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Brasileiro Stênio Zanetti relata ataque russo a 500 m em Lviv

O atacante brasileiro Stênio Zanetti presencia, na terça-feira (24), um ataque russo a drones que fere ao menos 22 pessoas e atinge prédio histórico em Lviv, na Ucrânia. O jogador do Karpaty Lviv está a cerca de 500 metros da explosão e vê de perto o impacto da guerra em uma das cidades consideradas mais seguras do país.

Explosões em plena luz do dia mudam rotina em cidade tida como refúgio

A tarde de Lviv, por volta de 16h30, parece mais uma entre tantas desde o início da guerra, até que as sirenes cortam o centro histórico. No escritório do Karpaty Lviv, clube tradicional da cidade, Stênio encerra compromissos quando decide ir para casa. Ele mal entra no carro e a normalidade se desfaz.

“Eu estava indo para casa quando escutei a sirene. Peguei o carro e no caminho comecei a ver um tanto de pessoas olhando para o céu”, relata o atacante de 22 anos, revelado pelo Cruzeiro e com passagem pelo América. A cena se repete em várias esquinas do centro, enquanto sistemas de defesa tentam interceptar uma nova leva de drones russos.

O brasileiro encosta o veículo, abaixa o vidro e ouve a sequência de estrondos. “Abaixei o vidro do carro, encostei o carro e escutei as explosões. Alguns drones foram interceptados, mas um caiu no centro. Por coisa de cinco minutos eu não estava bem perto do local da explosão”, afirma. O alvo fica a cerca de 500 metros do escritório do clube.

O impacto atinge um prédio no centro histórico e provoca incêndio em plena luz do dia. Ao menos 22 pessoas ficam feridas, segundo autoridades locais, em mais um capítulo da ofensiva russa que mira infraestrutura e áreas urbanas em diferentes regiões da Ucrânia. A Igreja de Santo André, do século XVII e integrante de um conjunto tombado como Patrimônio Mundial da Unesco, também sofre danos.

Lviv, próxima à fronteira com a Polônia, se torna símbolo de refúgio desde 2022 e abriga milhares de deslocados internos. O bombardeio desta terça reforça que, mesmo longe da linha de frente, a cidade não está imune. “No período que estou aqui esse foi o que mais senti na pele. Foi muito tenso, mas a cidade é mais tranquila. Tem cidades que os ataques são bem piores. Kiev, a capital, e outras que ficam mais próximas da Rússia”, compara Stênio.

Guerra invade o futebol e impõe rotina de sirenes e incerteza

Os ataques em Lviv ocorrem no mesmo dia em que a Força Aérea ucraniana relata quase mil drones russos lançados contra o país entre segunda e terça-feira. Pelo menos cinco pessoas morrem e dezenas ficam feridas em diferentes regiões, num dos bombardeios mais intensos dos últimos meses. A escalada ajuda a explicar a tensão que atravessa a rotina de jogadores estrangeiros no futebol ucraniano.

Stênio, acostumado a vestiários no Brasil, passa a conviver com protocolos de guerra. Abrigos subterrâneos, aplicativos de alerta e sirenes não fazem mais parte apenas do noticiário. “Na Ucrânia há vários protocolos de segurança a serem seguidos, mas Lviv recebeu poucos ataques durante a guerra”, diz. A sensação de relativa segurança, porém, se desfaz quando o estrondo das explosões ecoa pelo centro histórico.

As atividades do Karpaty Lviv seguem, em tese, dentro da normalidade. Treinos mantêm a programação, partidas oficiais continuam, torcedores vão aos estádios. O que muda é o modo como o jogo pode ser interrompido a qualquer momento. “Às vezes, estamos jogando e tem o toque da sirene. O jogo pausa, as equipes voltam para o vestiário até que passe o perigo. Então, retorna o jogo”, conta o atacante.

A convivência com o risco constante pesa também nas decisões de carreira. O atacante admite que o episódio em Lviv reacende dúvidas sobre o futuro imediato. “Ficamos com um pouco de receio e de medo. A situação é complicada. Estamos vendo os próximos passos. No começo do ano eu tive algumas propostas, mas o clube não me liberou”, revela. Ele não descarta uma transferência, vê com bons olhos retornar ao Brasil, mas admite preferência por permanecer na Europa.

O vestiário do Karpaty ajuda a amortecer o choque cultural e a tensão diária. O clube é um dos que mais concentram brasileiros na Ucrânia: são seis atletas do país, entre eles o meio-campista Bruninho, revelado pelo Atlético. A presença de compatriotas cria uma rede de apoio emocional num ambiente em que a própria comunicação vira desafio.

“Nos ajudamos muito. Sempre que há uma folga saímos para jantar. Convivemos bastante. A linguagem ucraniana é muito difícil. O clube dá um suporte, mas às vezes, sozinho, não tem como se comunicar. A comunidade brasileira é muito importante”, diz Stênio. A troca de mensagens com familiares e amigos no Brasil, na sequência do ataque, expõe o medo do lado de cá do oceano.

Cidade em alerta permanente e um futuro em aberto

O bombardeio desta terça deixa marcas físicas no centro histórico de Lviv e produz um trauma adicional em moradores e estrangeiros. Prédios centenários danificados, igreja tombada pela Unesco atingida e dezenas de feridos criam uma espécie de mapa visível da guerra em uma cidade que tenta preservar alguma normalidade. Para quem vive ali, o conflito deixa de ser algo distante da fronteira leste e se instala de forma definitiva no cotidiano.

Para Stênio e outros atletas do Karpaty, a pergunta sobre até quando permanecer no país ganha urgência. A cada sirene, a cada interrupção de jogo, a linha que separa futebol e guerra fica mais tênue. O atacante segue treinando, observa o mercado e aguarda novas propostas, enquanto avalia riscos e oportunidades. Lviv volta a amanhecer no dia seguinte, com treinos marcados e prazos de campeonatos mantidos, mas a lembrança das explosões a poucos metros de distância indica que, na Ucrânia em guerra, nenhuma rotina está garantida para o dia seguinte.

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