Morte de El Mencho deflagra onda de ataques e deixa mais de 70 mortos no México
A morte de Nemesio Oseguera Cervantes, o El Mencho, em 25 de fevereiro de 2026, desencadeia uma onda de ataques coordenados no México. Em poucas horas, pelo menos 20 estados registram confrontos, bloqueios de estradas e execuções. Mais de 70 pessoas morrem na escalada de violência ligada ao cartel Jalisco Nueva Generación.
Reação em cadeia após o vácuo no comando
El Mencho, líder do cartel Jalisco Nueva Generación (CJNG), constrói ao longo de mais de uma década uma das estruturas criminosas mais violentas e lucrativas das Américas. Sua morte rompe um equilíbrio frágil entre facções, forças de segurança e comunidades que vivem sob domínio de grupos armados. Nas horas seguintes à confirmação do óbito, cidades de diferentes regiões entram em estado de alerta.
Relatos de autoridades locais e moradores indicam ataques quase simultâneos em pelo menos 20 estados, do Pacífico ao Golfo. Homens armados incendeiam veículos para bloquear rodovias federais, atacam delegacias, cercam quartéis e disparam contra comércios associados a rivais. Em alguns municípios, o transporte público para por medo de represálias. Escolas suspendem aulas e hospitais reforçam esquemas de segurança diante da chegada contínua de feridos.
Guerra aberta por rotas e territórios
A morte de El Mencho atinge o coração de uma engrenagem que movimenta bilhões de dólares por ano com tráfico de cocaína, metanfetamina e fentanil rumo aos Estados Unidos. O CJNG disputa rotas terrestres, aéreas e marítimas com grupos como o cartel de Sinaloa e consórcios regionais que se fragmentam e se reorganizam com rapidez. Sem um comando central claro, chefes intermediários tentam assegurar áreas estratégicas e canais de exportação.
Fontes de segurança descrevem a atual fase como uma “corrida armada” para ocupar portos, fronteiras e corredores logísticos que antes respondiam diretamente a El Mencho. Disputas locais se intensificam em estados onde o cartel já enfrenta resistência de rivais. A fragmentação do poder interno abre espaço para traições, deserções e novos pactos temporários, sempre sustentados por armas de grosso calibre e dinheiro em espécie.
Impacto imediato na segurança pública
Os ataques deixam mais de 70 mortos em poucos dias, entre suspeitos, policiais e civis, segundo balanços preliminares de governos estaduais. O número de feridos ultrapassa a casa das centenas, com muitos em estado grave. A insegurança afeta diretamente rotinas de milhões de pessoas, que veem ruas esvaziadas antes do anoitecer e comércio fechando mais cedo, sobretudo em regiões historicamente marcadas pela presença de cartéis.
Operações emergenciais mobilizam milhares de militares e policiais federais, que tentam isolar focos de confronto e desarticular células mais agressivas. Governadores pressionam a Cidade do México por reforço de efetivo, equipamentos e inteligência. A estratégia enfrenta um obstáculo conhecido: a capacidade de grupos criminosos de se recompor rapidamente, absorver perdas e cooptar autoridades locais. Em algumas localidades, moradores relatam que homens armados circulam sem resistência horas após ações de forças federais.
Histórico de violência e Estado em xeque
O CJNG surge no início da década de 2010 e assume protagonismo na segunda metade da década, aproveitando o enfraquecimento de cartéis tradicionais. El Mencho se torna símbolo dessa nova fase, marcada por vídeos de demonstração de força, armamento pesado e ataques a autoridades em plena luz do dia. Em poucos anos, o grupo finca bandeira em dezenas de estados mexicanos e expande contatos na América Central e no Cone Sul.
A atual onda de violência expõe limites de políticas adotadas desde a militarização da segurança, em 2006. A cada prisão ou morte de um grande líder, o Estado enfrenta uma reação em cadeia que deixa rastros de sangue e não resolve a raiz do problema: redes financeiras, corrupção política e miséria em regiões onde o crime organizado funciona como empregador e árbitro de conflitos. Especialistas em segurança alertam que a morte de El Mencho, embora simbólica, não significa o fim do CJNG.
Escalada com efeito regional e pressão externa
A instabilidade atual preocupa governos vizinhos e autoridades dos Estados Unidos, principal destino das drogas escoadas pelo território mexicano. Agências de segurança americanas acompanham a disputa pelos corredores de tráfico na fronteira e pressionam por operações mais agressivas em estados-chave. O cenário também reforça pedidos de cooperação em inteligência, rastreamento de armas e bloqueio de fluxos financeiros internacionais ligados aos cartéis.
Analistas avaliam que rivais do CJNG aproveitam o vácuo de poder para avançar sobre rotas estratégicas. Facções regionais podem se alinhar a grupos maiores em troca de armamento, proteção jurídica e acesso a mercados estrangeiros. A consequência prática é um mosaico ainda mais complexo de alianças e inimizades, o que dificulta a ação coordenada das forças de segurança e aumenta o risco de massacres em áreas disputadas.
Próximos passos e incertezas
O governo mexicano tenta conter a percepção de que perde o controle de partes significativas do território. Anuncia novas operações conjuntas, reforço de tropas em pelo menos 20 estados e revisão de protocolos de resposta rápida a ataques coordenados. Também discute mudanças em leis de combate ao crime organizado e medidas de proteção a autoridades locais vulneráveis a ameaças e subornos.
A morte de El Mencho marca um capítulo importante na história recente da guerra às drogas no México, mas abre uma fase de incerteza. O país enfrenta a tarefa de impedir que o vácuo de poder alimente uma espiral de violência ainda maior, ao mesmo tempo em que tenta fortalecer instituições corroídas por anos de conflito. A questão que permanece em aberto é se a queda de um dos chefes mais temidos do continente será o ponto de virada para uma política de segurança mais eficaz ou apenas mais um nome riscado em uma lista que continua crescendo.
