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Zema reage a STJ com vídeo satírico sobre Gilmar e Fórum de Lisboa

O ex-governador mineiro Romeu Zema publica nesta terça-feira (2) um vídeo satírico com caricatura animada do ministro Gilmar Mendes. A peça, de dois minutos, responde a uma notificação do Superior Tribunal de Justiça (STJ) por suposta calúnia e leva para o centro do debate o financiamento do Fórum de Lisboa.

Humor, AI e um ministro em uma sauna em Lisboa

No novo episódio da série “Os Intocáveis”, Zema escala a inteligência artificial para criar uma versão caricata de Gilmar Mendes dentro de uma sauna em Lisboa, enrolado em uma toalha e bebendo champanhe. O personagem fictício lamenta o corte de verbas após a saída do Banco Master do consórcio de apoiadores do fórum jurídico em Portugal e ironiza o esvaziamento político do evento.

O roteiro mira diretamente o dinheiro que, segundo a sátira, mantém o encontro em pé. O boneco digital fala do “sumiço” de R$ 8,3 milhões, valor associado a patrocínios que teriam bancado jantares, uísques e voos privados na Europa em anos anteriores. Em outro ponto, a locução afirma que o patrimônio de Gilmar Mendes chegaria à casa dos R$ 20 milhões, cifra usada como munição política, sem apresentação de documentos no próprio vídeo.

A produção exagera nos símbolos de luxo. O ministro em versão fantoche aparece com um Rolex de ouro avaliado em R$ 395 mil e uma gravata italiana de grife, enquanto reclama do aperto financeiro provocado pelo recuo de patrocinadores. A animação sugere que empresários investigados pelo Supremo Tribunal Federal ajudariam a financiar o Fórum de Lisboa, insinuação que o magistrado já rechaça em manifestações públicas anteriores.

Choque entre poderes em ano pré-eleitoral

O vídeo chega às redes menos de 24 horas depois de o STJ abrir prazo de 15 dias para Zema apresentar defesa prévia no processo por calúnia contra Gilmar Mendes. A denúncia sai da Procuradoria-Geral da República, chefiada por Paulo Gonet, após o ministro acionar o colega Alexandre de Moraes e tentar a inclusão do ex-governador no Inquérito das Fake News do Supremo.

Gonet barra esse movimento e envia o caso ao STJ. Na avaliação do procurador-geral, as manifestações de Zema se inserem no campo da atuação pública e política de um pré-candidato à Presidência da República. A decisão cria um novo palco para a disputa: em vez do inquérito sigiloso das fake news, sob relatoria de Moraes desde março de 2019, o embate passa a tramitar no tribunal responsável por processar autoridades com foro especial fora do STF.

Zema aproveita a virada para ampliar o tom. Em depoimento em vídeo, afirma se sentir vítima de perseguição e insiste nas acusações sobre a relação de ministros com banqueiros. “Eles pegam carona em jatos de banqueiros e querem silenciar qualquer crítica”, diz o ex-governador, em linha com o discurso de parte da oposição que vê uso político de investigações conduzidas em Brasília.

O Fórum de Lisboa, apontado na peça como palco de jantares e encontros reservados, vira símbolo da proximidade entre corte, empresários e classe política. O próprio nome do episódio, “Gilmarpalooza”, sugere um festival em torno do ministro, misturando entretenimento, patrocínios e poder. Nas redes, apoiadores de Zema tratam o vídeo como denúncia disfarçada de piada; críticos veem ataque pessoal e tentativa de descredibilizar o Supremo em bloco.

Liberdade de expressão, cálculo eleitoral e próximos passos

A nova investida digital de Zema reforça a aposta em um eleitorado que se sente incomodado com o protagonismo do Judiciário desde 2019. O Inquérito das Fake News, aberto por decisão monocrática do então presidente do STF, Dias Toffoli, permanece sob sigilo e serve de pano de fundo para a narrativa de abuso de poder. Cada nova ordem de busca, bloqueio de redes ou quebra de sigilo alimenta a crítica de que ministros atuam como parte interessada no jogo político.

Na prática, o episódio testa os limites da liberdade de expressão no Brasil. Investigadores avaliam se o humor de “Os Intocáveis” ultrapassa a fronteira entre crítica dura e imputação falsa de crime a um ministro do STF, o que configuraria calúnia. Juristas dividem opiniões sobre o uso de caricaturas e recursos de inteligência artificial para dar verossimilhança a cenas de luxo, jatos privados e festas em Lisboa.

O cálculo político é evidente. Se o STJ arquiva a acusação, Zema sai fortalecido junto ao público que vê o Supremo como um poder intocável e distante. Em caso de condenação, o processo pode virar obstáculo à sua ambição presidencial, com risco de inelegibilidade em meio à campanha. Em qualquer cenário, o embate ajuda a consolidar a imagem de um candidato disposto a enfrentar ministros de toga, discurso que atrai aliados de partidos que hoje orbitam a oposição.

O processo no STJ avança em paralelo à disputa pela narrativa pública. Zema promete não recuar e afirma confiar no “restabelecimento da justiça” nas instâncias superiores. O STF, por sua vez, mantém em curso o inquérito das fake news, que segue sem data para terminar. A pergunta que se impõe, em ano pré-eleitoral, é até onde a estratégia de confrontar o Judiciário rende votos sem corroer ainda mais a confiança nas instituições.

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