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Debandada de prefeitos do PL no Paraná acende disputa por Moro

Uma onda de desfiliações de prefeitos do PL no Paraná ganha corpo em março de 2026, após a filiação de Sergio Moro à sigla. O movimento expõe fissuras internas e força o grupo do governador Ratinho Jr. a reagir para conter perdas políticas às vésperas da disputa municipal.

Filiação de Moro desencadeia efeito cascata

A entrada de Sergio Moro no PL, sacramentada no início de março, muda o eixo de poder da legenda no Paraná. Prefeitos que comandam cidades de médio porte desde 2016 veem na movimentação uma tentativa de reposicionar o partido em torno do ex-juiz e de seu grupo, criando atritos com lideranças locais ligadas ao governo estadual.

Em menos de três semanas, ao menos uma dezena de prefeitos inicia o processo de desfiliação, segundo relatos de dirigentes regionais. Alguns já protocolam a saída na Justiça Eleitoral, enquanto outros negociam janelas partidárias e avaliam convites de siglas como PSD, PP e União Brasil. O recado, segundo um prefeito da região Oeste, é direto: “Ninguém aceita ser comunicado depois, queremos participar das decisões e não ser apenas palanque”.

Grupo de Ratinho tenta conter erosão

O movimento acende o sinal de alerta no Palácio Iguaçu. Aliados de Ratinho Jr. passam a percorrer o interior em reuniões fechadas, muitas vezes sem registro oficial, para medir o tamanho da insatisfação e oferecer alternativas. A mensagem é de que o governo estadual seguirá priorizando prefeituras alinhadas ao projeto de reeleição em 2026, independentemente da sigla, mas que a permanência no PL facilitaria a coordenação política.

Em encontros em cidades como Cascavel, Maringá e Ponta Grossa, assessores do governador reforçam que o mapa de investimentos de 2024 e 2025 ainda prevê obras em rodovias estaduais, hospitais regionais e escolas em tempo integral, com contratos que somam mais de R$ 2 bilhões. A leitura entre prefeitos é de que a caneta do Executivo estadual segue sendo um fator decisivo, ainda que o alinhamento automático ao PL não seja mais dado como certo.

Nos bastidores, interlocutores de Ratinho dizem que a prioridade é impedir que a debandada se transforme em narrativa de isolamento do governador dentro da própria base bolsonarista. “Não se trata de uma guerra com Moro, mas de preservar o protagonismo do Paraná nas negociações”, argumenta um aliado próximo. A fala expõe a disputa por espaço num campo político que, desde 2018, se equilibra entre o legado da Lava Jato e o bolsonarismo raiz.

Tensões antigas vêm à tona

A chegada de Moro ao PL apenas cristaliza um desconforto que se arrasta desde as eleições de 2022. Prefeitos reclamam de pouca interlocução com a direção estadual, formada em grande parte por aliados de figuras de projeção nacional, como o ex-presidente Jair Bolsonaro. A sensação, segundo um dirigente do interior, é de que “Brasília fala alto, mas não conhece a realidade de um município de 20 mil habitantes”.

O histórico recente ajuda a explicar o clima. Entre 2018 e 2022, o PL salta de coadjuvante a protagonista no campo conservador, com crescimento expressivo de bancada federal e presença em governos estaduais estratégicos. No Paraná, porém, o partido convive com a força de uma máquina estadual controlada por Ratinho Jr., eleito em primeiro turno com mais de 60% dos votos em 2018 e reeleito em 2022 com margem semelhante. Essa assimetria alimenta a disputa por quem comanda palanques e define candidaturas majoritárias.

Agora, com o calendário eleitoral de 2026 no horizonte e prazos partidários apertados – filiações precisam estar consolidadas até abril de 2026 para quem disputar mandato –, cada movimento ganha peso extra. Prefeitos calculam o risco de ficar isolados em um partido que, na prática, pode priorizar projetos pessoais de figuras nacionais. O grupo de Ratinho, por sua vez, tenta evitar uma fragmentação que fragilizaria sua base em pelo menos 30 dos 399 municípios paranaenses.

Quem ganha e quem perde com a crise

A debandada abre espaços para outras legendas que orbitam o governo estadual. O PSD, partido de Ratinho Jr., surge como porto seguro para prefeitos que desejam manter acesso ao núcleo do poder sem se submeter à nova correlação de forças do PL. PP e União Brasil seguem a mesma estratégia, oferecendo estrutura regional e promessa de palanque competitivo para 2026.

Para Sergio Moro, a equação é mais complexa. A presença do ex-ministro no PL reforça a imagem de um partido que ainda explora o capital político da Operação Lava Jato, mas a perda de prefeitos enfraquece a capacidade de mobilização em cidades-chave. Sem redes municipais sólidas, qualquer projeto eleitoral ambicioso em 2026 enfrenta um teto operacional, especialmente em estados com grande número de municípios como o Paraná.

No campo adversário, partidos de centro e esquerda observam o desenrolar com cautela. Dirigentes do MDB, PT e PDT avaliam que a crise no campo conservador pode abrir espaço para alianças inesperadas em cidades estratégicas, sobretudo onde o voto é historicamente fragmentado. A avaliação de um parlamentar petista sintetiza a aposta: “Quando a base deles se divide, nossa chance de chegar ao segundo turno aumenta”.

Próximos movimentos e cenário até 2026

As próximas semanas são decisivas para medir o alcance real da debandada. Dirigentes do PL tentam, em conversas reservadas, convencer parte dos descontentes a adiar qualquer ruptura até depois da definição das chapas para o governo e o Senado. O grupo de Ratinho intensifica viagens, ajusta discursos e acena com participação mais ativa dos prefeitos na montagem das coligações municipais.

O tabuleiro segue em rearranjo permanente. A forma como PL, Moro e Ratinho Jr. administram o conflito interno pode redefinir a configuração de forças no estado pelos próximos quatro anos. A dúvida que fica, em ano pré-eleitoral, é se a legenda consegue transformar a crise em recomposição de alianças ou se a disputa por protagonismo empurra ainda mais lideranças locais para fora do partido.

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