Laudo confirma bactéria em pizza após morte e intoxicação na PB
Exames laboratoriais confirmam contaminação bacteriana em alimentos de uma pizzaria de Pombal, no Sertão da Paraíba, após a morte de Raissa Maritein, 44, e a intoxicação de mais de 100 clientes em março de 2026.
Bactérias em seis das sete amostras analisadas
O laudo divulgado neste sábado (28) pela Secretaria de Saúde da Paraíba aponta presença de bactérias em seis das sete amostras de alimentos coletadas na pizzaria investigada. As análises indicam contaminação microbiológica relevante em produtos servidos ao público, o que reforça a suspeita de intoxicação alimentar em massa na cidade de Pombal.
A vítima fatal é a engenheira agrônoma e servidora pública Raissa Maritein Bezerra e Silva, de 44 anos, que passa mal após consumir pizza no local e morre na manhã de 17 de março, no Hospital Senador Rui Carneiro. De acordo com a Polícia Civil da Paraíba, ao menos 115 pessoas apresentam sintomas de intoxicação em diferentes níveis de gravidade depois de comerem na mesma pizzaria, no centro do município.
Equipes da Vigilância Sanitária Municipal e da Agência Estadual de Vigilância Sanitária vão ao estabelecimento nos dias seguintes às primeiras notificações de pacientes. Técnicos recolhem amostras de pizzas, insumos, molhos e materiais usados na cozinha e encaminham o material para exame. A secretaria estadual confirma que seis das sete amostras apresentam bactérias capazes de causar doenças, embora ainda não detalhe publicamente quais espécies estão envolvidas.
A confirmação do laudo ocorre enquanto familiares da vítima, moradores e comerciantes tentam entender como um produto cotidiano, servido em um ponto tradicional da cidade, se transforma em risco para a saúde pública. O episódio expõe falhas graves na cadeia de preparo, armazenamento ou manuseio de alimentos e pressiona o poder público por respostas rápidas.
Pizzaria questiona perícia e caso mobiliza autoridades
A Polícia Civil instaura inquérito em 16 de março para apurar responsabilidade criminal pela morte de Raissa e pelo surto de intoxicação alimentar. O Instituto de Polícia Científica também é acionado para análises complementares. As investigações avançam em frentes paralelas: a origem da contaminação, possíveis falhas de higiene na cozinha e a relação direta entre os alimentos servidos e o óbito registrado.
O laudo de necropsia de Raissa, segundo informações preliminares, não aponta sinais clássicos de intoxicação alimentar, o que adiciona uma camada de complexidade ao caso. Investigadores trabalham com a hipótese de quadro multifatorial, em que uma possível infecção alimentar possa ter se somado a outras condições clínicas. A perícia tenta reconstruir, hora a hora, o que acontece entre o consumo da pizza e o agravamento do estado de saúde da paciente.
Em nota enviada à CNN Brasil, a defesa da pizzaria La Favorita contesta o uso de uma das amostras como base central das conclusões. “Até o presente momento, a defesa não foi intimada/notificada sobre o resultado desse laudo. Porém, esse resultado em específico, sabemos que se trata de um pedaço de pizza (restos) apreendidos durante o dia 16, segunda-feira, às 16h, ou seja, quase 24h após o preparado da pizza”, afirma a defesa.
No texto, os advogados questionam o procedimento de coleta. “Para além disso, esse ‘pedaço’ estava em temperatura ambiente, ou seja, totalmente fora dos padrões para uma verificação exata e correta. Sabemos que a pizza é um alimento altamente perecível, dessa forma não é possível confirmar se esse pedaço de pizza fora contaminado nas dependências da pizzaria ou não. Seguimos aguardando as investigações por parte da polícia civil”, diz a nota.
Autoridades de saúde, por sua vez, sustentam que o conjunto de amostras, e não apenas um pedaço de pizza, embasa a conclusão sobre contaminação microbiológica relevante. Técnicos envolvem ainda a análise de condições de armazenamento, temperatura de fornos e geladeiras, limpeza de utensílios e fluxo de trabalho na cozinha. O objetivo é identificar pontos críticos em que bactérias conseguem se multiplicar e chegar ao prato do consumidor.
Surto expõe falhas de segurança alimentar e pressiona fiscalização
O caso em Pombal reacende o alerta sobre segurança alimentar em pequenas e médias cidades do interior, onde a fiscalização costuma ser mais rarefeita. Em poucos dias, um restaurante com clientela fiel se torna foco de um surto que leva mais de uma centena de pessoas a buscar atendimento médico. A cena se repete em hospitais públicos e privados, com pacientes relatando diarreia, vômitos, febre e dores abdominais depois de consumir pizzas e outros produtos do cardápio.
Especialistas em saúde pública ouvidos por autoridades locais lembram que bactérias associadas a alimentos, como salmonela e estafilococos, conseguem se multiplicar rapidamente quando há falha em refrigeração, higiene das mãos, manipulação de carnes e uso de ingredientes vencidos. Em alguns quadros, a desidratação e a infecção sistêmica podem ser fatais, especialmente em pessoas com outras doenças pré-existentes.
O impacto econômico também entra na conta. A pizzaria investigada tem as atividades interrompidas, enfrenta queda brusca na clientela e se torna alvo de desconfiança generalizada. Outros estabelecimentos da região sentem reflexos imediatos, com consumidores mais cautelosos e exigentes. Donos de bares, lanchonetes e restaurantes relatam aumento nas cobranças por informações sobre origem dos alimentos, condições de armazenamento e higienização de utensílios.
O episódio pressiona prefeituras e estados a reforçar estruturas de vigilância sanitária, ainda marcadas por equipes pequenas e orçamentos limitados. Em muitos municípios do Sertão, a inspeção sistemática de restaurantes e cozinhas industriais ocorre com longos intervalos, às vezes de mais de um ano. O caso de Pombal funciona como alerta de como uma combinação de falhas pontuais pode resultar em tragédia.
Investigações continuam e podem levar a sanções
O inquérito conduzido pela Polícia Civil da Paraíba segue em andamento, com oitivas de funcionários, proprietários, clientes e profissionais de saúde que atenderam as vítimas. O Ministério Público da Paraíba também instaura procedimento próprio para acompanhar as apurações e avaliar eventual responsabilização criminal e cível. Dependendo das conclusões, a pizzaria pode sofrer desde multas e interdição definitiva até denúncia por homicídio culposo e lesão corporal.
Autoridades de saúde prometem ampliar a fiscalização em Pombal e em outros municípios da região, com foco em locais de grande fluxo, como pizzarias, lanchonetes, buffets e restaurantes por quilo. Técnicos defendem que treinamentos obrigatórios para manipuladores de alimentos, controle de temperatura em tempo real e registros de procedência de insumos deixem de ser exceção e passem a integrar a rotina.
Para familiares de Raissa e para os mais de 100 pacientes que passam dias em incerteza, as respostas oficiais ainda chegam devagar. O laudo que confirma a presença de bactérias nos alimentos é um passo importante, mas não encerra a discussão. A cidade acompanha, com atenção e desconfiança, cada movimento das autoridades, à espera da definição mais sensível desse caso: onde exatamente a cadeia de segurança alimentar falhou e quem, de fato, será responsabilizado.
