Corretora gaúcha é morta em latrocínio com fraude em dados em SC
A corretora de imóveis Luciani Aparecida Estivalet Freitas, 47, desaparece em 4 de março em Florianópolis e é encontrada esquartejada uma semana depois. A Polícia Civil trata o caso como latrocínio, com uso de dados pessoais da vítima em compras fraudulentas.
Desaparecimento, mensagens suspeitas e a descoberta do corpo
Luciani é natural de Alegrete, no Rio Grande do Sul, e vive em Florianópolis havia anos. Trabalha como corretora, mantém rotina intensa e costuma falar diariamente com a mãe. No dia 4 de março de 2026, é vista pela última vez na Praia dos Ingleses, no Norte da Ilha, e some sem deixar aviso.
Dois dias depois, em 6 de março, a família estranha o silêncio. A mãe faz aniversário e não recebe a ligação que sempre marca a data. Mensagens enviadas do celular de Luciani tentam acalmar a família, mas acendem o alerta. “Ela nem um momento entrou em contato com a nossa mãe, tava reclusa nos grupos”, relata uma irmã, que prefere não se identificar. Ela conta que estranha o tom e a forma do texto. “Minha irmã nunca foi de mandar figurinha nem emoji. Ou ela manda um áudio ou escreve. As mensagens tinham erro, não pareciam dela.”
O boletim de ocorrência de desaparecimento só é registrado em 9 de março, quando parentes concluem que algo está errado. Uma das mensagens fala em perseguição de um ex-namorado, versão que, por enquanto, não se sustenta na investigação principal. Na manhã de 11 de março, um corpo esquartejado aparece em um rio na área rural de Major Gercino, na Grande Florianópolis, a cerca de 80 quilômetros da capital. O cadáver está dividido em cinco partes.
Peritos recolhem o material e iniciam a análise. A confirmação chega em 13 de março, por exame de DNA: o corpo é de Luciani. A polícia já trabalha com a hipótese de que ela é morta entre os dias 4 e 5 de março. O corpo permanece no apartamento da corretora até a madrugada de 7 de março, quando é retirado e levado para o interior. A crueldade do crime e a tentativa de ocultação alimentam a comoção em Florianópolis e em Alegrete.
Roubo, uso de CPF e rede de suspeitos
Enquanto a família busca notícias e tenta dar peso às mensagens estranhas, outra pista chama a atenção dos investigadores. A partir de 6 de março, compras passam a ser feitas em nome de Luciani. O CPF da corretora aparece em pedidos online, sempre com entrega para um endereço no Norte da Ilha, região onde ela mora.
Equipes da Polícia Civil montam vigilância no local indicado pelos sistemas das lojas. Em 12 de março, um adolescente de 14 anos chega para buscar encomendas. Abordado, afirma que os produtos pertencem ao irmão mais velho e indica o bairro onde a família vive, o mesmo de Luciani. No rastreamento, os agentes localizam o carro da corretora estacionado nas proximidades.
No condomínio, uma administradora de 47 anos aponta o apartamento onde mora a família citada pelo adolescente. Questionada sobre compras recentes, evita responder com clareza. O depoimento dela e o que os policiais encontram a poucos metros dali ampliam a lista de suspeitos. Em um outro apartamento, desocupado e trancado, sob responsabilidade da mesma mulher, a polícia encontra pertences de Luciani, como notebook e televisão, além de caixas com mercadorias novas.
A mulher acaba presa em flagrante por receptação, crime que ocorre quando alguém guarda ou vende produto de origem criminosa. A Justiça homologa a prisão temporária. Documentos obtidos pela NSC TV mostram que, ao todo, cinco pessoas entram no radar da investigação: um homem de 27 anos, a companheira dele, de 30, o irmão adolescente de 14 anos, a mãe dos dois e a administradora de 47 anos. A polícia aponta o grupo como responsável tanto pela morte quanto pela tentativa de lucrar com o roubo de bens e dados da vítima.
O homem de 27 anos já responde por outro latrocínio, registrado em 2022, e está foragido em São Paulo. Ele vive em apartamento vizinho ao de Luciani, ao lado da companheira. Após o crime, o casal tenta fugir para o Rio Grande do Sul. A rota termina em Gravataí, na Região Metropolitana de Porto Alegre, a cerca de 430 quilômetros de Florianópolis, onde a Polícia Rodoviária Federal intercepta o carro e faz a prisão.
Medo, proteção de dados e desafios à investigação
O caso expõe uma combinação que assusta investigadores: violência extrema e uso sofisticado de dados pessoais para encobrir o roubo. A morte de Luciani é tratada como latrocínio, roubo seguido de morte, pela Delegacia de Homicídios da Capital. A linha central aponta que o grupo teria como objetivo se apropriar de bens da corretora e explorar seu CPF em compras fraudulentas, tentando dar aparência de normalidade às movimentações.
O uso contínuo do telefone e das redes da vítima, com mensagens que imitam seu estilo de comunicação, mostra um esforço calculado para adiar o registro de desaparecimento. Na prática, cada hora de atraso favorece os criminosos e dificulta a localização de testemunhas, câmeras e trajetos. Para famílias, o episódio funciona como alerta duro sobre a importância de desconfiar de mudanças bruscas na forma de escrever de parentes, mesmo quando o número e a foto do perfil permanecem os mesmos.
Especialistas em segurança ouvidos pela reportagem destacam que fraudes vinculadas a latrocínios tornam a investigação mais complexa. Registros de compras, trajetos de entrega, cadastros online e histórico de dispositivos passam a ser provas centrais. A cooperação entre empresas de tecnologia, bancos e polícia se transforma em peça-chave para reconstituir o caminho do dinheiro e dos objetos.
Em Florianópolis, moradores de prédios residenciais reforçam medidas básicas de segurança, como checagem de entregadores, controle de acesso em garagens e atenção a movimentações estranhas em corredores. Em Alegrete, cidade natal de Luciani, a repercussão é marcada por luto e por uma sensação de distância insegura: a ideia de que a migração para grandes centros não protege contra crimes violentos, mesmo em bairros considerados tranquilos.
Próximos passos da polícia e perguntas em aberto
A Polícia Civil segue ouvindo suspeitos e testemunhas e detalhando a participação de cada integrante do grupo no crime. O foco imediato está em recuperar todo o rastro digital deixado pelas compras feitas desde 6 de março, cruzar imagens de câmeras de segurança na Praia dos Ingleses e na região de Major Gercino e consolidar a linha do tempo entre a morte, a ocultação de cadáver e o uso do CPF da vítima.
Os investigadores também buscam esclarecer se o latrocínio é planejado com antecedência, a partir da proximidade dos suspeitos com o apartamento de Luciani, ou se nasce de uma oportunidade percebida ao acaso. A resposta pode influenciar futuras denúncias do Ministério Público, inclusive sobre eventual organização criminosa.
O caso ainda levanta questões sobre a proteção de dados de vítimas de crimes violentos e o tempo de resposta de sistemas de prevenção a fraudes. Enquanto a família tenta se reorganizar diante da perda e aguarda a conclusão do inquérito, permanece uma pergunta que ecoa de Florianópolis a Alegrete: quantas barreiras precisam falhar para que a ganância por bens e senhas termine em uma morte tão brutal?
