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Lula e Petro alinham apoio e Celac em ligação em meio a pressão dos EUA

Lula e Gustavo Petro conversam por telefone nesta quarta-feira (11.mar.2026) para demonstrar apoio mútuo e ajustar os preparativos da próxima cúpula da Celac. O diálogo ocorre em meio à pressão dos Estados Unidos e à preocupação crescente com o avanço de facções criminosas como PCC e Comando Vermelho na região. A conversa reforça a tentativa de Brasil e Colômbia de coordenar uma resposta política e de segurança em conjunto.

Ligação em clima de tensão regional

O contato direto entre os dois presidentes acontece enquanto Washington eleva o tom contra governos da região e mira a presença de organizações criminais transnacionais na América do Sul. A ligação de Lula para Petro vem depois de novas ameaças dos Estados Unidos e é lida por assessores como um gesto calculado de aproximação, tanto pessoal quanto política, diante de um cenário descrito como “delicado” por diplomatas dos dois lados.

No Planalto, auxiliares de Lula afirmam que a conversa dura pouco mais de 20 minutos e se concentra em dois eixos: segurança regional e calendário político. O Palácio Nariño, sede da Presidência colombiana, confirma a chamada e reforça, em nota, que os países buscam respostas “conjuntas e soberanas” para o crime organizado. Interlocutores envolvidos nas tratativas falam em um esforço para blindar a agenda da Celac de interferências externas e, ao mesmo tempo, construir canais práticos de cooperação em fronteiras e inteligência policial.

Crime organizado e pressão dos EUA entram no radar

O pano de fundo da conversa é o avanço de redes criminosas como o PCC (Primeiro Comando da Capital) e o CV (Comando Vermelho), que já extrapolam as fronteiras brasileiras e operam em rotas de drogas que passam pela Colômbia e por países andinos. Investigações recentes da Polícia Federal apontam que facções brasileiras atuam em ao menos cinco países vizinhos, incluindo Paraguai e Bolívia. O governo colombiano, por sua vez, enfrenta o desafio de lidar com dissidências das FARC e com o controle territorial de grupos armados em áreas-chave para o tráfico internacional.

Em Washington, autoridades americanas usam o discurso do combate às drogas e ao crime transnacional para justificar um monitoramento mais direto de governos sul-americanos. A retórica se intensifica nas últimas semanas, com ameaças públicas de sanções e condicionamento de ajuda financeira e militar. Em privado, diplomatas brasileiros descrevem o movimento como “pressão geopolítica” e veem risco de ampliação de atritos se a região não apresentar uma estratégia própria. Ao telefonar para Petro, Lula tenta construir exatamente essa alternativa: uma articulação latino-americana que discuta segurança sem abrir mão de autonomia.

Celac ganha peso e encurta espaço para Trump

Os preparativos para a próxima reunião da Celac (Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos) ocupam parte central da conversa. A cúpula, prevista para os próximos meses, passa a ser tratada como vitrine da capacidade da região de falar com uma só voz em temas sensíveis, da segurança pública à política antidrogas, passando por integração econômica. Na prática, a construção da agenda da Celac pressiona o calendário de Lula e pode comprimir a janela para um eventual encontro com Donald Trump, hoje o principal nome da oposição americana e figura de impacto direto na relação bilateral.

Assessores de Itamaraty admitem, reservadamente, que a preparação da cúpula exige viagens, reuniões técnicas e costura política com ao menos uma dezena de países. O esforço envolve negociar declarações conjuntas, acordos de cooperação e metas temporais que vão de 12 a 24 meses em áreas como intercâmbio de informações de inteligência, rastreamento de fluxos financeiros ilícitos e reforço de policiamento em fronteiras estratégicas. Cada compromisso firmado na Celac tende a limitar a margem de manobra individual de cada governo diante das exigências de Washington.

Aliança política e disputa de narrativas

Lula e Petro se apresentam, em diferentes discursos, como defensores de uma integração latino-americana menos dependente dos Estados Unidos. A conversa telefônica de agora funciona como um capítulo dessa narrativa. Fontes próximas aos dois presidentes falam em uma sintonia sobre a necessidade de “retomar o protagonismo” da região em fóruns multilaterais. A avaliação compartilhada é que a ausência de coordenação abre espaço para que o tema da segurança seja usado como justificativa para intervenções políticas e econômicas externas.

Ao reforçar laços com a Colômbia, o governo brasileiro tenta também diminuir tensões bilaterais provocadas por operações contra o narcotráfico em áreas de fronteira, que frequentemente atingem populações tradicionais e rotas comerciais legais. Empresários do setor de logística e de exportação de commodities relatam, em caráter reservado, aumento de checagens em cargas e inspeções em portos e rodovias, o que encarece fretes e alonga prazos. A expectativa de diplomatas é que uma coordenação mais estreita entre Brasília e Bogotá permita calibrar ações de segurança sem paralisar o fluxo econômico, que movimenta bilhões de dólares por ano.

O que está em jogo nos próximos meses

A ligação desta quarta-feira é apenas o primeiro passo visível de uma negociação mais ampla. A partir de agora, equipes técnicas dos dois países devem detalhar propostas para a Celac em reuniões virtuais e presenciais, com prazos contados em semanas. No horizonte, estão a assinatura de protocolos de troca de dados sobre facções ativas em mais de um país, a criação de grupos de trabalho sobre fronteira amazônica e a tentativa de construir uma posição comum em relação às exigências dos Estados Unidos no combate ao crime organizado.

Diplomatas avaliam que a disposição de Lula e Petro para uma agenda conjunta pode redefinir o eixo da política regional nos próximos dois anos. A pergunta em aberto é se outros governos estarão dispostos a se somar a essa articulação em um ambiente de pressões simultâneas: internas, vindas de crises de segurança, e externas, impulsionadas por Washington. A próxima cúpula da Celac deve indicar se a ligação de hoje fica como gesto isolado ou se inaugura uma nova fase de cooperação efetiva entre Brasil, Colômbia e os demais vizinhos.

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