Ultimas

Gleisi vê acordão no Senado após rejeição de Jorge Messias ao STF

A deputada Gleisi Hoffmann (PT-PR) acusa, nesta quarta-feira (29), uma “aliança vergonhosa” no Senado após a rejeição de Jorge Messias ao Supremo Tribunal Federal (STF). Para ela, a votação não derruba apenas um nome do governo Lula, mas abre caminho para decisões que podem aliviar penas de aliados do ex-presidente Jair Bolsonaro.

Reação imediata à derrota de Messias

A rejeição do advogado-geral da União, indicada por Luiz Inácio Lula da Silva para a vaga aberta no STF, ocorre em sessão tensa no Senado, em Brasília. Messias não atinge os 41 votos necessários para assumir a cadeira e vê 42 senadores se posicionarem contra o seu nome, num dos maiores reveses do governo na Casa desde o início do mandato.

Gleisi reage poucas horas depois do resultado. Em publicações nas redes sociais e em declarações públicas, a presidente nacional do PT tenta enquadrar a derrota como símbolo de algo maior. “Mais do que uma injustiça contra Jorge Messias, privaram o país de uma pessoa muito qualificada para ser ministro do STF”, escreve. A mensagem circula entre parlamentares da base e amplia a leitura de que o Senado envia um recado direto ao Planalto.

Acusação de “grande acordão” e pressão sobre Lula

A deputada descreve a movimentação no Senado como resultado de um “grande acordão” que, segundo ela, une a oposição bolsonarista a setores com “objetivos eleitoreiros e pessoais”. Para Gleisi, a maioria que barra Messias não atua apenas por divergências jurídicas ou curriculares, mas por cálculo político que se projeta sobre votações decisivas desta semana.

Ela mira especialmente a análise do veto de Lula ao projeto de lei da dosimetria, marcada para esta quinta-feira (30) em sessão conjunta da Câmara e do Senado. O texto altera as regras de cálculo das penas em casos de crimes como os investigados na tentativa de golpe de 8 de janeiro de 2023. “A mesma maioria pode atuar para derrubar o veto do presidente”, alerta a petista, ao associar a derrota de Messias a uma possível ofensiva para revisar condenações de figuras centrais da trama golpista.

Nos bastidores, senadores da oposição e parte do Centrão defendem abertamente a derrubada do veto. O objetivo é reabrir a discussão sobre condenações já firmadas no Supremo, incluindo as de Jair Bolsonaro, que enfrenta processos por incentivar ataques às instituições, e de aliados que participaram da invasão das sedes dos Três Poderes, em Brasília. A mudança na dosimetria, nesse cenário, pode reduzir anos de pena e permitir progressões de regime antecipadas.

Senado em rota de colisão com o Planalto

A sessão que derrota Jorge Messias evidencia o desgaste entre o governo e parte expressiva do Senado. A leitura interna é de que Lula subestima a resistência da Casa ao insistir no nome do advogado-geral da União, visto por opositores como ligado demais ao núcleo duro do PT e à estratégia jurídica do governo. A opção por Messias, em vez de um nome com trânsito mais amplo no Senado, como o presidente da Casa, Rodrigo Pacheco (PSD-MG), alimenta a percepção de confronto.

Davi Alcolumbre (União-AP), presidente da Comissão de Constituição e Justiça, confirma ter manifestado reservas ao nome do advogado antes mesmo da votação. “Dei a opinião”, admite, ao ser cobrado por aliados de Messias. O gesto reforça o diagnóstico de que a resistência não se limita ao campo bolsonarista, mas envolve lideranças que negociam espaços, emendas e influência sobre o Judiciário.

Nesse ambiente, a derrota de Messias é lida no Planalto como parte de uma disputa maior por poder. O STF, com 11 cadeiras, decide temas que vão de política criminal a equilíbrio entre Executivo e Legislativo. A rejeição de um indicado diretamente ligado ao governo sinaliza que o Senado pretende exercer com mais firmeza o papel de contrapeso, mesmo a custo de expor publicamente fissuras na base.

Impacto sobre o STF e a pauta criminal

Gleisi insiste que o país perde um ministro “muito qualificado” e aponta risco imediato para o Supremo. A vaga permanece aberta e mantém o tribunal desfalcado em julgamentos sensíveis, como ações relacionadas a ataques à democracia e revisões de políticas públicas. Cada cadeira vazia atrasa decisões e aumenta a pressão sobre os atuais ministros.

O centro da disputa, no entanto, passa a ser a legislação penal. O projeto da dosimetria, alvo do veto de Lula, mexe diretamente com o cálculo de penas impostas em processos de grande repercussão política. Se o Congresso derruba o veto, abre caminho para pedidos de revisão em série, com impacto em dezenas de condenados ligados aos atos golpistas e a esquemas de desinformação nas redes.

Aliados de Bolsonaro veem na votação de quinta-feira uma oportunidade. A mudança pode reduzir penas superiores a 10 anos, permitir saídas antecipadas do regime fechado e reabilitar politicamente figuras hoje afastadas. Integrantes do governo e de entidades jurídicas alertam, por outro lado, para a mensagem de impunidade em um país que ainda tenta processar o trauma institucional de 2023.

Próximos movimentos e escalada da polarização

Gleisi transforma o caso Messias em bandeira contra o que chama de “aliança vergonhosa”. Ao vincular a derrota à possível derrubada do veto da dosimetria, ela tenta mobilizar a base social do governo e pressionar parlamentares indecisos. A narrativa busca enquadrar o embate não apenas como confronto entre governo e oposição, mas como disputa entre interesse público e arranjos de autoproteção política.

O governo, agora, precisa decidir se insiste em um novo nome de perfil semelhante ao de Jorge Messias ou se busca uma indicação de composição, que dialogue com a maioria do Senado. A escolha definirá o tom da relação com o Congresso nos próximos meses, em meio a votações orçamentárias, reformas e temas sensíveis na pauta de costumes.

A sessão conjunta de quinta-feira se torna, assim, mais do que uma análise de veto. Funciona como termômetro da força real do Planalto, da coesão da base e do alcance da articulação bolsonarista. A rejeição de Messias marca um ponto de inflexão. Resta saber se o episódio será um recado isolado ao governo ou o início de uma ofensiva sistemática do Congresso sobre o STF e sobre o próprio presidente.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *