Ciencia e Tecnologia

Sonda Van Allen A entra em rota de queda e deve reentrar em 2026

A sonda Van Allen A, da Nasa, entra em rota de queda e deve reentrar na atmosfera terrestre a partir da noite de 10 de março de 2026, com margem de erro de 24 horas. A agência espacial americana prevê que a maior parte da espaçonave de 600 kg se desintegre, mas admite que alguns fragmentos podem atingir a superfície. O risco estimado para qualquer pessoa na Terra é baixo, cerca de 1 em 4.200.

Sol mais ativo antecipa fim da missão

A trajetória descontrolada da Van Allen A não é um acidente repentino. O que derruba a sonda é o próprio Sol. O atual ciclo solar se mostra mais intenso do que o previsto e aumenta o chamado arrasto atmosférico, uma espécie de freio causado pelas camadas superiores do ar em torno da Terra. Essa resistência, turbinada por tempestades solares e por um máximo solar confirmado em 2024, acelera a perda de altitude da espaçonave.

Quando a Nasa encerra a missão, em 2019, cálculos indicam que a reentrada só ocorreria em 2034. As projeções, porém, consideravam um ciclo solar mais moderado. Com a atividade do Sol acima do esperado, a atmosfera se expande, fica levemente mais densa em grandes altitudes e puxa a sonda com mais força. O resultado é um atalho de quase oito anos no fim da vida orbital da Van Allen A.

Os engenheiros acompanham a queda em tempo real. A agência atualiza repetidamente as previsões e trabalha com uma janela estreita: da noite de terça-feira, 10 de março, até a noite de quarta-feira, 11. O ponto exato da reentrada permanece em aberto, porque pequenas variações na densidade da atmosfera ou na orientação da espaçonave podem deslocar a área de queda por milhares de quilômetros.

Missão que mapeia o escudo de radiação da Terra

Lançadas em 30 de agosto de 2012, as sondas gêmeas Van Allen A e B nascem para uma missão de apenas dois anos. Elas atravessam repetidamente os cinturões de Van Allen, anéis de partículas carregadas aprisionadas pelo campo magnético terrestre. É ali, numa região onde a maior parte das naves passa o mais rápido possível para evitar radiação, que a dupla decide ficar. A aposta rende uma década de dados inéditos sobre o escudo natural que protege o planeta da radiação cósmica e das tempestades solares.

Ao longo de sete anos de operação científica, até 2019, a missão registra fenômenos que nenhum outro observatório espacial havia medido com tanta precisão. Entre as descobertas está a confirmação de um terceiro cinturão de radiação transitório, que surge durante períodos de forte atividade solar e depois se desfaz. Esses resultados ajudam a entender como elétrons e prótons altamente energéticos são acelerados, presos e expulsos do entorno da Terra.

A Nasa gerencia a missão em parceria com o Laboratório de Física Aplicada da Universidade Johns Hopkins. Com o tempo, as duas espaçonaves ficam sem combustível para se orientar em direção ao Sol, passo essencial para manter painéis solares na melhor posição e garantir comunicações estáveis. A agência então encerra oficialmente a operação em 2019. A Van Allen B permanece em órbita estável e só deve reentrar a partir de 2030, enquanto a irmã mais azarada desce agora em meio a um Sol hiperativo.

Risco baixo, alerta ligado para o lixo espacial

A reentrada da Van Allen A se torna um teste real da capacidade global de lidar com o lixo espacial. A Nasa espera que o atrito com a atmosfera vaporize a maior parte da estrutura de cerca de 600 kg, mas admite que partes mais densas, como tanques, instrumentos e estruturas metálicas reforçadas, podem sobreviver ao calor extremo e chegar ao solo. A avaliação de risco, estimada em 1 em 4.200 para qualquer pessoa na Terra, é considerada baixa, mas não desprezível.

A incerteza sobre o local da queda reforça um problema que cresce à medida que a órbita baixa da Terra se enche de satélites comerciais, sondas científicas e detritos abandonados. Objetos desgovernados que reentram sem controle podem cruzar rotas aéreas, atingir áreas povoadas ou causar danos a infraestrutura em solo, ainda que as chances sejam pequenas. Cada evento desse tipo alimenta o debate sobre regras internacionais mais rígidas para o fim de vida das naves, como exigência de reentrada controlada ou órbitas cemitério bem definidas.

Os dados coletados pela missão, por outro lado, seguem relevantes para proteger novas gerações de satélites e astronautas. O mapeamento detalhado da radiação em torno da Terra orienta o desenho de escudos, a escolha de rotas e a definição de quanto tempo uma tripulação pode permanecer em determinadas regiões do espaço sem ultrapassar limites seguros de exposição. Em plena preparação para missões como a Artemis II, que leva novamente humanos à vizinhança da Lua, esse conhecimento se torna ainda mais valioso.

O que a queda da sonda revela sobre o futuro

A antecipação da reentrada da Van Allen A expõe como o clima espacial deixa de ser tema restrito a especialistas. Ciclos solares mais intensos encurtam a vida de satélites, alteram rotas de reentrada e podem afetar comunicações, navegação por GPS e redes elétricas em solo. Empresas e governos passam a depender de previsões solares tão diretamente quanto hoje dependem de previsões meteorológicas.

Enquanto a Nasa promete atualizações contínuas até a reentrada e monitora a espaçonave órbita a órbita, a queda da Van Allen A funciona como lembrete de que o ambiente espacial em torno da Terra é dinâmico, hostil e cada vez mais lotado. A missão que ajuda a decifrar o escudo de radiação do planeta se despede de forma dramática, empurrada pelo mesmo Sol que estudou por anos. A pergunta que fica é se a próxima geração de satélites e sondas estará preparada para sobreviver a um espaço mais turbulento do que o previsto quando a Van Allen A decolou, em 2012.

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