Fotos de Erika Hilton e Duda Salabert vão a álbum de suspeitos em PE
Fotos das deputadas federais Erika Hilton (Psol-SP) e Duda Salabert (PDT-MG) aparecem em um livro de suspeitos da Polícia Civil de Pernambuco em maio de 2025. As parlamentares denunciam racismo e transfobia institucional e acionam a Justiça em março de 2026.
Reconhecimento de roubo vira caso de violação de direitos
O que começa como a investigação de um roubo de celular em Recife se transforma em um imbróglio político e jurídico que expõe a face mais dura da discriminação institucional no país. Um procedimento de reconhecimento fotográfico, feito em maio de 2025, inclui as imagens de duas das principais figuras trans da política nacional em um livro de suspeitos, sem qualquer vínculo com o crime.
A revelação vem a público em 24 de março de 2026, quando Duda Salabert divulga o episódio em suas redes sociais e comunica que já aciona a Justiça. “Isso é gravíssimo! Isso é racismo e transfobia institucional. Já acionei a Justiça. Não vamos aceitar que a identidade de travestis vire critério de suspeição”, escreve a deputada mineira. A repercussão é imediata e joga luz sobre a rotina pouco visível de práticas discriminatórias em procedimentos policiais.
O caso tem origem em um inquérito instaurado em 8 de abril de 2025, na Delegacia de Polícia da Segunda Circunscrição de Boa Vista, em Recife, para apurar o roubo de um celular no bairro. Cerca de 40 dias depois, a vítima é chamada para um reconhecimento fotográfico, no qual seis imagens são apresentadas. Entre elas, as fotos de Erika Hilton e Duda Salabert, ambas em exercício do mandato em Brasília, a quase 2 mil quilômetros de distância.
A Defensoria Pública de Pernambuco, em ofício, aponta que não há justificativa técnica para a inclusão das deputadas no procedimento. “A única razão que pode explicar a inserção dessas fotografias no procedimento é o fato de que ambas as parlamentares são mulheres negras e trans — o que evidencia, de forma inequívoca, que o critério de seleção adotado pela autoridade policial foi o pertencimento a um grupo identitário de gênero e raça, e não qualquer semelhança individualizada com a descrição física da suspeita fornecida pela vítima”, registra o texto.
O documento revela ainda que a página do livro de suspeitos, usada no reconhecimento, traz lado a lado as fotos das duas parlamentares. A composição sugere que o fator comum não é traço facial ou detalhe específico, mas a identidade de gênero e a racialização dos corpos representados ali, o que reforça a acusação de preconceito estrutural reproduzido pelo Estado.
Estado sob pressão e desconfiança sobre segurança pública
A denúncia atinge um dos pontos mais sensíveis da política de segurança pública no Brasil: o uso do reconhecimento fotográfico, mecanismo já questionado por produzir erros e prisões injustas, sobretudo contra a população negra. O episódio em Pernambuco soma um novo elemento a esse debate ao envolver figuras públicas, com ampla visibilidade e histórico de atuação na defesa de direitos humanos.
Em publicação no X (antigo Twitter) em 25 de março de 2026, Erika Hilton afirma que cobra explicações diretas da governadora de Pernambuco, Raquel Lyra (PSD). “Isso é incompetência, discriminação e, sim, transfobia”, escreve a deputada. Na mesma mensagem, ela critica o uso indiscriminado de álbuns de suspeitos: “O uso irresponsável do reconhecimento fotográfico precisa parar. Isso está colocando gente inocente na prisão enquanto os verdadeiros criminosos seguem soltos”.
Casos de erros em reconhecimentos já levam tribunais superiores a fixar regras mais rígidas para o uso dessa prova. Entidades como a Defensoria Pública e organizações de direitos humanos apontam que, sem critérios claros, o método se transforma em atalho para reforçar estereótipos, sobretudo quando a seleção de fotos recai sobre pessoas negras, pobres e, cada vez mais, sobre corpos trans. A inserção de duas parlamentares nesse contexto escancara a mesma engrenagem, agora em escala nacional.
Movimentos sociais e bancadas progressistas no Congresso veem no caso um exemplo paradigmático de racismo e transfobia institucional, expressão usada quando a discriminação não é ato isolado, mas prática embutida na rotina de órgãos públicos. O alvo, dizem, não são apenas Erika e Duda, mas qualquer pessoa que compartilhe daquela identidade e passe a ser vista como suspeita antes mesmo de qualquer fato concreto.
A confiança da população nas forças de segurança, já abalada por sucessivos casos de abuso, sofre novo abalo. Se duas deputadas federais, com mandato, assessoria jurídica e visibilidade, veem sua imagem colocada em um álbum de suspeitos sem fundamento, o que acontece, na prática, com quem não tem voz, advogado ou mandato para reagir?
Investigação, responsabilização e disputa por mudanças
Diante da repercussão, a governadora Raquel Lyra liga para as deputadas e pede desculpas. Em nota nas redes sociais, a chefe do Executivo pernambucano informa que determina “apuraçã o rigorosa com abertura de processo na Corregedoria da Secretaria de Defesa Social”. A promessa é identificar quem seleciona as fotos, quais critérios são usados e se há outras situações semelhantes em delegacias do estado.
A Secretaria de Defesa Social de Pernambuco é procurada para explicar o procedimento, mas não responde até o fechamento da reportagem. A ausência de resposta amplia a cobrança por transparência e alimenta a pressão sobre o governo estadual para apresentar resultados concretos em prazos definidos, com nomes, punições e correções de rota.
No Congresso, aliadas de Erika e Duda articulam audiências públicas e pedidos de informação ao Ministério da Justiça sobre o uso de álbuns e bancos de imagens em investigações criminais. A tendência é que o caso de Recife impulsione projetos de lei que estabeleçam limites objetivos para o reconhecimento fotográfico, com exigência de justificativa formal, registro em ata e proibição de seleção baseada apenas em raça, gênero ou identidade de gênero.
Especialistas em segurança pública defendem que o episódio sirva de gatilho para uma revisão nacional dos procedimentos. Falam em prazos para auditoria de bancos de fotos, regras para alimentação desses arquivos e treinamento obrigatório de policiais para evitar práticas discriminatórias. Sem essa revisão, afirmam, o sistema continua a reproduzir o mesmo padrão: investiga corpos, não condutas.
A denúncia apresentada em 24 de março de 2026, somada à investigação aberta pela Corregedoria, tende a produzir desdobramentos judiciais e políticos ao longo dos próximos meses. O ponto de partida está claro: duas fotos em um livro de suspeitos. A pergunta, agora, é se esse episódio se limita a uma correção pontual ou se abre caminho para mexer em uma estrutura que, há décadas, seleciona quem é visto como suspeito antes mesmo que qualquer crime seja investigado.
