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Ataque israelense mata jornalista no Líbano e reacende acusação de crime de guerra

Um ataque aéreo israelense mata a jornalista libanesa Amal Khalil e fere gravemente a fotógrafa Zeinab Faraj nesta quarta-feira (22), em Tayri, no sul do Líbano. As duas cobrem uma nova rodada de bombardeios quando o prédio em que se abrigam é atingido. O governo libanês acusa Israel de crimes de guerra e pede investigação internacional.

Jornalista morre em serviço sob fogo cruzado

Amal Khalil, repórter do jornal Al Akhbar, acompanha há anos a escalada de violência na fronteira sul libanesa. Ela sobrevive a um ataque de drone israelense em 2024, relata ter sido alvo direto e volta ao front meses depois. Agora, morre enquanto tenta registrar mais uma ofensiva em Tayri, pequena cidade a cerca de 15 quilômetros da fronteira com Israel.

Ao lado dela está a fotógrafa freelancer Zeinab Faraj, que sofre ferimentos graves e é levada às pressas a um hospital por equipes da Cruz Vermelha libanesa. A agência nacional de notícias do país, a NNA, informa que a remoção acontece “sob fogo hostil”, com ambulâncias avançando entre novos disparos israelenses. Autoridades locais acusam Israel de tentar impedir o resgate de feridos, o que, somado ao ataque contra profissionais de imprensa, alimenta a denúncia de crime de guerra.

O primeiro-ministro do Líbano, Nawaf Salam, escolhe as redes sociais para reagir. Em publicação na plataforma X, ele afirma que “atingir jornalistas e impedir o acesso de equipes de resgate, seguido de novos ataques contra essas equipes, configura crimes de guerra”. Para Salam, os ataques contra a imprensa deixam de ser exceção. “Passam a representar um método recorrente que condenamos”, escreve.

O Exército israelense confirma que duas jornalistas estão entre os feridos no episódio, mas rejeita qualquer intenção de atacar repórteres. Em nota, sustenta que as forças em operação no sul do Líbano identificam dois veículos partindo de uma “estrutura usada pelo Hezbollah”, grupo xiita apoiado pelo Irã e inimigo declarado de Israel. Militares dizem que os ocupantes dos carros se aproximam “de forma ameaçadora”, o que leva a ataques contra um dos veículos e contra o prédio para onde os indivíduos fogem.

Israel afirma ainda que procura “reduzir danos a civis enquanto mantém a segurança de suas tropas” e nega ter bloqueado a passagem de ambulâncias. O governo promete apurar as circunstâncias do ataque, sem fixar prazos ou detalhar o formato da investigação. Até o fim da tarde, não há anúncio de cooperação com órgãos internacionais independentes.

Pressão internacional expõe risco crescente para a imprensa

A morte de Amal Khalil não é um caso isolado. Ela se torna a quarta profissional da mídia morta em território libanês por ação israelense desde março de 2026, segundo a NNA. Em pouco menos de dois meses, ao menos quatro repórteres ou fotógrafos morrem cobrindo a mesma frente de batalha, em uma faixa de poucas dezenas de quilômetros, entre vilarejos agrícolas e bases militares.

O episódio ocorre em um momento em que um cessar-fogo frágil tenta conter a escalada entre Israel e Hezbollah. A trégua, firmada na semana anterior, sofre abalos constantes com disparos de foguetes, ataques de artilharia e operações pontuais de ambos os lados. A ofensiva desta quarta-feira atinge civis e jornalistas, cria novas vítimas fatais, entre elas Amal, e coloca em xeque a própria viabilidade do acordo.

Organizações internacionais reagem em bloco. Especialistas da Organização das Nações Unidas, que no início do mês já pedem uma investigação independente sobre a morte de três repórteres por fogo israelense no Líbano, voltam a cobrar esclarecimentos. O Committee to Protect Journalists (CPJ), entidade com sede em Nova York que monitora violações à liberdade de imprensa, responsabiliza Israel pela morte de Amal e pelos ferimentos de Faraj.

“Consideramos Israel responsável por colocar em risco a vida de Amal Khalil e pelos ferimentos sofridos por Zeinab Faraj após o ataque direcionado”, afirma Sara Qudah, diretora regional do CPJ. A organização lembra que Israel responde por cerca de dois terços das mortes de jornalistas e trabalhadores da mídia registradas em 2025, em conflitos que envolvem Gaza, Cisjordânia e agora o sul do Líbano.

A trajetória de Amal ajuda a dimensionar o impacto da tragédia. Em uma entrevista no ano passado, ela descreve o momento em que, em 2024, acredita ter sido deliberadamente visada por um drone israelense enquanto cobria confrontos no sul do país. O vídeo volta a circular nesta quarta-feira, como uma advertência tardia sobre o custo de trabalhar em um campo de batalha onde a linha entre combatente e observador se torna cada vez mais difusa.

Cessar-fogo em xeque e disputa por narrativa

O ataque em Tayri ocorre às vésperas de uma nova rodada de negociações diretas entre Israel e Líbano, prevista para quinta-feira, em Washington. Diplomatas tentam transformar o cessar-fogo de poucos dias em um acordo mais robusto. A morte de uma jornalista em serviço, sob fogo israelense, adiciona um elemento político e simbólico incômodo à mesa de negociação.

Para o governo libanês, o episódio reforça o argumento de que Israel não respeita limites em áreas civis e viola regras básicas das Convenções de Genebra, que protegem profissionais de imprensa e equipes médicas em zona de guerra. Para Israel, admitir um ataque deliberado contra jornalistas significaria abrir espaço para processos em cortes internacionais e para novas sanções diplomáticas, cenário que o governo tenta evitar.

A disputa por narrativa se instala. De um lado, relatos de socorristas que falam em “fogo hostil” durante o resgate e de colegas que descrevem o prédio onde Amal e Zeinab se abrigam como ponto conhecido da imprensa em Tayri. De outro, a versão israelense de que as tropas reagem a uma ameaça imediata, associam os veículos a uma “estrutura do Hezbollah” e não conseguem distinguir, em tempo real, quem ocupa o prédio atingido.

A tragédia pressiona ainda mais a já combalida segurança de repórteres no Oriente Médio. Redações libanesas discutem reduzir o envio de equipes ao sul do país. Veículos estrangeiros avaliam recuar para áreas consideradas menos expostas, o que pode limitar o fluxo de informações de campo e ampliar a dependência de versões oficiais.

Amal Khalil deixa uma redação marcada por luto e por um dilema. Seus colegas, no Al Akhbar, jornal de linha editorial de esquerda e alinhado ao Hezbollah, defendem manter a cobertura intensa da guerra, apesar do risco. A ONU e o CPJ insistem em responsabilização e em garantias concretas de proteção a jornalistas. O futuro do cessar-fogo, das negociações em Washington e da própria presença da imprensa na linha de frente dependerá da resposta a uma pergunta que permanece em aberto: quem, em meio a drones, foguetes e acusações mútuas, consegue garantir que histórias como a de Amal não se repitam nos próximos dias?

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