Ilhan Omar acusa Trump de “matar americanos” em discurso no Congresso
A deputada democrata Ilhan Omar interrompe um discurso de Donald Trump na Câmara dos Estados Unidos nesta quarta-feira (25) e acusa o presidente de “matar americanos”. O confronto ocorre em meio à escalada de tensão sobre imigração, segurança pública e a responsabilidade do governo em uma operação que deixou dois mortos em Minneapolis, em janeiro.
Confronto em plenário expõe racha sobre imigração
O ataque verbal explode quando Trump acusa os democratas de não priorizarem cidadãos americanos em suas políticas, sobretudo na área migratória. Da galeria, Omar se levanta, aponta para o plenário e grita: “Você matou americanos!”. Em seguida, reforça: “Você é o assassino! Deveria ter vergonha!”. A cena interrompe por alguns segundos o discurso e cristaliza, diante das câmeras, o clima de polarização que domina Washington em 2026.
Trump fala à Câmara em um momento em que a imigração volta ao centro da agenda, impulsionada por promessas de endurecer controles na fronteira e ampliar operações internas contra imigrantes sem documentos. Ao defender que “o governo deve proteger primeiro os americanos, depois os estrangeiros”, o presidente dispara aplausos entre republicanos e provoca reações imediatas no bloco democrata. Omar, filha de refugiados somalis e representante do 5º distrito de Minnesota, transforma a resposta em acusação direta.
Morte de dois americanos em operação do ICE alimenta disputa
A frase de Omar não nasce do nada. Em janeiro, uma operação federal de imigração conduzida por agentes do ICE em Minneapolis, no distrito que ela representa, termina com a morte de dois cidadãos americanos: Alex Pretti, de 28 anos, e Renee Nicole Good, de 34. O caso ainda está sob investigação, mas reforça questionamentos sobre o uso de força letal e a coordenação entre autoridades federais e policiais locais. Para a deputada, a cadeia de comando que sustenta essas ações leva à Casa Branca.
Ao acusar Trump em rede nacional, Omar tenta ligar o discurso do presidente às consequências concretas das operações em bairros de imigrantes. Ela e a colega democrata Rashida Tlaib, também de origem muçulmana, vêm denunciando o que chamam de “demonização” da comunidade somali em Minnesota. Nas últimas semanas, Trump cita o estado repetidas vezes como exemplo de problemas que, segundo ele, seriam causados por políticas migratórias frouxas e pela chegada de refugiados.
A estratégia da Casa Branca aposta em números de criminalidade e em casos isolados para sustentar uma narrativa de ameaça. Parlamentares democratas, por outro lado, apontam para estudos que não mostram aumento de violência associado à presença de imigrantes. O embate desta quarta-feira condensa essas versões em choque: de um lado, a promessa de “lei e ordem”; de outro, a denúncia de que essa promessa custa vidas inocentes.
Impacto político imediato e disputa por narrativas
O episódio provoca reação instantânea em ambos os partidos. Aliados de Trump acusam Omar de desrespeitar o cargo presidencial e usar um caso sob investigação para fins eleitorais. A bancada democrata, em maioria entre as minorias étnicas e religiosas, enxerga no gesto um ponto de inflexão na resistência à agenda migratória da Casa Branca. Nas redes sociais, vídeos de poucos segundos com o grito “Você matou americanos!” se espalham em minutos, alimentando hashtags rivais e campanhas de arrecadação de fundos.
No campo republicano, a aposta é que o confronto reforça a imagem de Trump como alvo constante de críticos considerados radicais. Assessores do presidente indicam, nos bastidores, que o episódio será usado para mobilizar eleitores que veem nas operações do ICE um símbolo de firmeza. Entre democratas, líderes tentam equilibrar o apoio público a Omar com o receio de que o foco se desloque do conteúdo do discurso para o método do protesto.
A morte de Pretti e Good, porém, mantém o tema da responsabilidade governamental no centro do debate. Organizações de direitos civis e grupos de defesa de imigrantes pedem transparência total sobre a operação de janeiro, com divulgação de vídeos, laudos e ordens de missão. Advogados que acompanham o caso lembram que, mesmo em ações migratórias, o uso de força letal deve seguir padrões rígidos e supervisionados. Quanto mais o governo insiste na retórica de choque, maior a pressão para que apresente números, protocolos e resultados que justifiquem os riscos.
Pressão no Congresso e incertezas à frente
O confronto em plenário tende a acelerar manobras no Congresso. Democratas discutem a apresentação de projetos que limitem o alcance de operações migratórias em áreas residenciais e exijam relatórios mais detalhados do ICE, com prazos definidos e dados públicos. Senadores republicanos, por sua vez, já se movimentam para blindar o orçamento das agências de imigração e consolidar a mensagem de que reduzir tais ações significaria fragilizar a segurança interna.
A relação entre o governo federal e comunidades imigrantes entra em mais uma fase de tensão. Líderes somalis em Minnesota relatam aumento do medo de batidas, mesmo entre famílias com status regular. Prefeitos de grandes cidades, pressionados entre a base local e a ameaça de cortes de verbas federais, buscam saídas jurídicas para manter alguma autonomia sobre políticas de segurança. O grito de Omar, que hoje ecoa da galeria da Câmara, deve permanecer como marca deste embate e como teste para saber até onde o Congresso está disposto a ir na revisão das fronteiras entre proteção, poder policial e direitos civis.
