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PM acusa tenente-coronel preso por feminicídio de assédio e abuso

Uma policial militar de São Paulo acusa um tenente-coronel, preso por feminicídio, de assédio moral e sexual em 2025. A denúncia inclui a ordem para desligar a câmera obrigatória durante uma ocorrência, fato tratado como um dos pontos mais sensíveis levados ao Ministério Público em 2026.

Ordem para desligar câmera acende alerta em plena ocorrência

A policial relata que o episódio ocorre dentro do batalhão onde ambos trabalham, na capital paulista, e em serviço. Em determinado momento de uma ocorrência, o tenente-coronel manda desligar a câmera acoplada ao uniforme, equipamento hoje obrigatório em situações operacionais para garantir transparência e segurança nas abordagens.

Segundo o depoimento prestado como testemunha protegida, a agente estranha a ordem e questiona o superior sobre o motivo. O oficial, identificado como tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto, insiste no desligamento sem apresentar justificativa clara. Para a militar, o pedido levanta suspeitas sobre a real intenção do comandante naquele momento.

O relato chega ao Ministério Público em 2026, em meio à repercussão do caso que mantém o oficial preso. Rosa Neto é acusado do feminicídio da esposa, a soldado Gisele Alves, também policial militar. A morte de Gisele provoca forte reação dentro da corporação e expõe, mais uma vez, a dificuldade de enfrentamento da violência de gênero entre agentes do Estado.

Assédio, hierarquia e silêncio dentro do batalhão

O depoimento da policial descreve uma rotina de constrangimentos no ambiente de trabalho em 2025. A militar afirma que o tenente-coronel se vale da posição de comando para aproximar-se de forma inadequada. O relato menciona um pedido de beijo, que ela rejeita, além de investidas insistentes e comentários de cunho sexual.

Ela também fala em assédio moral, com cobranças humilhantes e tratamento diferenciado após as negativas. A relação hierárquica, que deveria organizar a disciplina da tropa, passa a ser percebida como ferramenta de pressão. O medo de retaliações e de prejuízos na carreira pesa em cada decisão, inclusive na de formalizar ou não uma denúncia.

De acordo com o que é levado às autoridades, o caso pode não ser isolado. Outras policiais militares do mesmo batalhão relatariam, em conversas reservadas, experiências semelhantes com o oficial. Nenhuma delas, porém, registra queixa oficial até aqui, segundo a testemunha, por receio de serem punidas, transferidas para funções consideradas piores ou de terem a progressão na carreira travada.

O delegado responsável pelas investigações do feminicídio afirma à CNN que “nós apontamos todas as contradições do tenente-coronel” ao longo dos depoimentos. A conduta narrada pela policial, ainda que relacionada a outro contexto, reforça a imagem de abuso de poder e de desrespeito à integridade de subordinadas dentro da estrutura militar.

Impacto sobre a confiança nas câmeras e na cultura da PM

O uso de câmeras corporais se consolida nos últimos anos como uma das principais políticas de controle da atividade policial em São Paulo. Estudos internos e levantamentos divulgados desde 2020 associam os equipamentos a redução de denúncias de abuso e a queda no número de mortes em intervenções. Quando um comandante manda desligar a câmera em plena ocorrência, a mensagem enviada à tropa e à sociedade é de exceção em um sistema que depende justamente do registro contínuo.

O eventual desvio de finalidade do equipamento, pensado para proteger tanto o policial quanto o cidadão, ameaça a credibilidade da ferramenta. O pedido do tenente-coronel, narrado em 2026, é tratado como um dos elementos mais sensíveis no material encaminhado ao Ministério Público. A ordem pode indicar tentativa de ocultar conduta imprópria, o que extrapola o campo disciplinar e alcança o terreno penal.

Casos de assédio moral e sexual em estruturas hierarquizadas, como as polícias militares, costumam ficar restritos aos corredores, longe dos registros oficiais. A denúncia formal rompe essa barreira e expõe um conflito que atravessa a corporação: de um lado, a necessidade de disciplina; de outro, a obrigação de proteger direitos básicos de seus integrantes. Mulheres que vestem a farda ainda encontram resistência para relatar violência sofrida dentro dos quartéis.

Organizações que acompanham a atuação policial apontam que episódios como esse têm efeito direto na confiança pública. A sociedade espera que quem carrega arma e autoridade atue sob regras rígidas, sobretudo quando há histórico de violência contra mulheres. A prisão preventiva de um tenente-coronel por feminicídio, somada a novos relatos de abuso, pressiona o comando da PM e o Ministério Público a agir com transparência.

Ministério Público avalia abertura de investigação formal

O Ministério Público de São Paulo recebe o depoimento da policial e analisa o material para decidir se abre investigação específica sobre as acusações de assédio e abuso de autoridade. O procedimento pode resultar na instauração de inquérito criminal e em apurações paralelas na esfera administrativa, dentro da própria corporação.

Até o momento, a defesa do tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto não comenta as novas acusações. A CNN Brasil informa que procura os advogados do oficial, mas não obtém resposta até a última atualização desta reportagem. O silêncio da defesa mantém em aberto a disputa de versões e alimenta a expectativa por manifestações formais assim que o caso avançar no Ministério Público.

O desfecho dessa análise tende a influenciar não apenas a situação individual do oficial, já preso por outra acusação grave, mas também a forma como a PM trata denúncias internas de assédio. Um eventual processo criminal pode encorajar outras policiais a trazer relatos semelhantes à luz do dia. A ausência de investigação, por outro lado, reforçaria o sentimento de impunidade e o medo de falar.

As próximas semanas devem ser decisivas para definir se o episódio descrito em 2025 se transforma em um novo processo em 2026 ou se permanece apenas como mais um alerta ignorado dentro dos muros do quartel.

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