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Ucrânia reabre oleoduto Druzhba e retoma fluxo de petróleo à Europa

A Ucrânia retoma, em abril de 2026, o transporte de petróleo russo para a Europa pelo oleoduto Druzhba, após concluir reparos em um trecho danificado por ataque. A reabertura alivia a pressão energética sobre países altamente dependentes do fluxo, como Hungria e Eslováquia, e destrava um novo empréstimo da União Europeia a Kiev.

Oleoduto volta a operar em meio à guerra e à disputa energética

O reinício do bombeamento ocorre quase três meses depois de o oleoduto ser atingido por mísseis russos, em janeiro, em um dos pontos de maior vulnerabilidade da rede no território ucraniano. Equipes técnicas trabalham desde então, em regime de 24 horas, para substituir trechos de dutos, válvulas e sistemas de monitoramento eletrônico, considerados cruciais para detectar novos ataques.

O Druzhba, palavra russa para “amizade”, é uma das artérias mais antigas e estratégicas do abastecimento de petróleo da Europa. Inaugurado na década de 1960, ele cruza mais de 4 mil quilômetros entre campos russos e refinarias na Europa Central. Apesar da guerra e das sanções, parte desse fluxo continua sendo exceção na política energética europeia, por pressão de governos que ainda dependem do petróleo russo para manter indústrias, transporte e aquecimento.

O governo ucraniano trata a retomada como vitória técnica e política. Ao garantir a integridade do oleoduto em seu território, Kiev tenta mostrar que segue capaz de proteger uma infraestrutura que sustenta economias vizinhas em plena guerra. Autoridades do setor de energia descrevem, em conversas reservadas, a operação como um recado duplo: de resiliência interna e de confiabilidade para aliados europeus.

Negociadores em Bruxelas vinham condicionando, desde fevereiro, um novo pacote de apoio financeiro à Ucrânia à estabilidade mínima do corredor energético que passa pelo país. A avaliação era que, sem previsibilidade no fluxo de petróleo, governos como o da Hungria poderiam travar decisões unânimes no Conselho da União Europeia. O reparo no Druzhba reduz esse risco político e facilita a costura do acordo.

Alívio para Hungria e Eslováquia e freio na alta de preços

A volta do fluxo pressuriza menos os mercados de energia na Europa Central, que nos últimos meses convivem com a ameaça de racionamento e picos de preço. Em Budapeste e Bratislava, autoridades calculam que entre 50% e 70% do petróleo consumido nas refinarias ainda chega pelo Druzhba, em contratos de longo prazo que foram preservados mesmo depois da invasão russa em 2022.

Economistas ouvidos por agências internacionais estimam que a interrupção prolongada poderia elevar em até 20% o preço do diesel e da gasolina na região durante o segundo trimestre de 2026. O reparo concluído em abril funciona como freio para esse cenário. Operadores relatam queda na volatilidade dos contratos futuros desde os primeiros testes de bombeamento, realizados com vazões progressivas e monitoradas em tempo real.

Em Bruxelas, um diplomata europeu resume o cálculo político: “Manter o Druzhba funcionando é, hoje, tão importante quanto enviar munição para Kiev”. A frase expõe a dupla função do oleoduto. De um lado, garante combustível para economias sensíveis a qualquer choque de oferta. De outro, abre espaço para que a União Europeia avance em um novo empréstimo destinado a fortalecer as defesas ucranianas.

Fontes ligadas às negociações falam em um pacote na casa de bilhões de euros, dividido em parcelas anuais até 2030, com foco em defesa aérea, drones e modernização de blindados. O funcionamento estável do oleoduto reduz a resistência de países que, até aqui, temiam efeito colateral direto em seus mercados internos de energia caso Moscou retaliasse de forma mais agressiva.

A ofensiva russa contra infraestruturas energéticas na Ucrânia, intensificada desde o fim de 2023, transforma cada reparo em ato de resistência. Estações elétricas, depósitos de combustível e subestações de gás se tornam alvos regulares de mísseis e drones. O episódio mais recente com o Druzhba reforça a percepção de que oleodutos e gasodutos deixaram de ser apenas ativos econômicos para se tornarem armas geopolíticas.

Infraestrutura energética vira moeda de poder e de sobrevivência

O retorno do petróleo russo à Europa pelo território ucraniano expõe um paradoxo desconfortável. A receita gerada pelo transporte ajuda a manter de pé economias europeias que condenam a guerra, ao mesmo tempo em que parte do valor pago pelo barril segue irrigando o orçamento de Moscou. A Ucrânia, ao garantir o fluxo, busca preservar taxas de trânsito e capital político com seus parceiros ocidentais.

Especialistas lembram que a dependência de oleodutos como o Druzhba não desaparece de um dia para o outro. Mesmo com o aumento da compra de petróleo por navios e a aposta em energias renováveis, substituir uma rota terrestre consolidada leva anos e exige bilhões em investimento. Até 2025, a meta da União Europeia era reduzir em mais de 90% as importações de petróleo russo por via marítima, mas o corredor terrestre para Hungria e Eslováquia permaneceu fora das proibições mais rígidas.

Empresas de energia da região já consideram ampliar estoques estratégicos para, no mínimo, 90 dias de consumo, ante patamares em torno de 60 dias antes da guerra. Governos estudam novas rotas alternativas, como oleodutos vindos do Adriático e terminais adicionais para recebimento de petróleo por navios. Nenhuma dessas soluções, porém, tem efeito imediato comparável ao restabelecimento do Druzhba.

Na Ucrânia, a reabertura fortalece a narrativa de que o país continua sendo peça central na segurança energética europeia, mesmo enquanto enfrenta o terceiro ano de guerra em larga escala. Ao mesmo tempo, a necessidade de proteger o oleoduto exige mais recursos militares e tecnológicos, justamente em um momento em que o Exército tenta recompor unidades desgastadas na linha de frente.

Próximo capítulo: segurança, investimento e novo tabuleiro político

Os próximos meses tendem a testar a capacidade ucraniana de manter o Druzhba operando sob fogo, enquanto a Rússia segue mirando pontos vulneráveis da infraestrutura energética. Técnicos falam em blindar estações de bombeamento, enterrar trechos expostos e instalar camadas extras de sensores contra sabotagem, um esforço que pode consumir centenas de milhões de euros em contratos emergenciais.

O empréstimo articulado pela União Europeia, condicionado à estabilidade do fluxo, deve incluir recursos específicos para proteção de oleodutos, gasodutos e redes elétricas. A expectativa em Bruxelas é usar o caso do Druzhba como modelo para futuros pacotes de ajuda, em que infraestrutura estratégica e defesa militar caminham juntas. A incógnita é por quanto tempo a Europa conseguirá equilibrar a pressão para reduzir a dependência do petróleo russo com a necessidade de manter suas economias em funcionamento em meio a uma guerra prolongada.

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