Zelensky pede reunião com Lula no G7 para ampliar pressão sobre Putin
O presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, pede uma reunião com Luiz Inácio Lula da Silva nesta quarta-feira (16), às margens do G7 em Evian, na França. O ucraniano busca apoio explícito do Brasil para aumentar a pressão internacional sobre Vladimir Putin e destravar negociações em seus termos.
Brasil entra no centro do tabuleiro da guerra
O encontro, ainda sujeito a ajustes de agenda, ocorre num momento em que a guerra entra em fase considerada crítica em Kiev e nas capitais europeias. O Itamaraty confirma que o pedido partiu de Zelensky, que tenta envolver o Brasil, membro influente do Brics, em uma frente mais ampla de isolamento diplomático da Rússia.
No dia anterior, o chanceler Mauro Vieira se reúne com o ministro das Relações Exteriores da Ucrânia, num gesto que prepara o terreno político para a conversa entre os presidentes. O movimento indica que Brasília testa até onde pode ir sem romper a linha de neutralidade que Lula repete desde o início do conflito, em fevereiro de 2022.
Do lado ucraniano, a avaliação é direta: cada novo interlocutor que pressione Moscou por concessões aumenta a chance de um acordo mais favorável a Kiev. Zelensky insiste que a Ucrânia não está em rota de derrota militar e tenta convencer parceiros de que o impasse do front pode ser convertido em vantagem diplomática. “A Rússia não está vencendo e está perdendo muitas pessoas; portanto, precisa chegar a um acordo o mais rápido possível”, afirma.
Em Evian, o presidente ucraniano circula entre chefes de governo do G7 e líderes convidados com um objetivo claro. Ele busca apoio para um roteiro de negociação que inclui retirada gradual de tropas russas, garantias de segurança e reconstrução financiada por ativos russos congelados. A participação de Lula, ainda que como intermediário, daria peso político adicional a esse desenho, sobretudo nos diálogos com Moscou e Pequim.
A manhã desta quarta começa com a confirmação de que a reunião entre Lula e Zelensky entra na agenda, mas um atraso provocado por Donald Trump na abertura do último dia do G7 deixa em aberto o formato e o horário. Assessores dos dois governos admitem, em reservado, que alterações de última hora podem até cancelar o encontro, sem descartar nova tentativa nas próximas semanas.
Pressão sobre Putin passa por Washington, Europa e Brics
Zelensky desembarca na França com apoio explícito de líderes europeus para reforçar sanções e evitar fadiga política em relação à guerra, que já se arrasta por mais de dois anos. A União Europeia prepara o 21º pacote de sanções contra Moscou, com foco na energia. Entre as medidas em discussão está a restrição à venda de navios-tanque de gás natural liquefeito para a Rússia, setor que movimenta dezenas de bilhões de dólares por ano.
Ao mesmo tempo, o ucraniano tenta costurar, há pelo menos quatro meses, uma reunião com Donald Trump, hoje principal fiador do apoio militar e financeiro a Kiev. O encontro finalmente ocorre nesta semana, em Evian, e expõe as divergências. Segundo relato captado por um microfone aberto, o presidente francês, Emmanuel Macron, classifica a conversa entre Trump e a delegação ucraniana como “difícil”.
Zelensky procura convencer o americano de que os Estados Unidos não devem atuar apenas como “mensageiros” entre Kiev e Moscou, mas como mediadores engajados em favor da Ucrânia. Ele argumenta que o Exército russo perde capacidade e enfrenta desgaste humano crescente, o que abriria uma janela para pressionar Putin a aceitar concessões concretas. Trump, em público, fala em necessidade de concessões por parte do Kremlin e admite que Moscou se encontra mais fragilizada, mas evita sinalizar qualquer mudança imediata na postura da Casa Branca.
No G7, os líderes das maiores economias avançadas concordam em intensificar o cerco financeiro a Moscou. Uma das propostas em discussão inclui o uso de rendimentos dos cerca de US$ 300 bilhões em ativos russos congelados no exterior para apoiar a defesa e a reconstrução da Ucrânia. Se avançar, a medida representará novo patamar de pressão econômica sobre Putin.
É nesse ambiente que o Brasil entra em cena. Lula mantém relação aberta com Putin e participa ativamente do Brics, bloco que inclui Rússia, China, Índia e África do Sul, agora ampliado. Para Kiev, uma palavra mais dura de Lula contra Moscou, mesmo sem adesão formal a sanções, teria peso simbólico significativo junto a países que resistem a se alinhar ao G7.
Por outro lado, o Palácio do Planalto tenta preservar espaço de manobra. A diplomacia brasileira evita endossar qualquer iniciativa que seja vista como alinhamento automático aos Estados Unidos ou à União Europeia. A aposta de Lula desde o início da guerra é oferecer o Brasil como interlocutor capaz de falar com todos os lados, sem enviar armas nem aderir a embargos.
O que está em jogo para Lula, Brasil e a guerra
Se a reunião se confirmar, Lula ganha a chance de reforçar sua imagem de mediador internacional num palco de alta visibilidade. O encontro com Zelensky, à margem de uma cúpula que reúne sete das maiores economias do mundo, pode reposicionar o Brasil como ator relevante nas discussões sobre segurança europeia, energia e reconstrução pós-guerra.
Para o governo brasileiro, o desafio está em equilibrar esse protagonismo com interesses econômicos e estratégicos. O comércio entre Brasil e Rússia soma bilhões de dólares ao ano, puxado por fertilizantes essenciais ao agronegócio. Uma guinada brusca na posição sobre o conflito poderia acender alertas em setores do campo e da indústria, que dependem de insumos russos e de parcerias com a China.
A diplomacia de Kiev enxerga, porém, uma janela de oportunidade. Com a Europa avançando para o 21º pacote de sanções e o debate sobre o uso de ativos russos congelados ganhando força, qualquer sinal do Brasil em favor de maior pressão política sobre Putin reforça o argumento de que Moscou está cada vez mais isolada. Na prática, isso pode acelerar decisões em fóruns multilaterais e influenciar votos em organismos como a ONU.
No médio prazo, a forma como Lula responde ao apelo de Zelensky tende a pesar na relação com os parceiros do Brics. Uma aproximação mais clara de Kiev agradaria a Estados Unidos e União Europeia, mas exigiria ajustes na conversa com Rússia e China. Uma postura excessivamente cautelosa, por outro lado, pode alimentar críticas de que o Brasil hesita em condenar agressões militares de forma mais direta.
Enquanto assessores tentam encaixar agendas e contornar atrasos impostos pela própria dinâmica do G7, a guerra segue sem perspectiva imediata de cessar-fogo. Zelensky insiste que o tempo favorece uma negociação em condições menos vantajosas para Moscou. Putin aposta no desgaste dos aliados ocidentais e na fadiga da opinião pública, que convive há mais de 800 dias com o noticiário diário de combates.
A conversa com Lula, se ocorrer, dificilmente produzirá um anúncio imediato de mudança de rota na guerra. O encontro pode, porém, redesenhar o lugar do Brasil na crise e influenciar decisões futuras em Washington, Bruxelas e Pequim. A questão que fica para os próximos meses é se Lula aceitará transformar a neutralidade em influência concreta ou continuará navegando entre os dois lados enquanto o conflito se prolonga.
