dobrar o número de participantes e incluir trabalhadores mais velhos. A intenção é sair do nicho estudantil e envolver pais, professores e gestores em discussões presenciais, fora do ambiente polarizado das redes sociais. Eles planejam sessões com médicos, psicólogos e especialistas em direito do trabalho para traduzir em propostas concretas o descontentamento expresso nos colchões coloridos da praça.

Autoridades de saúde monitoram a movimentação e estudam ampliar campanhas de educação sobre sono, inclusive em escolas e canais de streaming populares entre jovens. O Ministério do Trabalho, pressionado por indicadores de burnout e pelo aumento de afastamentos ligados a transtornos mentais, acena com novas diretrizes para empresas que queiram obter selos de responsabilidade social. A discussão, porém, esbarra em resistências de setores que temem aumento de custos e queda de competitividade internacional.

Enquanto isso, os vencedores do concurso recebem certificados simples, bonecos de pelúcia e cartões-presente de cafés locais. Não há prêmios milionários nem patrocínios corporativos exuberantes. O valor simbólico, para muitos, está em poder deitar em plena luz do dia, em um dos centros financeiros mais intensos da Ásia, sem culpa ou vergonha. “É estranho dizer, mas hoje eu me sinto autorizada a dormir”, comenta a estudante de 23 anos, ao deixar a praça. “Queria que isso fosse normal, não exceção.”

O futuro do movimento depende de até que ponto o país está disposto a rever a equação entre crescimento econômico e bem-estar. O Concurso de Soneca pode virar só um registro curioso nas redes ou se transformar em marco de uma mudança mais profunda na cultura do trabalho. A resposta, mais cedo ou mais tarde, vai aparecer não nas selfies do evento, mas nas horas de sono que cada jovem coreano consegue recuperar.

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