PF mira conselheiro de Lula e CEO da Fictor em investigação de fraudes bancárias
A Polícia Federal cumpre, nesta quarta-feira (25), mandados de busca e apreensão contra o empresário Luiz Rubini, integrante do Conselhão de Lula, e contra Rafael Góis, CEO do Grupo Fictor. A ação faz parte de uma investigação sobre suspeita de fraudes bancárias que podem somar R$ 500 milhões em prejuízos a grandes instituições financeiras.
Fraudes em série e elo com o Planalto
Os mandados atingem endereços residenciais e locais ligados aos dois empresários em diferentes estados do país. Os agentes recolhem documentos e celulares para rastrear o caminho do dinheiro e detalhar a dinâmica das operações suspeitas. Entre os materiais apreendidos está o telefone de Rafael Góis, apontado pelos investigadores como peça-chave para reconstituir mensagens, contatos e decisões internas do grupo.
O caso ganha peso político porque Rubini ocupa uma cadeira no Conselho de Desenvolvimento Econômico Social e Sustentável, o Conselhão, órgão de assessoramento direto ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Ele é ex-sócio do Grupo Fictor e chega ao colegiado em 1º de agosto de 2025, com mandato previsto até 5 de março de 2027, numa leva de mais de cem nomes escolhidos pelo Planalto para discutir a agenda de desenvolvimento do país.
A PF aponta indícios de um esquema que atinge não só a Caixa Econômica Federal, foco inicial da apuração, mas também Banco do Brasil, Bradesco, Santander e Safra. As suspeitas giram em torno de operações de crédito e transações financeiras estruturadas para burlar controles internos dos bancos e gerar ganhos irregulares, com possível prejuízo estimado em cerca de R$ 500 milhões. O detalhamento das manobras ainda depende da análise dos documentos apreendidos e dos dados extraídos dos aparelhos eletrônicos.
Em nota, a defesa de Rubini afirma que o empresário não tem conhecimento prévio do processo e avisa que “se manifestará oportunamente” após acesso aos autos. A CNN procura o Palácio do Planalto para comentar a operação envolvendo o conselheiro, mas ainda não recebe resposta. O silêncio oficial aumenta a pressão sobre o governo num momento em que o Planalto tenta blindar sua agenda econômica de novos focos de crise.
Fictor sob pressão e o efeito Banco Master
O Grupo Fictor já está no radar da Polícia Federal desde fevereiro deste ano, quando o inquérito é aberto. A holding financeira atravessa uma crise que se aprofunda depois da tentativa frustrada de comprar o Banco Master, em novembro de 2025. Meses depois, o Banco Central decreta a liquidação extrajudicial da instituição de Daniel Vorcaro, e a operação fica sob forte questionamento no mercado.
Em fevereiro, a Fictor pede recuperação judicial no Tribunal de Justiça de São Paulo. A empresa declara compromissos de aproximadamente R$ 4 bilhões e promete, em nota, quitar as dívidas “sem nenhum deságio”, isto é, sem desconto para os credores. No processo, o grupo atribui a piora dos números à repercussão negativa da tentativa de aquisição do Banco Master, que teria provocado cancelamento de contratos e um “descompasso temporário” nos fluxos operacionais.
Rafael Góis, atual CEO da Fictor, tenta administrar essa travessia em meio às suspeitas criminais. A defesa do executivo e do grupo confirma o cumprimento do mandado de busca na residência do empresário e informa que o celular dele é apreendido. “Foi realizada hoje diligência de busca e apreensão na residência de Rafael Góis, CEO da Fictor, no âmbito de investigação conduzida pela Polícia Federal. Apenas o seu celular foi apreendido”, diz a nota. Segundo os advogados, “tão logo sua defesa tenha acesso ao conteúdo da investigação, serão prestados os esclarecimentos necessários às autoridades competentes, com o objetivo de elucidar os fatos”.
O caso adiciona uma camada de incerteza a um setor já pressionado por decisões recentes do Banco Central e por crises pontuais em instituições de médio porte. Bancos citados na investigação monitoram a repercussão entre investidores e reguladores. Qualquer indicação de falhas graves de governança ou de conivência interna com fraudes pode gerar novas normas, auditorias adicionais e revisões em linhas de crédito para grupos considerados de maior risco.
Impacto político e próximos passos da investigação
A presença de Rubini no Conselhão Sustentável intensifica o desgaste político. Criado em 2003, no primeiro mandato de Lula, o colegiado reúne empresários, sindicalistas, representantes de movimentos sociais, do agronegócio, do setor financeiro, de fintechs e de comunidades tradicionais para formular recomendações de políticas públicas. Extinto em 2019, no início do governo Jair Bolsonaro (PL), o órgão é recriado em 2023 com o adjetivo “Sustentável” para enfatizar a agenda climática e ambiental.
Os conselheiros são escolhidos diretamente pelo presidente com base na trajetória profissional, na influência pública e na capacidade de contribuir com o debate sobre desenvolvimento. A investigação sobre um integrante ligado ao setor financeiro abre uma frente de questionamentos sobre critérios de nomeação, monitoramento de conflitos de interesse e mecanismos de prevenção de riscos éticos dentro do colegiado. A oposição no Congresso já se movimenta para usar o caso como munição contra o governo em comissões e sessões plenárias.
Na esfera criminal, a PF deve concentrar os próximos passos na perícia do material apreendido e no cruzamento de dados bancários, fiscais e de comunicação. O objetivo é montar a linha do tempo das operações suspeitas, identificar quem autoriza cada etapa e medir com precisão o prejuízo a cada instituição financeira. Dependendo dos resultados, o inquérito pode avançar para denúncias formais do Ministério Público, que podem atingir executivos, intermediários e eventuais beneficiários finais das fraudes.
Para a Fictor, o avanço da investigação tende a dificultar negociações com credores na recuperação judicial e a encarecer qualquer tentativa de captação de novos recursos. Para o governo, o risco imediato é ver o Conselhão, peça simbólica da tentativa de diálogo amplo com a sociedade, associado a suspeitas de irregularidade financeira em plena discussão sobre ética, transparência e uso de cargos de influência. A principal incógnita, por ora, é se a apuração ficará restrita ao círculo empresarial da Fictor ou se alcançará estruturas políticas mais amplas do entorno do poder.
