Zema reduz ataques a Lula e transforma STF em alvo central
Romeu Zema, ex-governador de Minas e pré-candidato à Presidência pelo Novo, desloca em abril o foco de suas críticas do governo Lula para o Supremo Tribunal Federal. A guinada se concentra nas redes sociais, sobretudo no Instagram, e consolida o STF como eixo de sua estratégia de comunicação eleitoral.
Comunicação reorganizada em torno do STF
Entre 1º e 24 de abril de 2026, Zema publica 90 posts em seu perfil no Instagram, onde reúne quase 3 milhões de seguidores. Quase metade desse conteúdo, 49 postagens, leva ataques ou críticas diretas ao Supremo, com discursos, trechos de entrevistas, vídeos editados e imagens criadas com ferramentas de inteligência artificial.
A mudança não surge isolada. A equipe de comunicação do pré-candidato batiza a ofensiva de “Os Intocáveis”, expressão que Zema passa a usar com frequência para se referir aos ministros do STF e, em alguns momentos, a outras autoridades. O rótulo aparece em cards, em legendas e em vídeos curtos pensados para engajar o público mais desconfiado do Judiciário.
As demais publicações do período misturam críticas ao governo Luiz Inácio Lula da Silva, mas em menor volume, com vídeos de bastidores, agendas de pré-campanha e conteúdos voltados a reforçar a imagem de gestor de fora da política tradicional. Zema retoma feitos de sua gestão em Minas, fala em corte de gastos e enfatiza que não tem “rabo preso”.
A inflexão ganha força depois de uma ofensiva vinda da própria Corte. O ministro Gilmar Mendes pede ao colega Alexandre de Moraes a inclusão de Zema no inquérito das fake news, após o ex-governador compartilhar um vídeo satírico sobre integrantes do STF. A partir dali, o tom sobe e a frequência das críticas aumenta, em especial nas redes sociais, onde o pré-candidato testa slogans e bordões.
Em vídeo divulgado em 4 de abril, Zema tenta se distinguir dos demais presidenciáveis. “Você não vai ver nenhum outro político e até mesmo pré-candidato criticando tanto esses absurdos que estão acontecendo no Supremo como eu tenho feito. Eu não tenho rabo preso”, afirma. Na mesma fala, ele questiona o silêncio de adversários. “Agora eu estou vendo muitos pré-candidatos omissos e calados. Será que estão concordando com isso?”
Disputa pelo eleitorado crítico ao Judiciário
A guinada mira um público específico e crescente: o eleitorado que vê o Supremo como protagonista excessivo da política nacional. Ao centralizar o STF no discurso, Zema tenta ocupar um espaço à direita que combina antipolítica, discurso anticorrupção e contestação ao poder do Judiciário, sem abandonar o antipetismo, mas relativizando seu peso.
Até o fim de 2025, o alvo principal do ex-governador é a política econômica do governo federal. Ele ataca gastos públicos, critica o aumento do “Custo Brasil” e se alinha ao discurso de redução do Estado. Desde o anúncio formal de sua pré-candidatura ao Planalto, em agosto do ano passado, esse repertório se mantém, mas perde protagonismo para o embate com a Corte.
Interlocutores da pré-campanha afirmam que a ênfase no STF não substitui completamente os temas econômicos, mas funciona como porta de entrada para um eleitor já mobilizado contra decisões de ministros como Alexandre de Moraes. A promessa é ampliar nos próximos meses a exposição de propostas de crescimento, emprego e segurança pública, sem recuar nas críticas ao tribunal.
A estratégia também aparece em um documento extraoficial lançado em 16 de abril, em São Paulo, que reúne diretrizes do plano de governo. O texto, apresentado sob o título “O Brasil sem intocáveis”, coloca o STF no centro do diagnóstico e das soluções sugeridas pela campanha. Chama atenção a ausência de menções nominais a Lula e ao PT, mesmo em um documento de dezenas de páginas.
O material lista bandeiras tradicionais do Novo, como combate à corrupção e a privilégios, redução de impostos e do “Custo Brasil”, enxugamento da máquina pública e flexibilização de leis trabalhistas. Na parte dedicada ao Judiciário, vai além do discurso genérico e apresenta propostas que limitam o poder da Corte, como o aumento da idade mínima para indicação de ministros para 60 anos e a proibição de decisões individuais que suspendam leis aprovadas pelo Congresso.
As imagens que ilustram o plano, produzidas em grande parte com inteligência artificial, reforçam o recado. Sem citar nomes, trazem silhuetas e traços que lembram Lula e o ministro Alexandre de Moraes, com referências visuais a togas, martelos de juiz e gabinetes de luxo. O efeito é deslocar a crítica de figuras específicas para a ideia de um sistema de “intocáveis” distante do cidadão comum.
Risco calculado e próximos capítulos
Ao escalar o confronto com o Supremo, Zema aposta em um risco calculado. De um lado, amplia visibilidade nacional, se diferencia de adversários que evitam tensionar o Judiciário e reforça a narrativa de perseguição. De outro, aproxima a pré-campanha de uma zona de atrito institucional que pode resultar em novas ações judiciais e restrições a seu discurso digital, especialmente em um ambiente já marcado por decisões duras contra desinformação.
A proposta de “moralização” do Judiciário, exposta no documento de diretrizes, resume o tom da ofensiva. O texto defende o veto a conflitos de interesse, como casos de ministros com parentes advogando no próprio tribunal ou ligados a empresas com causas na Corte, e prega o fortalecimento do poder do Senado na fiscalização e no julgamento de integrantes do STF. Na prática, sugere redesenhar o equilíbrio entre Poderes, deslocando parte da influência hoje concentrada na Suprema Corte.
Especialistas em direito eleitoral e constitucional ainda avaliam em que medida esse tipo de discurso pode tensionar o processo de 2026. Mudanças estruturais no STF dependem de emendas à Constituição, que exigem três quintos dos votos na Câmara e no Senado em dois turnos de votação. Mesmo assim, a simples presença do tema na campanha já provoca reações no meio jurídico e entre parlamentares, que enxergam ali um teste de limites do debate público sobre o Judiciário.
Dirigentes do Novo afirmam que o documento “O Brasil sem intocáveis” ainda passa por ajustes e deve receber contribuições de especialistas e da sociedade antes de virar programa oficial. A tendência, porém, é que o STF permaneça como fio condutor da pré-campanha, funcionando ao mesmo tempo como alvo e como trampolim para a construção da imagem de Zema como outsider disposto a enfrentar “privilégios”.
As próximas semanas indicarão se a aposta rende dividendos eleitorais ou se amplia resistências fora da bolha digital. A reação do Supremo, do Congresso e de outros presidenciáveis ao avanço desse discurso ajudará a definir se a eleição de 2026 será mais um capítulo da velha disputa entre governo e oposição ou o início de uma campanha centrada no questionamento do poder do Judiciário.
