Homem mata esposa a tiros após briga em BH e é preso por feminicídio
Um homem de 31 anos mata a tiros a esposa, de 30, após uma discussão na noite de 24 de março de 2026, em Belo Horizonte. O crime ocorre dentro da casa do casal, na Rua Tiros, no Bairro Calafate, e reforça o avanço da violência contra mulheres em Minas.
Discussão termina em morte dentro de casa
O fim da noite de terça-feira no Calafate, região Oeste da capital mineira, é rompido por disparos vindos de uma casa na Rua Tiros. Lá dentro, segundo a Polícia Militar, uma briga entre o casal termina em execução. Helbert Leone dos Santos, de 31 anos, pega uma pistola calibre 9 milímetros e atira contra a esposa, Andreza de Souza Gomes Silva, de 30.
Vizinhos escutam os estampidos e acionam o socorro. Quando a equipe da PM entra na residência, encontra Andreza gravemente ferida. Os policiais iniciam o resgate e a levam ao Hospital João XXIII, referência em casos de trauma em Minas Gerais. Ela chega a receber atendimento, mas não resiste aos ferimentos e morre na unidade de saúde poucas horas depois.
Na primeira abordagem, Helbert tenta se afastar do crime. Aos policiais, afirma que um terceiro teria invadido a casa e efetuado os disparos. A versão, no entanto, começa a ruir diante de contradições e de evidências encontradas no local. Pressionado, ele acaba confessando que atirou contra a própria esposa após a discussão.
Histórico de violência e falhas na proteção
O caso não surge do nada. Registros da Polícia Militar revelam que Helbert acumula diversas passagens: tráfico de drogas, roubo, porte ilegal de arma de fogo e tentativa de homicídio. Entre essas anotações, chamam atenção episódios de violência doméstica, com ocorrências na Lei Maria da Penha e até investigação por tortura contra a própria Andreza.
As denúncias anteriores expõem um padrão de agressões que se prolonga no tempo e que, mesmo registrado em boletins de ocorrência, não impede o desfecho fatal. Especialistas em violência de gênero ouvidos em casos semelhantes apontam que a escalada costuma seguir um roteiro conhecido: ameaças, agressões físicas, controle da rotina da vítima, até chegar à tentativa ou ao assassinato. “Feminicídio raramente é um ato isolado. Em geral, é o último capítulo de uma série de violências”, resume uma defensora pública que atua em Belo Horizonte.
O crime ocorre menos de três semanas após o 8 de Março, Dia Internacional da Mulher, data marcada, na capital mineira, por cruzes fincadas em praças para lembrar vítimas de feminicídio. Nas últimas estatísticas divulgadas pela Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública, Minas registra alta de assassinatos de mulheres em contexto de violência doméstica. Em alguns anos recentes, o crescimento anual supera a casa dos dois dígitos, enquanto campanhas de prevenção tentam alcançar mulheres em situação de risco.
Organizações de defesa dos direitos das mulheres reforçam que casos como o de Andreza expõem a distância entre a letra da lei e a proteção efetiva. Boletins de ocorrência, medidas protetivas, delegacias especializadas e canais de denúncia existem, mas a resposta do sistema de Justiça muitas vezes é lenta. “Uma decisão que demora semanas pode custar a vida de uma mulher”, costuma alertar um grupo de pesquisadoras da UFMG em relatórios sobre o tema.
Pressão por respostas rápidas e políticas efetivas
A prisão em flagrante de Helbert e a apreensão da pistola 9 mm encerram apenas o primeiro capítulo do caso. O suspeito é levado à delegacia de plantão, onde presta novo depoimento, e deve ser encaminhado ao sistema prisional após audiência de custódia. A arma passa por perícia, que vai detalhar número de disparos, distância e dinâmica do crime, informações que alimentam o inquérito de feminicídio.
A investigação busca reconstruir as horas anteriores ao assassinato, ouvir vizinhos, familiares e levantar registros de agressões antigas. O Ministério Público de Minas Gerais deve analisar o material para formalizar a denúncia, o que, em geral, ocorre em poucos dias após a conclusão do inquérito da Polícia Civil. A partir daí, o caso entra na fila do Tribunal do Júri, que julga crimes dolosos contra a vida.
Enquanto o processo caminha, a morte de Andreza alimenta um debate mais amplo sobre a aplicação da Lei Maria da Penha e das normas que tipificam o feminicídio no Código Penal desde 2015. Entidades cobram mais agilidade na concessão e fiscalização de medidas protetivas, além de ampliação de abrigos para mulheres que precisam sair de casa às pressas. Em Belo Horizonte, movimentos de mulheres defendem também reforço nas equipes das delegacias especializadas e campanhas permanentes, não restritas ao mês de março.
O caso no Calafate se soma a uma sequência de assassinatos de mulheres que ganham repercussão nacional e expõem a vulnerabilidade de vítimas que convivem com agressores armados. Para especialistas em segurança pública, cada episódio que chega às manchetes é apenas a face visível de uma rotina de violência que permanece dentro de casa, sem registro ou punição. A pergunta que volta a circular, entre familiares, ativistas e autoridades, é direta: quantos alertas ainda serão ignorados antes que a proteção chegue a tempo?
