Tubarão-branco é filmado por mergulhadores no Mediterrâneo pela 1ª vez
Um grupo de mergulhadores voluntários registra, pela primeira vez, imagens subaquáticas de um tubarão-branco no Mediterrâneo. O encontro ocorre na semana passada, durante missão para retirar redes de pesca abandonadas em um naufrágio no Estreito da Sicília, região pressionada pela pesca industrial e crucial para a biodiversidade marinha.
Missão de limpeza que vira marco científico
A expedição é liderada pela Healthy Seas Foundation e reúne mergulhadores especializados na recuperação de redes fantasmas, como são chamados os equipamentos de pesca abandonados no mar. O grupo atua em um navio naufragado no Estreito da Sicília, entre a Itália e o norte da África, área estratégica do Mediterrâneo onde tráfego marítimo intenso e pesca industrial se sobrepõem a rotas de animais migratórios.
No meio da operação, enquanto equipes cortam e recolhem trechos de redes que cobrem o casco, um tubarão-branco surge no campo de visão do mergulhador Derk Remmers. Ele segura a câmera e registra a aproximação do animal, acompanhado por uma dúzia de peixes-piloto listrados, pequenos acompanhantes habituais de grandes predadores em busca de restos de alimento.
As imagens mostram o tubarão circulando o naufrágio e desaparecendo na coluna d’água em poucos segundos. Para os mergulhadores, o impacto é imediato. “Um encontro subaquático com um tubarão no Mediterrâneo é inacreditável”, diz Remmers, voluntário da organização Ghost Diving, parceira técnica da missão, em comunicado divulgado pela fundação.
Outro integrante da equipe, Pascal van Erp, relata em uma publicação no Facebook que o animal provavelmente se aproxima atraído pela vida marinha morta enroscada nas redes. Entre os animais encontrados presos, ele cita “muitas tartarugas marinhas” e peixes de médio porte. Esse tipo de rede abandonada pode continuar matando por anos, mesmo após o fim da pescaria, o que torna cada expedição de remoção uma corrida contra o tempo.
A Healthy Seas afirma que, embora existam registros pontuais de tubarões-brancos na região há décadas, a população é considerada desconhecida e fragmentada. A organização destaca que não há relatos anteriores de filmagens feitas por mergulhadores a curta distância no Mediterrâneo, o que torna o material de Remmers um marco para pesquisadores e conservacionistas.
Fantasma no topo da cadeia alimentar
O tubarão-branco é um dos grandes predadores dos oceanos e figura como espécie criticamente ameaçada em várias listas internacionais. No Mediterrâneo, sofre pressão combinada de sobrepesca, captura incidental em espinhéis e redes de deriva, colisões com embarcações e perda de presas naturais. A presença do animal no Estreito da Sicília expõe como essa região, com menos de 200 quilômetros de extensão em alguns trechos, concentra conflitos entre atividade econômica e vida selvagem.
Veronika Mikos, diretora da Healthy Seas, afirma em nota que o registro reforça a urgência de reduzir ameaças evitáveis. “Momentos como este nos lembram quanta vida ainda pode existir nas águas costeiras do Mediterrâneo e como é importante protegê-la de ameaças evitáveis, como equipamentos de pesca abandonados ou sobrepesca”, declara. O recado mira diretamente a prática de descartar redes no mar, proibida, mas ainda comum em áreas de pesca intensa.
A organização calcula que redes fantasmas podem responder por até 10% do lixo plástico nos oceanos, travando tartarugas, golfinhos, tubarões e aves marinhas. No Mediterrâneo, mar semifechado que banha cerca de 20 países e abriga mais de 17 mil espécies catalogadas, o acúmulo desse material tem impacto desproporcional. Equipamentos perdidos em naufrágios, como o visitado pela equipe no Estreito da Sicília, criam armadilhas permanentes em pontos que deveriam servir de abrigo para cardumes e corais.
Pesquisadores que acompanham a mission afirmam que cada novo registro ajuda a traçar um mapa mais preciso da distribuição do tubarão-branco na bacia mediterrânea. As filmagens permitem analisar tamanho aproximado, condição corporal, possíveis marcas de interação com redes e até comportamentos de caça. “Esse tipo de dado visual é raro na região e pode preencher lacunas importantes sobre a ecologia da espécie”, dizem, em comunicado conjunto divulgado após o mergulho.
As imagens da semana passada se somam a relatos dispersos, muitos feitos por pescadores, desde o início dos anos 2000. Sem séries contínuas, cientistas evitam estimar o número de indivíduos. A impressão dominante, porém, é de que a população está em queda, em linha com estudos globais que apontam declínio de até 70% em grandes tubarões em algumas áreas do planeta desde a década de 1970.
Pressão por políticas de proteção e pesquisa
O novo registro cria espaço para pressão adicional sobre governos do entorno do Mediterrâneo e órgãos regionais de pesca. Organizações ambientais defendem metas claras para retirada de redes fantasmas e fiscalização da pesca industrial em áreas sensíveis, como o Estreito da Sicília. Medidas incluem rastreamento obrigatório de equipamentos, punição a embarcações que descartam redes e criação de zonas de exclusão para proteger rotas de espécies ameaçadas.
Para a Healthy Seas, o impacto da filmagem ultrapassa a esfera científica. O vídeo, divulgado nas redes sociais da fundação, já circula em páginas de mergulho, grupos de pesquisa e perfis de influenciadores ambientais. A expectativa é que o material ajude a sensibilizar o público urbano, distante do cotidiano da pesca, sobre a relação direta entre consumo de frutos do mar, escolha de fornecedores e pressão sobre espécies no topo da cadeia alimentar.
Especialistas em conservação marinha apontam que encontros como esse costumam gerar picos de interesse em doações, voluntariado e adesão a campanhas de redução de plástico descartável. Universidades e centros de pesquisa veem na filmagem uma oportunidade concreta de atrair financiamento para estudos focados no Mediterrâneo, historicamente menos priorizado do que grandes oceanos abertos, como o Atlântico e o Pacífico.
Pesquisadores envolvidos na missão planejam compartilhar o vídeo em alta resolução com laboratórios da Europa e de países do Norte da África ainda em 2026. A análise deve incluir medições precisas do animal, comparação com registros anteriores e checagem de possíveis sinais de interação com embarcações ou equipamentos de pesca. Só depois desse processo será possível discutir, com mais segurança, se o encontro indica uma mudança de rota, um aumento local da população ou um evento isolado.
O Estreito da Sicília continuará a receber expedições de remoção de redes fantasmas ao longo dos próximos meses, segundo a Healthy Seas. A fundação trabalha com metas anuais de recolhimento de toneladas de equipamentos abandonados e já anuncia novas parcerias com empresas têxteis para reciclar o nylon retirado do fundo do mar. Cada descida de mergulho passa a carregar um peso duplo: limpar o que sobra da pesca industrial e registrar, com o máximo de detalhe possível, a vida que ainda resiste entre os destroços.
