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Ancelotti entrega Brasil a Raphinha e Vini Jr em teste contra a França

Carlo Ancelotti escolhe Raphinha e Vinicius Júnior como pilares da seleção brasileira que enfrenta a França nesta quinta (26), em Boston. A dupla volta a começar um jogo com o técnico italiano após quase um ano de espera.

Aposta máxima em uma dupla rara

As paredes da sede da CBF, na Barra da Tijuca, já conhecem de cor a convicção do treinador. Em conversas internas, Ancelotti repete que sua confiança está na qualidade de Raphinha e Vinicius Júnior. Em uma enquete informal imaginada por ele, mais de 70% das pessoas colocariam os dois entre os cinco melhores jogadores do mundo hoje.

O jogo em Boston transforma essa crença de bastidor em escolha oficial. Pela segunda vez desde que chegou ao Brasil, em 25 de maio do ano passado, o italiano consegue colocar a dupla como titular sob seu comando. A única ocasião anterior termina com vitória por 1 a 0 sobre o Paraguai, em Itaquera, no segundo de seus oito compromissos até aqui pela seleção.

A presença conjunta de Raphinha e Vinicius não é novidade para o torcedor, mas ganha novo peso nas mãos de Ancelotti. Com Tite, Fernando Diniz e Dorival Júnior, eles somam mais oito vitórias, nove empates e duas derrotas, para a Colômbia, em Bogotá, e para a Argentina, por 4 a 1, em Buenos Aires. O histórico mostra que a dupla não transforma o Brasil em time imbatível, mas oferece algo que o técnico considera ainda mais valioso: um ponto de partida claro para construir o resto.

Desde que desembarca no Rio, o treinador lida com calendário apertado, lesões e convocações partidas entre clubes europeus. O encontro em Boston, diante de uma França que testa força máxima às vésperas da Copa, funciona como síntese desse primeiro ano de adaptação. Em vez de reclamar das ausências, ele decide dobrar a aposta em seu talento mais lapidado.

O Brasil de 70 jogadores de nível de seleção

O discurso de Ancelotti sobre o Brasil sempre volta à mesma imagem. Para ele, nenhum outro país consegue reunir 70 jogadores em nível de seleção. A frase circula entre dirigentes, comissão técnica e jogadores desde os primeiros treinos na Granja Comary. O italiano repete a ideia em conversas reservadas e entrevistas, como um mantra que explica a própria estratégia.

Esse entendimento se reflete na lista de nomes que cercam a dupla em campo. Matheus Cunha, ponta-esquerda no Manchester United, vira ponta-de-lança com a amarelinha. João Pedro, acostumado a ser centroavante, pode atuar também como camisa 10. Endrick e Estêvão aparecem como símbolos da nova safra, jogadores ainda em início de carreira, mas que o treinador vê como capazes de ajudar a ganhar a Copa do Mundo de 2026.

O plano passa por uma combinação delicada. Raphinha, mais tático, ajuda a equilibrar o time e proteger o lateral. Vinicius, mais agressivo, puxa o Brasil para frente em velocidade e drible. Ao redor, Ancelotti gira as peças, testa formações, altera a distribuição dos meio-campistas, mas evita mexer na dupla sempre que pode. O jogo contra a França, dono de um ataque que intimida qualquer adversário, oferece cenário ideal para medir se essa base resiste a um nível próximo ao da Copa.

A escolha tem impacto direto na forma de jogar. Com dois pontas de alto nível, o time tende a adiantar a marcação, pressionar a saída de bola francesa e buscar transições rápidas. A aposta é alta: se a dupla funciona, o Brasil ganha identidade clara, algo que faltou em parte do ciclo anterior. Se falha, o técnico sabe que não terá muito tempo para redesenhar sua hierarquia ofensiva até junho de 2026.

Impacto em elenco, torcida e futuro da seleção

A decisão de centralizar o projeto em Raphinha e Vinicius altera também a dinâmica interna do grupo. Jogadores ofensivos entendem que a disputa principal deixa de ser por protagonismo e passa a ser por complementaridade. Quem entra precisa se encaixar ao estilo da dupla, seja oferecendo mais presença de área, passe entre linhas ou controle de ritmo no meio-campo.

A torcida sente essa mudança na forma como acompanha a seleção. Em vez de esperar um salvador da pátria isolado, o olhar se volta para uma sociedade. O torcedor brasileiro se acostuma a ver Vinicius assumir o papel de referência técnica no Real Madrid e Raphinha sustentar protagonismo em clube europeu. A reunião dos dois sob comando de Ancelotti em jogos oficiais de seleção, porém, ainda é rara. Por isso, cada partida em que começam juntos carrega peso de laboratório e de promessa.

No ambiente político da CBF, a aposta também gera consequências. Uma atuação convincente contra a França fortalece a narrativa de que o projeto Ancelotti está no rumo correto, mesmo com menos de dois anos de trabalho completo. Dirigentes ganham argumento para blindar o treinador em eventuais turbulências. Um tropeço, especialmente se expuser fragilidades defensivas ou falta de conexão entre os setores, alimenta o debate sobre equilíbrio entre brilho individual e solidez coletiva.

Os números acumulados até aqui oferecem um retrato parcial. Em oito partidas à frente da seleção, o italiano ainda não consegue repetir escalações, esbarra em desfalques e em jogadores chegando em estágios físicos diferentes. O jogo em Boston se coloca como termômetro mais fiel, diante de um rival que disputa o topo do ranking mundial e que é citado internamente como “medida padrão” para quem quer ganhar a Copa.

França como exame final antes da Copa

Ancelotti trata a partida desta quinta como espécie de exame final de um primeiro ciclo. A França oferece um cenário que se aproxima do que o Brasil encontrará em uma eventual semifinal ou final de Copa do Mundo em 2026. Pressão alta, jogadores decisivos em todos os setores e ambiente de torcida dividida em Boston formam uma combinação que testa o emocional e o tático.

Se a dupla Raphinha e Vinicius corresponde, o técnico ganha argumento forte para mantê-los como intocáveis na rota até a Copa e organizar o elenco em torno deles. Jovens como Endrick e Estêvão podem entrar com menos peso, sabendo que o eixo ofensivo já está definido. Se o plano emperra, o treinador terá de enfrentar, ainda nesta Data Fifa, questionamentos sobre alternativas, reposições e eventuais mudanças de função para seus principais nomes.

A noite de Boston, assim, vale mais do que um amistoso de março. Marca um ponto de não retorno no projeto do italiano. Ele já escolhe quem carrega o time nos momentos de maior pressão. A partir do apito final, a questão deixa de ser se Raphinha e Vinicius conseguem liderar o Brasil e passa a ser se o restante da seleção estará à altura de acompanhar a dupla até o fim do caminho na Copa do Mundo.

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