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Tarcísio reage a propaganda do PT e nega “paternidade compartilhada” de obras

O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), critica nesta segunda-feira (6/4) a propaganda do PT que atribui ao partido a paternidade de obras estaduais financiadas com recursos federais. Em discurso no 68º Congresso Estadual de Municípios, no Anhembi, ele diz que “não adianta querer compartilhar paternidade agora” e acusa o adversário Fernando Haddad (PT) de tentar capitalizar investimentos de Lula em plena pré-campanha paulista.

Tensão eleitoral em torno das obras públicas

A reação de Tarcísio ocorre três dias depois da primeira inserção eleitoral de Haddad deste ano, veiculada na sexta-feira (3/4), em rede estadual. No vídeo, o petista simula uma conversa telefônica com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e afirma que “nunca um governo federal trabalhou tanto por São Paulo”, destacando que “grande parte dos investimentos do governo do estado são com recursos federais”.

Diante de um auditório lotado de prefeitos e secretários municipais, o governador transforma o evento municipalista, em pleno Distrito Anhembi, na zona norte da capital, em palco para rebater a narrativa do PT. Sem citar Haddad pelo nome em todos os momentos, mas mirando o ex-ministro da Fazenda, ele afirma que “quem entrega a obra, quem administra o contrato, quem enfrenta o atraso e o problema com empreiteira é o governo do estado”.

Tarcísio lembra a inauguração da Linha 17-Ouro do Metrô, entregue em 31 de março, quase 12 anos depois da data prometida para a Copa do Mundo de 2014. O projeto recebe, ao longo dos anos, aportes da União, mas fica marcado por aditivos contratuais, disputas judiciais e sucessivas mudanças de cronograma. O governador usa o caso como exemplo para reforçar que a responsabilidade política e técnica recai sobre o Palácio dos Bandeirantes, não sobre o partido que controla o governo federal.

Ao falar aos prefeitos, muitos deles dependentes de convênios e emendas federais para tirar obras do papel, Tarcísio tenta separar a discussão sobre fonte de recursos da disputa pela “paternidade” dos projetos. “Recurso federal não cai do céu, mas também não se transforma em obra sozinho. Quem planeja, licita e responde pelo resultado somos nós”, afirma, em referência à administração paulista.

Disputa por crédito e narrativa em ano eleitoral

A propaganda de Haddad lista repasses do governo Lula para a ampliação do metrô e a recuperação de estradas estaduais, setores que concentram bilhões de reais em investimentos e têm forte apelo junto ao eleitorado da Grande São Paulo e do interior. Desde 2023, o Planalto anuncia pacotes de obras no estado dentro do novo PAC, estimado nacionalmente em centenas de bilhões de reais, com foco em mobilidade, logística e habitação.

O vídeo coloca São Paulo como vitrine da parceria entre Lula e seu ex-ministro, associando o fluxo de dinheiro federal a uma suposta falta de autonomia do governo estadual. Ao reagir em público, Tarcísio tenta neutralizar esse discurso antes que ele se consolide nas redes sociais e nas inserções de TV ao longo do ano. A frase “não adianta querer compartilhar paternidade agora” vira o eixo de sua resposta e busca falar diretamente ao eleitor que acompanha, há anos, obras atrasadas e promessas não cumpridas.

A estratégia de ambos os lados recoloca a discussão sobre quem é o verdadeiro autor das políticas públicas em São Paulo. Na prática, quase toda grande obra de infraestrutura no estado envolve uma combinação de caixa estadual, financiamentos e transferências da União. O embate deixa de ser contábil e passa a ser simbólico: quem aparece no vídeo cortando a faixa, quem grava a propaganda, quem convence o eleitor de que fez mais.

A fala no congresso municipal, que vai até quarta-feira (8/4), também serve para blindar a relação do governador com as prefeituras. Prefeitos temem ficar espremidos entre dois discursos concorrentes, um do Palácio do Planalto e outro do Palácio dos Bandeirantes, cada qual reivindicando o protagonismo regional. Ao insistir que a gestão estadual “entrega” as obras, Tarcísio sinaliza que quer ser visto como parceiro direto dos municípios, mesmo quando o dinheiro nasce em Brasília.

Impacto na campanha paulista e próximos movimentos

A troca pública de acusações sobre a autoria de obras antecipa o tom da campanha pelo governo de São Paulo. Haddad deve usar nos próximos meses a vitrine dos repasses federais para reduzir a vantagem que Tarcísio constrói desde 2022 com a imagem de gestor de infraestrutura, consolidada quando comandou o Ministério da Infraestrutura no governo Jair Bolsonaro (PL). O atual governador, por sua vez, aposta em inaugurações sucessivas de linhas de metrô, corredores de ônibus e estradas recuperadas para sustentar o argumento de eficiência na ponta.

No curto prazo, a controvérsia tende a pautar entrevistas, debates e redes sociais, com cada lado exibindo números próprios. Petistas devem insistir em percentuais de participação da União no financiamento dos projetos, enquanto aliados de Tarcísio enfatizam o volume de obras entregues desde o início do mandato e o cronograma para os próximos dois anos. O embate promete acirrar a polarização também dentro do eleitorado que depende diretamente desses investimentos, como usuários de transporte coletivo e produtores rurais que escoam safra por rodovias estaduais.

Em meio à disputa, prefeitos presentes ao congresso medem palavras. Muitos administram cidades de médio porte, onde a chegada de um viaduto, de um trecho duplicado de rodovia ou de uma estação de metrô metropolitano pode definir a eleição local. O risco, para eles, é ver obras paralisadas ou atrasadas por impasses políticos e disputas de narrativa entre Brasília e São Paulo.

Ainda não há indicação de que o governo federal vá alterar o fluxo de repasses ao estado por causa do embate retórico, nem de que o Palácio dos Bandeirantes vá recusar parcerias. A disputa se dá, por ora, no campo simbólico e na comunicação. Com novas inaugurações previstas para este ano e mais peças eleitorais no horizonte, a pergunta que se impõe ao eleitor paulista é simples e decisiva: quem, de fato, merece o crédito quando o tapume cai e a obra abre as portas?

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