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Mulher é morta em casa por companheiro com registro de CAC em MG

Uma mulher de 43 anos é morta a tiros pelo companheiro dentro de casa, na noite de 26 de abril de 2026, em Rio Acima, na Grande BH. O filho dela, de 21 anos, tenta defendê-la, é baleado no abdômen e sobrevive. O suspeito, de 46 anos, tem registro de CAC e foge após o crime.

Crime dentro de casa expõe rotina de violência

A noite de domingo termina em tragédia no bairro Jatobá, em Rio Acima, cidade de pouco mais de 10 mil habitantes na Região Metropolitana de Belo Horizonte. Na residência da família, a auxiliar de serviços Gislene Rocha, de 43 anos, é atingida por vários disparos, principalmente nas costas, nas pernas e na região do quadril. Os tiros partem, segundo a Polícia Militar, do próprio companheiro, um homem de 46 anos com registro de CAC, que usaria uma das armas autorizadas para abrir fogo contra a mulher.

O filho de Gislene, de 21 anos, corre para tentar defendê-la e acaba baleado no abdômen. Ferido, consegue fugir pela garagem ao lado de uma tia. Enquanto o sobrinho é socorrido, a irmã da vítima volta à casa e vê o cunhado, ainda armado, atirando várias vezes contra Gislene caída. Em seguida, segundo o relato dela à polícia, ele se aproxima, afirma “matei sua irmã” e sai do imóvel, deixando para trás o corpo da companheira e o enteado gravemente ferido.

Militares do 61º Batalhão chegam poucos minutos depois, acionados por vizinhos assustados com a sequência de tiros. Encontram Gislene inconsciente, ainda com sinais vitais, com perfurações nas costas, pernas e quadril. Ela é levada ao hospital de Rio Acima, mas morre após dar entrada na unidade. O filho, também socorrido, é transferido para o Hospital Nossa Senhora de Lourdes, em Nova Lima. Até a publicação desta reportagem, o estado de saúde dele não é divulgado.

Familiares contam à polícia que o suspeito passa o dia ingerindo bebida alcoólica, sem demonstrar comportamento agressivo. No fim da tarde, ele se tranca com a mulher no quarto. Aparentemente, conversam em voz baixa, sem gritos nem discussão. Em determinado momento, no entanto, Gislene sai do cômodo gritando pelo filho. Em seguida, os disparos começam a ecoar pela casa.

Mensagens nas redes e discussão sobre armas e feminicídio

Enquanto a família tenta socorrer as vítimas, o suspeito deixa a casa e passa a publicar desabafos nas redes sociais. Em uma das mensagens, ele escreve: “Nunca pensei que meu grande amor teria coragem de me trair. Peço a todos perdão, mas infelizmente não pude conter a raiva, pois eu amava muito.” Em outra postagem, afirma: “Sei que todo mundo está me julgando, não queria ter feito isso. Amava ela demais. Infelizmente perdi a razão. A traição acabou com nossas vidas.” As publicações circulam entre moradores de Rio Acima e alimentam a revolta de quem conhecia o casal.

O caso reacende o debate sobre a combinação explosiva entre violência doméstica, ciúme e acesso facilitado a armas de fogo por pessoas com registro de CAC. Na casa do suspeito, policiais encontram um cofre com armas e munições. O conteúdo é apreendido pela perícia da Polícia Civil. Investigadores apuram se a arma usada no crime consta regularmente no acervo do atirador e se há outras ocorrências envolvendo o casal.

A morte de Gislene ocorre em um contexto de alta persistente de feminicídios no país. Desde 2015, a Lei do Feminicídio enquadra o assassinato de mulheres motivado por condição de gênero, em geral em relações marcadas por controle e violência. A pena é maior quando há histórico de agressões anteriores ou descumprimento de medidas protetivas. No caso de Rio Acima, familiares afirmam que não havia registro formal de queixas, mas a Polícia Civil ainda cruza dados em busca de ocorrências anteriores.

O crime também ganha peso político na cidade. Gislene é irmã do vereador Ivanildo Rocha (PP), em seu segundo mandato na Câmara Municipal. Em nota oficial, o Legislativo local lamenta a morte e presta solidariedade à família, sem citar o nome do suspeito. A Câmara informa que acompanha as investigações e promete “cobrar rigor das autoridades”. A data e o local do velório ainda não são divulgados até o início da noite desta segunda-feira.

Comoção, pressão por respostas e caçada ao suspeito

Policiais militares fazem buscas na região de mata em torno de Rio Acima e em endereços ligados ao suspeito, incluindo a casa da mãe dele, mas não o encontram. A fuga amplia o clima de insegurança em um município acostumado a registrar índices mais baixos de violência letal em comparação com cidades vizinhas da Grande BH. Moradores relatam medo de que o atirador ainda circule armado pela região e cobram rapidez na prisão.

Organizações que atuam no enfrentamento à violência doméstica em Minas Gerais acompanham o caso e planejam manifestações na Câmara de Rio Acima nos próximos dias. Integrantes desses grupos defendem maior fiscalização sobre registros de CAC, que cresceram no país na última década, e argumentam que o controle efetivo das armas guardadas em residências é hoje um dos pontos mais frágeis da política de segurança. A Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública é cobrada por dados atualizados sobre crimes cometidos com armas de atiradores registrados na Região Metropolitana.

Investigadores da Delegacia de Homicídios da Região Metropolitana concentram esforços em rastrear o celular do suspeito e monitorar movimentações financeiras. A linha inicial de apuração aponta para crime motivado por ciúme e suspeita de traição, com características de feminicídio qualificado. A expectativa é que laudos periciais sobre a arma usada, a trajetória dos disparos e o conteúdo completo das redes sociais do foragido fiquem prontos nas próximas semanas.

Enquanto o inquérito avança, amigos e parentes se despedem de Gislene e aguardam notícias do estado de saúde do filho. A cidade discute, em conversas de bar e grupos de WhatsApp, até que ponto tragédias como essa poderiam ser evitadas com denúncia precoce de sinais de agressividade, acolhimento rápido às vítimas e fiscalização mais dura de armas em mãos civis. A resposta que vier das investigações e do sistema de justiça dirá se a morte de Gislene será apenas mais um número nas estatísticas ou um ponto de virada no enfrentamento da violência doméstica na região.

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