Impasse sobre encontro entre Lula e Alcolumbre trava indicação de Messias ao STF
A promessa de uma reunião entre o presidente Lula e o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, até quinta-feira (12), expõe o impasse em torno da indicação de Messias ao Supremo Tribunal Federal (STF). Em meio a ligações telefônicas, versões desencontradas e um desgaste político que se arrasta desde o fim de 2025, governo e Senado testam forças em plena prévia do calendário eleitoral.
Telefonemas, versões conflitantes e uma relação em crise
O roteiro da crise ganha novo capítulo na terça-feira (10), quando o líder do governo no Congresso, senador Randolfe Rodrigues (PT-AP), afirma que Lula e Alcolumbre vão se encontrar até esta quinta-feira, 12 de março de 2026, em Brasília. Segundo ele, o objetivo é discutir a indicação de Messias ao STF e alinhar o jogo político no Senado antes que o calendário eleitoral estreite ainda mais as margens de negociação.
Randolfe descreve um cenário de diálogo frequente entre os dois. “Até quinta-feira, certamente, eles conversarão. Já falaram mais de uma vez por telefone, sempre em conversas muito produtivas. Na semana passada, voltaram a conversar longamente, e agora devem se encontrar pessoalmente”, diz o senador, apostando em um desfecho positivo. As palavras, no entanto, batem na barreira do Palácio do Congresso.
Questionado sobre o suposto encontro, Alcolumbre devolve com frieza. “Não estou sabendo”, responde, ao ser interpelado por jornalistas no Senado. A negativa pública contrasta com o relato do líder do governo e reforça a imagem de um diálogo truncado entre o Planalto e o presidente do Senado, hoje peça central para qualquer nome avançar rumo ao Supremo.
Nos bastidores, aliados relatam que a relação Lula–Alcolumbre se deteriora desde o fim do ano passado, quando o presidente da República decide bancar Messias para a vaga no STF, contrariando o desejo de Alcolumbre. O senador trabalhava abertamente pela indicação de Rodrigo Pacheco (PSD-MG), seu antecessor no comando da Casa e aliado de longa data. A escolha de Lula é lida como derrota pessoal pelo presidente do Senado e acende um rastilho de desconfiança mútua.
Disputa por vaga no Supremo contamina Congresso e calendário eleitoral
O impasse em torno da reunião e da indicação de Messias não é apenas uma queda de braço entre dois políticos experientes. A vaga no STF, uma das 11 cadeiras da Corte, tem mandato vitalício até os 75 anos e influencia julgamentos sobre privatizações, regras eleitorais e políticas econômicas. O Senado, responsável por sabatinar e aprovar o indicado, usa esse poder como instrumento de pressão sobre o Executivo.
Randolfe admite abertamente que a indicação depende de “várias variáveis”. Ele lista três fatores principais: “o momento oportuno, o calendário eleitoral e o número necessário para a apreciação na CCJ (Comissão de Constituição e Justiça) e depois no plenário”. Em outras palavras, o governo só pretende enviar o nome de Messias quando tiver votos contados na CCJ, presidida por Alcolumbre, e no plenário, onde são exigidos ao menos 41 votos favoráveis, entre 81 senadores.
A conta política se torna mais complexa às vésperas de um ano eleitoral. A mesma base que o Planalto precisa mobilizar para aprovar projetos econômicos, como novas regras para estatais e ajustes fiscais, também negocia cargos, emendas e influência nas nomeações para tribunais superiores. A indicação de Messias entra nesse pacote e se torna moeda de troca de alto valor.
Enquanto Lula e Alcolumbre medem forças, o STF se prepara para decisões sensíveis ainda em março. A Corte deve julgar, no fim do mês, uma ação que pede a suspensão da privatização da Sabesp, tema que afeta diretamente o governo de São Paulo e investidores do setor de saneamento. O tribunal também acompanha movimentos em torno de investigações sobre o mercado de combustíveis, alvo de análise do Cade, e dos desdobramentos políticos envolvendo o Banco Master, que já tiram do tabuleiro o ministro Dias Toffoli em comissões parlamentares de inquérito no Congresso.
A demora na definição do novo ministro tende a manter o Supremo no centro de disputas políticas. Cada vaga aberta em Brasília costuma redesenhar alianças e fortalecer grupos específicos. Hoje, o Planalto busca um perfil considerado leal e confiável, enquanto parte do Senado reivindica alguém identificado com o equilíbrio institucional e com a agenda do Congresso, como Pacheco. O nome de Messias, apoiado por Lula, é visto por senadores resistentes como reforço da influência do Executivo na Corte.
Governo testa forças, Senado calcula riscos e incerteza continua
No curto prazo, o governo sabe que uma derrota na indicação de Messias teria impacto direto em sua autoridade política. Um nome rejeitado na CCJ, ou derrubado em plenário, enfraqueceria a articulação de Randolfe e deixaria Lula mais dependente de acordos pontuais com líderes do Centrão. O Planalto precisa mostrar capacidade de compor maiorias estáveis, especialmente em ano em que prefeitos e vereadores vão às urnas e pressionam as bancadas regionais.
Alcolumbre, por sua vez, calcula o próprio capital. Ao controlar o ritmo da sabatina na CCJ, ele pode empurrar a decisão para mais perto das convenções partidárias, quando o custo político de contrariar o Planalto tende a ser menor para senadores em busca de alianças locais. Ao mesmo tempo, o presidente do Senado evita se colocar publicamente como o responsável direto por um eventual fracasso da indicação, motivo pelo qual mantém discurso de aparente distanciamento sobre a reunião com Lula.
No Congresso, a indefinição já provoca efeito colateral. Líderes de partidos aliados relatam que outras pautas sensíveis, como votações sobre estatais e mudanças em regras eleitorais, passam a ser negociadas em bloco com a sucessão no STF. Grupos que controlam comissões estratégicas usam o impasse para arrancar concessões adicionais do governo, de liberação de emendas a cargos em estatais federais.
A expectativa em Brasília é que, até o fim de março, Lula decida se formaliza a indicação de Messias ou se recua em busca de um nome de consenso com Alcolumbre e outros caciques do Senado. Qualquer uma das saídas tem custo. Manter o nome significa enfrentar uma sabatina potencialmente dura, com exposição pública do indicado e do próprio governo. Trocar o escolhido agora sinalizaria fragilidade do Planalto diante do Congresso.
Enquanto o encontro entre Lula e Alcolumbre segue no campo das versões, o STF aguarda um novo ministro para dividir processos e amortecer tensões internas. A cadeira vaga se transforma em símbolo da disputa por espaço entre Executivo e Legislativo em pleno ano de decisões sensíveis para a economia, para as estatais e para o jogo eleitoral. A pergunta que permanece em Brasília é simples e ainda sem resposta: quem vai ceder primeiro.
