Trump endurece embargo e leva Cuba à pior crise em décadas, diz Mesa-Lago
O economista cubano Carmelo Mesa-Lago afirma que Cuba vive em 2026 a pior crise econômica em mais de meio século. Ele responsabiliza o endurecimento inédito do embargo e o bloqueio de petróleo ordenados por Donald Trump após a captura de Nicolás Maduro.
Embargo mais duro e petróleo estrangulado
Professor emérito da Universidade de Pittsburgh e referência no estudo da economia cubana, Mesa-Lago acompanha os números da ilha há seis décadas. Aos 91 anos, ele diz nunca ter visto um quadro tão grave. “O governo Trump está apertando os parafusos de Cuba como nunca antes”, afirma, em entrevista concedida em abril de 2026.
O ponto de inflexão, segundo ele, ocorre em janeiro, quando forças internacionais capturam o ditador venezuelano Nicolás Maduro. Na sequência, Trump interrompe o fluxo de petróleo subsidiado que chegava de Caracas a Havana há mais de duas décadas. Durante três meses, nenhum navio petroleiro consegue atracar na ilha. A única exceção aparece no fim de março, com a chegada isolada de um cargueiro russo, incapaz de repor o volume perdido.
Essa combinação de embargo mais rígido, bloqueio do petróleo e restrições renovadas ao turismo atinge o coração da economia cubana. Setores que ainda funcionavam com fôlego curto, como transporte, indústria e agricultura, passam a operar sob racionamento permanente de combustível e eletricidade. “O fechamento do fluxo de petróleo a Cuba é novo. Não há antecedentes como este”, resume o economista.
Economia em queda e serviços sociais em colapso
Os dados que Mesa-Lago reúne ao longo dos últimos anos mostram uma economia em queda contínua. Entre 2019 e 2025, o Produto Interno Bruto recua, em média, 2,3% ao ano, acumulando perda próxima de 20 pontos percentuais. As estatísticas oficiais registram retração de 1,9% em 2023, 1,1% em 2024 e 5% em 2025, antes mesmo do impacto pleno do embargo reforçado por Trump.
O quadro se agrava porque Cuba já chega a 2026 com menos redes de proteção do que no chamado “período especial” dos anos 1990, quando o colapso da União Soviética cortou a principal fonte de subsídios. Entre 1960 e 1990, a ilha recebeu US$ 65 bilhões de Moscou, dos quais pagou apenas US$ 500 milhões, lembra o pesquisador. Agora, o ponto de partida é bem mais baixo: sem a ajuda soviética, com a Venezuela em colapso e um setor produtivo desgastado por décadas de baixa produtividade.
Na prática, a falta de petróleo se traduz em ônibus que deixam de circular, linhas de produção que param e colheitas que não chegam aos centros urbanos. Os apagões se tornam rotina e afetam até o básico da vida doméstica. “Isso faz com que os produtos na geladeira das pessoas estraguem”, descreve Mesa-Lago. A agricultura sofre com falta de combustível, fertilizantes e peças de reposição; a indústria, segundo o anuário estatístico de 2024, registra quedas “enormes” em quase todas as linhas de produção.
O impacto alcança também os serviços sociais, por décadas apresentados pelo regime como vitrine do socialismo caribenho. Indicadores de saúde, que já foram comparáveis aos dos países mais avançados da região, retrocedem. “Há uma deterioração brutal nos serviços sociais”, diz o economista. A mortalidade materna volta a níveis dos anos 1940, e o sistema de saúde universal, antes motivo de orgulho, deixa de oferecer a rede de segurança de outras épocas. “Antes diziam: ‘falha a alimentação, mas temos acesso a medicina grátis e saúde universal’. Isso já desapareceu.”
Embargo, sistema e a disputa pelo futuro
O endurecimento do embargo por Trump modifica uma discussão antiga. Por décadas, o governo cubano atribui a maior parte dos problemas ao bloqueio americano, enquanto críticos insistem que o principal culpado é o sistema econômico estatizado. Mesa-Lago tenta quantificar essa disputa. Ele calcula que, ao longo de 62 anos, remessas de familiares no exterior, entrada de turistas e ajuda subsidiada da Venezuela, em períodos anteriores, compensam boa parte das perdas estimadas pelo governo em razão do embargo.
Agora, diz ele, o cenário vira. “Eu diria que era secundário antes, mas a partir desta gestão de Trump já se converte em fator fundamental”, afirma, ao avaliar o peso das novas sanções. Ao mesmo tempo, insiste que o modelo cubano segue no centro do problema. “Todos os meus livros demonstram que o sistema de Cuba tem sido um desastre.” Para ele, a combinação de um Estado hipertrofiado, controle político rígido e reformas econômicas tímidas e cheias de idas e vindas bloqueia qualquer recuperação consistente.
O turismo, que ajudou a segurar a economia nos anos 2000 e parte da década seguinte, já havia sido devastado pela pandemia de Covid-19. As medidas de Trump, que restringem viagens e negócios, retiram mais essa válvula de escape. Em Havana e nos principais polos turísticos, hotéis operam com baixa ocupação, voos são cancelados e pequenas iniciativas privadas ligadas à hospedagem e à gastronomia veem a clientela minguar.
Enquanto isso, a sensação nas ruas é de cansaço e incerteza. A narrativa oficial, que volta a culpar Washington por cada apagão, encontra hoje uma população que convive há anos com promessas de mudança frustradas. Pesquisas independentes são proibidas, o que impede medir com precisão o humor social. Mesa-Lago prefere a cautela. “Essa é uma pergunta muito difícil porque, para responder a isso, seria necessário fazer uma pesquisa livre em Cuba, e isso é impossível”, afirma, ao ser questionado se um novo ciclo de nacionalismo antiamericano pode ganhar força.
Reformas à la China e Vietnã ou aprofundamento da crise
Do exílio, onde vive desde os anos 1960, Mesa-Lago defende uma saída que desagrada boa parte da diáspora cubana: um acordo com o regime para reformas econômicas profundas, mesmo que isso implique manter o Partido Comunista no poder. Ele cita os exemplos de China e Vietnã, que adotam modelos de “socialismo de mercado” e abrem espaço para o setor privado sem abandonar o controle político. “Se o governo aceita fazer mudanças econômicas radicais ao estilo de China e Vietnã, que faça, porque isso vai melhorar a situação das pessoas”, afirma.
O economista reconhece o custo político dessa posição. Em 1979, ao participar de um diálogo com Havana, foi atacado por setores do exílio e acusado de simpatizar com o regime. Hoje, volta a sustentar que aliviar a penúria do povo cubano deve vir antes de qualquer ajuste de contas histórico. “Para mim, o mais importante é que se alivie a penúria do povo cubano. Sei que isso é um anátema para boa parte do exílio, mas é como sinto”, diz.
Na visão dele, o tempo joga contra Cuba. Sem petróleo barato, sem turismo em escala e sob um embargo mais agressivo, a ilha entra em um ciclo de empobrecimento que corrói não só a renda, mas também o capital humano acumulado em décadas. Jovens qualificados emigram, profissionais de saúde buscam contratos no exterior e famílias inteiras dependem de remessas em dólar para comprar comida e remédios básicos.
O desfecho ainda é incerto. Trump, focado mais em uma transição econômica do que política, segundo a imprensa americana, sinaliza disposição para negociar concessões pontuais em troca de reformas de mercado. O governo cubano, pressionado por apagões, filas e queda da produção, hesita em abrir mão do controle. Entre as duas capitais, a margem de manobra encolhe a cada mês de recessão. A pergunta que paira sobre Havana é se a liderança aceitará mudar a economia antes que a crise social cruze um ponto sem retorno.
