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Governo Lula teme ofensiva de Trump na América Latina para desviar de crise no Irã

Integrantes do governo Lula avaliam que Donald Trump pode usar o Brasil, a Colômbia e Cuba como palco de novas ações políticas e sanções já nos próximos meses, em meio ao impasse da guerra no Irã e à pior taxa de desaprovação do republicano em seus dois mandatos, hoje em 59% segundo pesquisas recentes nos EUA.

Crise no Irã acende alerta em Brasília

Em conversas reservadas em Brasília, assessores diretos de Lula descrevem um cenário em que a América Latina vira válvula de escape para a crise externa e interna de Trump. A leitura é que o prolongamento da guerra no Irã corrói a imagem dos Estados Unidos como mediador e desgasta o presidente perante seu próprio eleitorado, às vésperas da disputa presidencial de 2026.

O diagnóstico circula em diferentes áreas do governo, da diplomacia à equipe econômica. A percepção comum é de que a “grande perdedora” do impasse no Oriente Médio é a credibilidade de Trump como parceiro internacional. A desaprovação de 59% registrada em pesquisas recentes é tratada como gatilho para o que auxiliares chamam de “aventuras” na região.

Um interlocutor do Planalto resume a preocupação com palavras duras: “A tentação de inventar uma crise no quintal alheio para arrumar a casa em Washington nunca desaparece”. A visão é de que gestos considerados diversionistas podem ganhar força à medida que a guerra se arrasta sem horizonte claro de encerramento.

No Itamaraty, diplomatas experientes recordam que ofensivas político-militares em países latino-americanos costumam coincidir com momentos de fragilidade interna de presidentes americanos. A lembrança inclui o endurecimento com Cuba em diferentes governos e episódios de pressão aberta sobre governos considerados incômodos em Bogotá, Caracas e Havana nas últimas décadas.

Brasil, Colômbia e Cuba entram no radar

A avaliação do governo é que a Colômbia volta a ocupar lugar sensível na agenda da Casa Branca. O presidente Gustavo Petro, primeiro líder de esquerda a comandar o país, ganha fôlego na opinião pública ao confrontar Trump em temas como a condução da guerra no Irã e a política de drogas. Auxiliares de Lula, porém, não descartam algum nível de ingerência americana nas eleições colombianas marcadas para maio.

Um assessor com acesso às discussões de alto nível afirma que o movimento não precisa envolver tropas ou ações ostensivas. “Pressão econômica, financiamento indireto de campanhas e operações de influência em redes sociais são formas muito mais baratas de intervir”, diz. A aposta é que qualquer gesto será calibrado para não soar como intervenção clássica, mas terá efeito no debate político local.

Cuba vive situação ainda mais tensa. Após meses de foco quase exclusivo no Oriente Médio, o governo americano volta a mencionar publicamente a ilha caribenha em discursos oficiais. Em Brasília, esse reposicionamento é lido como tentativa de recuperar apoio de setores conservadores nos EUA que veem Havana como símbolo histórico do inimigo ideológico.

No caso brasileiro, o temor imediato é financeiro. Uma ofensiva de Trump na linha sugerida por aliados de Jair Bolsonaro pode levar à adoção de sanções contra empresas nacionais, sobretudo em setores com maior exposição ao sistema bancário dos EUA. Integrantes da equipe econômica alertam que bloqueios de ativos, restrições a transações em dólar e barreiras a exportações específicas teriam impacto direto sobre investimentos e crédito.

Há ainda preocupação com movimentos de médio prazo. Setores da área de segurança relatam que uma eventual classificação de facções brasileiras, como PCC e Comando Vermelho, como organizações terroristas por Washington poderia servir de base jurídica para justificar operações militares pontuais em território estrangeiro. “Uma vez que o rótulo de terrorismo entra na mesa, todo o cardápio de exceções legais se abre”, afirma um técnico envolvido no monitoramento do tema.

Filhos de Bolsonaro reforçam lobby nos EUA

A ofensiva política não se desenha apenas em Washington. O governo acompanha de perto a movimentação de Flávio e Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos. Os dois participam, neste fim de semana, de uma reunião da ultradireita americana no Texas, encontro que reúne estrategistas, parlamentares e financiadores ligados ao trumpismo.

Brasília trabalha com o cenário de que os filhos do ex-presidente vão atuar abertamente para convencer autoridades e parlamentares americanos a classificar o PCC e o Comando Vermelho como grupos terroristas. A narrativa se ancora no aumento da violência organizada no Brasil e em conexões transnacionais do crime. A diplomacia brasileira tenta ocupar o mesmo espaço político, oferecendo cooperação em segurança, mas resistindo ao enquadramento automático de facções como terrorismo.

Um negociador da área de segurança define a estratégia como tentativa de “talhar o lobby bolsonarista”. A ideia é manter canais técnicos abertos com Washington, discutir medidas de combate ao crime e, ao mesmo tempo, conter a escalada retórica que pode se transformar em política oficial da Casa Branca.

Os riscos, segundo esse diagnóstico, não se limitam ao campo simbólico. A eventual inclusão de organizações brasileiras em listas de terrorismo nos EUA aciona automaticamente uma série de mecanismos de controle financeiro e de inteligência. Bancos internacionais passam a revisar operações ligadas ao país com mais rigor, investidores recalculam exposição e seguradoras reavaliam coberturas. O efeito em cadeia pode se traduzir em crédito mais caro e retração de negócios.

Impacto regional e próximos passos

A possibilidade de “novas aventuras” de Trump na América Latina é vista, em Brasília, como fator adicional de instabilidade em uma região já marcada por tensões políticas. No curto prazo, governos de Brasil, Colômbia e Cuba tendem a reforçar canais diplomáticos e fóruns multilaterais para tentar blindar negociações econômicas de sobressaltos vindos de Washington.

No caso brasileiro, diplomatas avaliam medidas de proteção que vão da diversificação de parceiros comerciais à construção de mecanismos regionais de compensação financeira, para reduzir a dependência do dólar em determinadas transações. Ao mesmo tempo, cresce a pressão interna para que o governo Lula mostre firmeza diante de qualquer tentativa de sanção unilateral, sem romper pontes com a principal economia do mundo.

Especialistas lembram que o calendário eleitoral de 2026 nos EUA tende a amplificar cada gesto na política externa. A tentação de usar a América Latina como vitrine de suposta força e liderança global convive com o risco de reação coordenada de países sul-americanos, cansados de interferências. “Não há mais espaço para uma diplomacia que trate a região como peça de xadrez doméstico”, avalia um ex-embaixador brasileiro em Washington.

O governo Lula agora monitora, quase em tempo real, pesquisas de opinião nos EUA, decisões do Conselho de Segurança Nacional americano e movimentações do Congresso alinhado a Trump. A dúvida que paira em Brasília, Bogotá e Havana é se a pressão levará o republicano a recuar ou se a combinação de guerra no Irã, baixa popularidade e disputa eleitoral vai empurrar a América Latina de volta para o centro do tabuleiro.

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