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Xi ataca remilitarização do Japão e expõe racha com Trump em cúpula

O líder chinês, Xi Jinping, reprova de forma dura a primeira-ministra japonesa, Sanae Takaichi, pela remilitarização do Japão durante cúpula com Donald Trump em Pequim, em 24 de maio de 2026. O ataque surpresa expõe tensões crescentes no triângulo China-EUA-Japão e aumenta a incerteza sobre o futuro do equilíbrio militar na Ásia.

Explosão de tensão em mesa preparada para conciliação

O encontro em Pequim é desenhado para reduzir o atrito entre as duas maiores potências do planeta, mas termina marcado por uma explosão de tensão regional. Em uma das sessões mais sensíveis da cúpula de dois dias, Xi adota tom exaltado ao criticar o aumento dos gastos militares japoneses e acusa Tóquio de abandonar a imagem de “país pacífico”.

Autoridades americanas presentes se dizem surpresas com o desvio de rota. O tema Japão não surge nas conversas preparatórias e tampouco aparece entre as prioridades oficiais da reunião. O ataque verbal, segundo sete pessoas a par das conversas, se torna o momento mais tenso do encontro e transforma o Japão no pivô de uma disputa que, em tese, discute o redesenho da rivalidade sino-americana.

Japão no centro da disputa pela segurança no Pacífico

Xi mira um processo que se arrasta há mais de uma década. O orçamento de defesa japonês cresce por 14 anos seguidos e sobe 9,7% até 2025, segundo o Ministério das Relações Exteriores da China. Para Pequim, esse movimento confirma que o país “está deslizando rumo ao neomilitarismo” e que a “máscara de país para a paz” cai rapidamente. A crítica vem de um governo que também acelera sua própria máquina de guerra: a China eleva os gastos militares em 7,4% no último ano, a US$ 336 bilhões, 31º aumento anual consecutivo, de acordo com o Instituto Internacional de Pesquisa da Paz de Estocolmo. O Japão gasta US$ 62 bilhões no mesmo período, um sexto do orçamento chinês.

A resposta de Trump tenta reequilibrar a mesa. O presidente americano afirma que Tóquio precisa de uma postura de segurança mais assertiva diante da ameaça crescente da Coreia do Norte. Pessoas informadas sobre a conversa dizem não estar claro se ele menciona a China no mesmo contexto, embora Pequim seja listada por Tóquio, há vários anos, como desafio principal. Desde 2023, os livros brancos de defesa japoneses descrevem as atividades militares e a política externa chinesas como “o maior desafio estratégico” para o arquipélago.

Choque após declarações sobre Taiwan e reação econômica chinesa

O confronto verbal em Pequim não nasce do nada. As relações entre China e Japão se deterioram rapidamente desde novembro, quando Takaichi declara que um ataque chinês a Taiwan pode representar “ameaça existencial” ao Japão e justificar o envio das Forças de Autodefesa para o estreito. A frase não altera formalmente a política japonesa, mas provoca condenação imediata de Pequim, que reage com uma combinação de retórica e medidas econômicas.

Nos meses seguintes, o governo chinês impõe limites à exportação de terras raras de uso dual, essenciais para a indústria de alta tecnologia e para equipamentos militares. Em nota dura divulgada na sexta-feira anterior à cúpula, o Itamaraty chinês volta a listar o aumento de 9,7% no orçamento de defesa japonês e acusa “forças de direita” em Tóquio de pressionar por novos saltos de gasto. Em paralelo, uma versão preliminar do livro de defesa japonês de 2026 destaca incidentes recentes de maior assertividade militar chinesa, assim como a “séria preocupação” com o aprofundamento da cooperação entre Pequim e Moscou.

Ansiedade em Tóquio com ambiguidade de Trump

O episódio em Pequim atinge Tóquio em um momento de nervosismo com a solidez do guarda-chuva americano. Após as declarações sobre Taiwan, Takaichi não recebe apoio público de Trump nem de altos funcionários dos Estados Unidos. A ausência de respaldo claro alimenta dúvidas em ministérios e gabinetes japoneses sobre o que, exatamente, Washington está disposto a arriscar em defesa do aliado.

As incertezas crescem com novas fricções comerciais e militares. O governo japonês ainda digere as tarifas impostas por Trump a parceiros considerados estratégicos e acompanha com apreensão a guerra com o Irã, que consome parte da atenção militar americana. Em maio, o Financial Times revela que os EUA avisam o Japão de que haverá atraso sério na entrega de 400 mísseis Tomahawk, encomendados em 2024 para compor uma capacidade de “contra-ataque” contra a China. O recado é lido em Tóquio como sinal de que a dissuasão americana, pilar da segurança japonesa desde o pós-guerra, já não é garantia automática.

Especialistas veem tiro no pé de Pequim

Analistas que acompanham a política de segurança japonesa avaliam que o discurso de Xi faz o efeito oposto ao pretendido. Christopher Johnstone, ex-alto funcionário da Casa Branca para o Japão, afirma que a “abordagem cáustica” do líder chinês e o esforço para explorar o desejo de Trump por relações estáveis com Pequim apenas reforçam a busca de Tóquio por maior autossuficiência. “A falta de autoconsciência de Xi é notável. Suas próprias ações estão acelerando o surgimento de um Japão muito mais forte”, diz.

Ele argumenta que a retórica anti-Japão não encontra eco relevante fora da China. “Tóquio está fortalecendo os laços de segurança com parceiros em toda a região, incluindo Austrália, Filipinas e até mesmo Coreia do Sul, todos os quais se preocupam muito mais com uma China agressiva do que com um Japão remilitarizado”, afirma. Na prática, a pressão de Pequim e a ambiguidade de Washington empurram Tóquio para uma rede de parcerias paralelas, que inclui exercícios conjuntos, acordos de compartilhamento de inteligência e compras coordenadas de armamentos.

Equilíbrio militar no Pacífico entra em nova fase

A troca de acusações na cúpula em Pequim funciona como alerta para o restante da região. Governos do Sudeste Asiático e da Oceania monitoram a cena com atenção, em meio a uma corrida por submarinos, mísseis de longo alcance e sistemas antimísseis. O episódio tende a aumentar a pressão por fóruns multilaterais mais robustos sobre controle de armas e gestão de crises no Indo-Pacífico, ainda frágeis diante do volume de incidentes navais e aéreos envolvendo China e aliados dos EUA.

Trump busca suavizar o impacto político doméstico do encontro ao telefonar para Takaichi do Air Force One, no voo de volta a Washington, mas a Casa Branca e o governo japonês não divulgam o conteúdo da conversa. A ausência de transparência alimenta novas leituras sobre o grau de compromisso americano com Taiwan, depois de o próprio presidente ter descrito, em Pequim, um pacote recorde de US$ 14 bilhões em armas para a ilha como “moeda de negociação” com a China. A partir de agora, diplomatas em capitais asiáticas passam a trabalhar com um cenário em que três potências nucleares calibram, ao mesmo tempo, seus limites de dissuasão. A pergunta que se impõe é se a região terá tempo e mecanismos suficientes para negociar freios antes que algum erro de cálculo transforme uma troca de acusações em crise aberta.

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