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Xi visita Coreia do Norte e sinaliza novo eixo com Kim contra EUA

O presidente da China, Xi Jinping, chega a Pyongyang em 8 de junho de 2026 para a primeira visita oficial à Coreia do Norte em sete anos. Ao lado de Kim Jong Un, ele anuncia uma ampliação da cooperação estratégica, comercial, militar e tecnológica entre os dois países, sem mencionar a desnuclearização da Península Coreana, ponto central nas negociações globais de segurança.

Visita cerimonial com recado estratégico

Xi desembarca em uma capital meticulosamente enfeitada para recebê-lo. Soldados marcham em formação precisa, bandeiras vermelhas cobrem avenidas largas e o regime de Kim aproveita cada imagem para fixar a mensagem de que continua amparado por seu maior parceiro. A cena contrasta com a última vez em que o líder chinês pisa em Pyongyang, em 2019, quando ainda fala em apoiar a “desnuclearização da Península Coreana”. Desta vez, essa expressão desaparece dos comunicados oficiais.

Durante as conversas formais, Xi fala em “profundas mudanças não vistas em um século” e defende que os dois países abram “uma perspectiva mais brilhante” para suas causas socialistas e para a “paz e o desenvolvimento regional”. O discurso é dirigido a Kim, mas tem outro alvo evidente: os Estados Unidos e seus aliados no Leste Asiático, que reforçam alianças militares e instalam novas camadas de defesa antimísseis na região.

Xi apresenta um pacote mais concreto do que o de sete anos atrás. Ele promete expandir a cooperação em comércio, agricultura, construção, ciência, tecnologia e saúde, além de reforçar a “coordenação estratégica” e intensificar intercâmbios militares, diplomáticos e de aplicação da lei. Não há menção pública a limites para o programa nuclear norte-coreano, que viola resoluções do Conselho de Segurança da ONU desde o primeiro teste atômico do país, em 2006.

China se recalibra em meio a novo xadrez geopolítico

A mudança de tom reflete um mundo diferente do de 2019. A China vive competição aberta com os EUA em tecnologia, comércio e influência militar. A Coreia do Norte, por sua vez, se aproxima de Moscou. Em 2024, Kim e Vladimir Putin assinam um tratado de defesa mútua, e Pyongyang passa a fornecer milhares de projéteis e combatentes para a guerra russa na Ucrânia, segundo governos ocidentais.

Esse tripé informal entre Pequim, Moscou e Pyongyang inquieta Washington, Seul e Tóquio. A visita de Xi busca reequilibrar essa equação. Ao reforçar a parceria “forjada em sangue” na Guerra da Coreia, a China tenta garantir que o vizinho imprevisível não escorregue para uma órbita excessivamente russa. O gesto ganha peso pelo simbolismo: é a primeira viagem internacional de Xi em 2026, escolha lida em Pyongyang como prova de prioridade absoluta.

Kim responde na mesma moeda. Ele afirma que a amizade com a China é o “trabalho estratégico de maior prioridade e mais importante” do regime e promete não poupar esforços para consolidá-la em um “relacionamento estratégico inabalável e sólido”. A retórica, porém, convive com sinais de autonomia. Dias antes da chegada de Xi, o líder norte-coreano visita uma fábrica de mísseis e uma nova instalação ligada à produção de material nuclear para armas, em desafio explícito às sanções da ONU, em vigor desde 2006 e endurecidas em 2016 e 2017 após testes de bombas mais potentes.

Para analistas em Seul, o recado é duplo. “Atualmente, Kim vê mais risco na diplomacia com Trump do que em seguir um roteiro da Guerra Fria 2.0, e Xi vê mais risco em pressionar a Coreia do Norte do que em dar espaço a ela”, avalia Leif-Eric Easley, professor da Universidade Ewha. A frase resume a lógica do momento: pressionar demais pode empurrar Pyongyang ainda mais para os braços de Moscou e aumentar o risco de testes nucleares ou de mísseis de longo alcance.

Impacto na segurança regional e no equilíbrio de poder

A ausência de qualquer referência explícita à desnuclearização é o ponto que mais chama a atenção em capitais ocidentais. Em 2019, Xi ainda faz questão de repetir, ao lado de Kim, que a China apoia uma península coreana livre de armas atômicas. Em 2026, esse compromisso não aparece nem nos longos comunicados publicados em Pequim nem nas notas de Pyongyang até a tarde de terça-feira, 9 de junho.

Para Lim Eul-chul, professor da Universidade Kyungnam, na Coreia do Sul, a mudança é sintomática. “Isso pode significar um alinhamento de segurança entre a China e a Coreia do Norte com o objetivo de conter a Coreia do Sul, os EUA e o Japão, ao mesmo tempo em que aceita tacitamente o status da Coreia do Norte como um Estado com armas nucleares”, afirma. Se essa leitura se confirma, o tabuleiro de segurança asiático entra em nova fase.

A Coreia do Sul já destina mais de 2,7% do PIB ao gasto militar e acelera projetos de defesa antimísseis em parceria com Washington. O Japão rompe décadas de contenção pós-guerra e aprova, em 2022, plano para elevar o orçamento de defesa para cerca de 2% do PIB até 2027. A visita de Xi e o reforço nos laços com Kim tendem a alimentar esse movimento, com impacto direto na indústria bélica, em contratos de tecnologia dual — de uso civil e militar — e em novos exercícios conjuntos na região do Indo-Pacífico.

Em Washington, o tema norte-coreano volta à mesa. O ex-presidente Donald Trump tenta, desde o ano passado, retomar contato político com Kim após o fracasso das cúpulas de 2018 e 2019, quando promete um acordo “totalmente negociado” que nunca se concretiza. Agora, porém, o líder norte-coreano chega à mesa de negociações, se quiser voltar a ela, amparado por um eixo mais sólido com Pequim e Moscou, o que reduz o espaço para sanções adicionais e para pressão unilateral dos EUA.

Próximos passos e dúvidas em aberto

O governo chinês sustenta, em público, que não mudou de posição. Questionado em Pequim, o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores, Lin Jian, insiste que a China mantém “continuidade e consistência” sobre a questão nuclear na península. Especialistas apontam, porém, que a continuidade agora se mede menos pelo discurso e mais pela disposição de aceitar, na prática, uma Coreia do Norte armada e integrada a um bloco de segurança liderado por Pequim.

Os próximos meses devem indicar se a visita de Xi inaugura apenas uma fase de aproximação simbólica ou um realinhamento duradouro. O ritmo de testes de mísseis norte-coreanos, o volume de exercícios militares entre EUA, Coreia do Sul e Japão e eventuais novos pacotes de sanções na ONU serão indicadores concretos. “A visita de Xi é um abraço estratégico a Kim, mas não um cheque em branco para a Coreia do Norte”, resume Easley. A frase deixa em aberto a principal pergunta desta nova etapa: até onde Pequim está disposta a ir para segurar Pyongyang ao seu lado sem perder o controle do jogo nuclear na Ásia.

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