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Zema cresce nas pesquisas e entra no eixo da disputa de 2026

Uma pesquisa divulgada em abril de 2026 coloca Romeu Zema, ex-governador de Minas, em trajetória de alta no cenário eleitoral nacional. O avanço ocorre em meio ao cansaço com a polarização entre Lula e Bolsonaro e ao desgaste do Supremo Tribunal Federal (STF) na opinião de parte do eleitorado.

O mineiro que sai das margens para o centro do tabuleiro

O empresário de 62 anos, formado em Administração pela FGV, deixa o governo mineiro e passa a ocupar espaço que, até aqui, parecia reservado apenas a Lula e Bolsonaro. Os dados mais recentes da Quaest mostram um movimento ainda embrionário, mas consistente: Zema cresce entre os eleitores que rejeitam os dois polos tradicionais e buscam uma alternativa de terceira via.

O próprio desenho da pesquisa ajuda a explicar o fenômeno. Segundo o levantamento, ele é desconhecido por 51% dos entrevistados. Entre os que o conhecem, 18% declaram que votariam nele, enquanto 31% afirmam que não votariam de jeito nenhum. Os números, ainda modestos em nível nacional, são suficientes para colocá-lo no radar e projetá-lo como personagem relevante no xadrez de 2026.

Zema constrói essa visibilidade a partir de um discurso afinado nas redes sociais. Ele se apresenta como gestor liberal, avesso a privilégios, distante de Brasília e crítico duro do STF. Em vídeos curtos, aparece dirigindo o próprio carro, falando com sotaque carregado e mangas de camisa arregaçadas. O pacote visual reforça a imagem de político simples, que não se mistura ao que chama de “velha política”.

Esse personagem, que rende engajamento diário nas plataformas digitais, se ancora em um dado concreto: o ex-governador deixa o cargo com 55% de aprovação e 35% de desaprovação, segundo a Quaest. Foi essa combinação de popularidade em casa e baixa exposição nacional que o impulsionou a testar voo presidencial, sob o argumento de que “é hora de Minas voltar a falar grosso em Brasília”.

Minas, dívida alta e o risco do efeito Sérgio Moro

O movimento de Zema não acontece no vácuo. A história recente mostra que presidentes que sobem a rampa do Planalto costumam vencer em Minas, terceira maior economia do País e síntese de comportamentos eleitorais do Sudeste e do interior. O Estado já produziu sete presidentes, de Juscelino Kubitschek a Dilma Rousseff, e alimenta o mito de que quem ganha ali larga na frente na disputa nacional.

Zema tenta se inscrever nessa tradição. Eleito governador em 2018 com 72% dos votos no segundo turno, foi reeleito em 2022 já no primeiro turno, em desempenho raro em um período de alta tensão política. A marca é usada exaustivamente por aliados. “Ele venceu a polarização em Minas duas vezes”, repete um coordenador de campanha, ao resumir o argumento central da pré-candidatura.

O currículo, porém, traz flancos abertos. Quando assumiu o governo, a dívida consolidada de Minas girava em torno de R$ 113,36 bilhões. Ao fim do mandato, estimativas apontam para um valor entre R$ 160 bilhões e R$ 180 bilhões. O salto alimenta críticas sobre a coerência entre o discurso de austeridade e a prática fiscal. Adversários apontam contradição direta com seu projeto liberal, que promete “zerar o custo Brasil” e privatizar estatais em série.

Na gestão mineira, Zema finca sua popularidade em dois pilares. De um lado, concede reajustes a servidores, um dos maiores contingentes de eleitores do Estado. De outro, amplia isenções fiscais a empresas, em linha com sua trajetória de empresário e com a aposta em atração de investimentos. A renúncia fiscal salta de R$ 13 bilhões em 2021 para cerca de R$ 23 bilhões em 2026, o que alimenta o discurso de que ele não tem autoridade para criticar o rombo das contas federais.

O desafio agora é transformar aprovação regional em musculatura nacional sem repetir o roteiro de Sérgio Moro em 2022, que começou bem nas pesquisas e encolheu na mesma velocidade. A diferença, nesta fase, é a narrativa. Zema se coloca menos como inimigo pessoal de Lula ou Bolsonaro e mais como resposta ao cansaço com ambos. Ao mesmo tempo, escala o STF como adversário preferencial, ao se apresentar como o “anti Supremo” diante de um público que vê na Corte um símbolo do excesso de poder.

Esse enquadramento alimenta um sentimento já presente em parcelas do eleitorado, inflamado desde os julgamentos da Lava Jato e das ações contra Jair Bolsonaro. O ex-governador tenta capturar essa insatisfação ao dizer que “ninguém votou em ministro do Supremo” e que o Tribunal “passou dos limites” ao interferir na política. O tom agrada a parte da base bolsonarista descontente com o próprio Bolsonaro, mas acende o alerta de instituições e especialistas em direito.

Terceira via, alianças e a disputa pelo eleitor cansado

O crescimento de Zema mexe diretamente com as estratégias de Lula, Bolsonaro e dos partidos médios. A simples presença de um nome competitivo fora dos dois polos obriga os líderes a recalibrar o discurso. Petistas começam a observar com atenção o desempenho do ex-governador entre eleitores de renda média e empresários. Bolsonaristas medem até que ponto o mineiro pode se transformar em válvula de escape para eleitores que rejeitam Lula, mas já não enxergam em Bolsonaro uma solução viável.

Nos bastidores, dirigentes de centro avaliam se Zema pode aglutinar uma frente que não decolou em 2022. O perfil liberal, ancorado em promessas de privatizações e redução de impostos, agrada a parte do empresariado que hoje se divide entre pragmatismo com o governo Lula e nostalgia do ambiente regulatório do governo Bolsonaro. Ao bater com força no STF, ele ainda captura o discurso de ruptura institucional que circula em setores mais radicalizados.

Esse posicionamento tem efeito imediato sobre o debate público. A discussão sobre os limites de atuação do Supremo, que hoje se restringe a círculos jurídicos e políticos, tende a ganhar as ruas e as redes em linguagem simples. A linha entre crítica legítima e questionamento da própria legitimidade da Corte, porém, é tênue. O país já sentiu, em 8 de janeiro de 2023, o custo de quando essa fronteira é ultrapassada.

Na prática, quem ganha com o avanço de Zema é o eleitor que rejeita o roteiro conhecido de um segundo turno entre Lula e Bolsonaro e vê a possibilidade de um terceiro nome viável. Quem perde, ao menos neste momento, são os partidos que apostam em candidaturas de centro pouco ancoradas em grandes colégios eleitorais. A força de Minas, somada à boa avaliação de governo, dá ao ex-governador uma plataforma que outros nomes não conseguem reproduzir.

Os próximos meses vão dizer se o mineiro se consolida como opção real ou se apenas ocupa o espaço de “novidade” até que a campanha ganhe temperatura. À medida que o escrutínio sobre sua gestão em Minas e suas propostas para o país se intensificar, a curva de crescimento pode acelerar ou estagnar. A dúvida, hoje, é se Romeu Zema vai repetir Itamar Franco, catapultado por uma circunstância, ou se ficará pelo caminho como tantos projetos de terceira via que não resistiram ao choque com a realidade das urnas.

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