Minuta achada no celular de Vorcaro mira decisões do BC sobre Banco Master
Uma minuta de despacho do Tribunal de Contas da União (TCU), encontrada no celular do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, tenta suspender decisões do Banco Central sobre a liquidação do Banco Master. O documento, em duas versões datadas de agosto de 2025, é revelado até 25 de março de 2026 e acende o alerta sobre interferências políticas em decisões técnicas.
Documento oculto revela pressão sobre regulador
A Polícia Federal prende Vorcaro em 4 de março, durante a terceira fase da Operação Compliance, e encontra no celular dele mais de 12 mil arquivos. Entre eles surge a minuta de um despacho do TCU que ordena ao Banco Central suspender “toda e qualquer decisão” relacionada ao Banco Master. As duas versões do texto, em formato Word, são criadas em 29 de agosto de 2025, às 9h24 e às 12h47, segundo os metadados.
O conteúdo chama atenção imediata da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do INSS, que já acompanha a crise envolvendo o Master e suas operações com o Banco de Brasília (BRB). A peça, sem assinatura e sem identificação de autoria, prevê ainda a oitiva de técnicos do Banco Central em até dez dias. O jornal O Globo divulga a existência do documento nesta quarta-feira, 25, e coloca o caso no centro do debate em Brasília.
No período em que a minuta é produzida, o ministro Jhonatan de Jesus, do TCU, relata o processo que examina a atuação do Banco Central na liquidação extrajudicial do Master, decretada em 18 de novembro. Ele rejeita um pedido do Ministério Público junto ao tribunal para investigar possíveis omissões da autoridade monetária. A representação cobra explicações sobre a fiscalização das operações do banco e sobre irregularidades na negociação bilionária com o BRB.
Nas semanas seguintes à liquidação, Jhonatan de Jesus convoca o Banco Central para prestar esclarecimentos e determina uma inspeção na autarquia. Nos bastidores, avalia inclusive a possibilidade de reverter a liquidação, mas recua diante de forte reação interna e externa. Nesta terça-feira, 24, o mesmo ministro decide suspender o processo que analisa a conduta do BC, movimento que reabre dúvidas sobre o alcance das pressões políticas no caso.
Negócio de R$ 12 bilhões, fraudes e risco ao dinheiro público
A minuta surge num momento decisivo para a negociação entre o BRB, banco controlado pelo governo do Distrito Federal, e o Banco Master. O negócio envolve carteiras de crédito avaliadas em mais de R$ 12 bilhões, vendidas ao banco público em operações que levantam suspeitas no Ministério Público Federal. Na segunda quinzena de agosto, representantes do GDF e do BRB se reúnem com procuradores, que relatam dúvidas sobre a qualidade dos ativos e sobre a própria existência de parte dos créditos.
Os procuradores recomendam que o Banco Central não aprove a operação e pedem cautela ao governo distrital. A orientação é clara: só avançar depois da comprovação da regularidade dos ativos. Em 2 de setembro, poucos dias após a criação da minuta, o GDF leva o tema ao TCU e solicita que o tribunal acompanhe a análise do negócio. Em 3 de setembro, o Banco Central veta a compra e comunica o BRB. A operação, que poderia comprometer bilhões em recursos públicos, é barrada.
O governo do Distrito Federal insiste. Depois do veto, apresenta um novo pedido ao TCU para suspender decisões do Banco Central. O texto desse requerimento tem redação muito semelhante à minuta encontrada no celular de Vorcaro, o que reforça, para investigadores, a hipótese de uma estratégia coordenada para pressionar o regulador. “Há indícios de tentativa de reverter decisão técnica e expor o BRB a riscos elevados”, registra um relatório de auditoria do próprio TCU.
A mesma auditoria aponta suspeitas de fraudes em operações anteriores, incertezas sobre a existência real dos ativos negociados e falhas graves na checagem das informações financeiras. O parecer defende a apuração de responsabilidades e alerta para os riscos sistêmicos de se empurrar adiante créditos podres ou mal avaliados dentro do sistema bancário. Em linguagem simples, o temor é que uma decisão política transfira prejuízos privados para o contribuinte.
Pressão sobre o TCU alimenta CPI e expõe o Banco Central
Apesar do teor contundente, a minuta não se converte em decisão oficial do TCU. O documento não é publicado, não é votado e não aparece nos autos como despacho formal. A existência do texto, porém, amplia a desconfiança de deputados e senadores sobre a forma como interesses privados se aproximam de órgãos de controle. Na CPI do INSS, a descoberta alimenta a narrativa de que setores políticos usam o tribunal como instrumento de pressão sobre o Banco Central.
Para investigadores, o caso revela um roteiro conhecido. Primeiro, pressiona-se o regulador técnico, no caso o BC, por meio de pedidos administrativos e reuniões reservadas. Em seguida, quando a resposta não agrada, tenta-se deslocar o conflito para cortes de contas ou tribunais, com linguagem jurídica pronta para ser aproveitada. A minuta no celular de Vorcaro funciona como peça concreta desse roteiro, ao sugerir um despacho que blindaria o Banco Master contra qualquer decisão imediata da autoridade monetária.
O impacto vai além do embate institucional. A revelação acende o alerta sobre a segurança do sistema bancário e a proteção ao interesse público. Se um banco em situação delicada consegue atrasar ou reverter decisões de supervisão, aumenta o risco de rombos serem socializados depois, por meio de resgates ou perdas em bancos públicos. O caso também pressiona o Banco Central a reforçar a transparência de seus atos e a explicar de forma didática as razões de vetos e liquidações.
A Procuradoria Federal reage à divulgação da minuta com pedidos de maior cautela em operações regulatórias de grande porte. Procuradores defendem que transações bilionárias com instituições públicas passem por escrutínio prévio mais rigoroso, inclusive com auditorias independentes. A discussão ganha espaço em comissões do Congresso, que já estudam mudanças na legislação para dar mais blindagem técnica a decisões do BC e dos órgãos de controle.
Investigação avança e pressiona instituições por respostas
Vorcaro, agora preso, negocia colaboração premiada e promete apresentar documentos inéditos para sustentar sua versão dos fatos. A defesa tenta dissociar o ex-banqueiro de qualquer tentativa de captura do TCU ou de manipulação do Banco Central, mas ainda não oferece explicação convincente para a presença da minuta em seu celular. A CPI do INSS pede acesso integral aos arquivos apreendidos pela Polícia Federal e planeja convocar técnicos do TCU e diretores do BC.
No TCU, conselheiros discutem como tratar o episódio sem paralisar decisões futuras sobre bancos e operações sensíveis. A corte precisa mostrar que resiste a pressões, mas também que apura possíveis desvios internos. O Banco Central, por sua vez, tenta preservar a imagem de autonomia diante de evidências de lobby agressivo em torno da liquidação do Master. Entre a necessidade de punir eventuais abusos e a de garantir estabilidade financeira, o sistema de controle brasileiro volta a ser testado por um caso que ainda está longe de uma resposta definitiva.
