Terremoto de 7,8 em Mindanao deixa ao menos 35 mortos nas Filipinas
Um terremoto de magnitude 7,8 atinge a província de Sarangani, em Mindanao, na manhã desta segunda-feira (8), e deixa ao menos 35 mortos e mais de 200 feridos. O tremor provoca deslizamentos, danos em prédios, alerta de tsunami e pânico em escolas que reabriam após um longo recesso.
Manhã de volta às aulas vira corrida por abrigo
O chão começa a tremer quando alunos voltam às salas de aula depois de semanas de recesso. Em poucos segundos, a rotina se transforma em fuga. Vídeos divulgados por escolas de Mindanao mostram crianças sentadas no chão, balançando de um lado para o outro, muitas agarradas aos professores, até que um abrigo improvisado desaba atrás delas e dispara uma corrida desordenada.
O epicentro fica a cerca de 20 quilômetros da costa de Sarangani, no extremo sul das Filipinas, em uma região acostumada a terremotos, mas pouco preparada para um abalo dessa intensidade. O tremor é sentido com força em uma dúzia de províncias e chega a 420 quilômetros de distância, na cidade de Manado, na ilha indonésia de Sulawesi. Em General Santos, município com cerca de 700 mil habitantes, câmeras de segurança registram o momento em que um prédio que abriga um restaurante de fast food desaba, levantando uma nuvem densa de poeira enquanto pessoas correm pela rua.
Pelo menos 19 pessoas morrem diretamente em consequência do terremoto e mais de 200 ficam feridas, segundo a Defesa Civil filipina, citada pela agência Associated Press. Outras 13 vítimas são soterradas em um deslizamento de terra provocado pelo tremor em áreas montanhosas de Sarangani. Equipes de resgate trabalham entre pedras, troncos e lama, na tentativa de localizar desaparecidos antes que novas réplicas tornem o terreno ainda mais instável.
Hospitais evacuados, prédios rachados e militares em campo
As primeiras horas após o abalo expõem a fragilidade das estruturas em Mindanao. Em General Santos, um hospital é evacuado às pressas por causa de rachaduras em andares superiores. Pacientes são levados para o estacionamento, alguns em macas, outros em cadeiras de rodas, enquanto técnicos avaliam se o prédio resiste a novas vibrações. Na Universidade Notre Dame de Dadiangas, um dos edifícios desaba. Não há aulas no local naquele momento, e ninguém fica ferido.
O reitor da universidade, Manuel de Leon, conta à rádio DZMM que se protege como pode quando o tremor começa. “Tive que me abaixar e me proteger debaixo da mesa. E foi muito longo e forte”, relata. Em Alabel, capital de Sarangani, o chefe de polícia, Benjie Ancheta, lembra a cerimônia de hasteamento da bandeira que é interrompida pela terra em movimento. “Este é o terremoto mais forte que já vivenciamos”, diz por telefone. Alguns policiais desmaiam durante o abalo, em meio à correria para deixar o pátio.
Imagens divulgadas pelas autoridades locais mostram fachadas de lojas destruídas, placas retorcidas, janelas em estilhaços e montes de concreto acumulados em calçadas. A Defesa Civil relata ao menos nove réplicas fortes na manhã de segunda-feira, a mais intensa com magnitude 6,7, suficiente para provocar novos danos em estruturas já abaladas. A extensão dos estragos ainda é incerta, e equipes percorrem estradas parcialmente bloqueadas para alcançar comunidades rurais.
As Forças Armadas filipinas mobilizam unidades de resposta a desastres para as áreas mais afetadas. Veículos blindados cedem lugar a caminhões com água, mantimentos, tendas e geradores. Soldados ajudam a montar centros de evacuação em quadras esportivas e pátios de escolas. O presidente Ferdinand Marcos Jr. cobra rapidez. “O governo nacional está agindo e não vamos deixar Mindanao para trás”, afirma em comunicado, ao ordenar que agências federais preparem suprimentos e equipes para operações de resgate prolongadas.
Alerta de tsunami aciona rede regional e expõe vulnerabilidades
O terremoto ocorre em uma das partes mais ativas do chamado Anel de Fogo do Pacífico, cinturão que se estende da costa da América do Sul ao Extremo Oriente russo e concentra centenas de tremores por ano. Nessa manhã, a atividade tectônica desloca o fundo do mar o suficiente para acionar alertas de tsunami no sul das Filipinas, no norte da Indonésia e no estado malaio de Sabah, na ilha de Bornéu.
O Sistema de Alerta de Tsunamis dos Estados Unidos indica que vários países podem ser afetados. A Austrália emite um aviso preliminar para partes de sua costa norte. No Japão, a agência meteorológica registra um pequeno tsunami de até 0,2 metro e decide fechar praias e suspender temporariamente serviços de balsas como precaução. No norte de Sulawesi, ondas de até 0,75 metro atingem áreas costeiras, segundo autoridades indonésias, que relatam apenas danos menores.
Moradores de Manado contam que sentem o chão balançar por vários segundos. “Eles estão agora evacuando para terrenos mais altos… longe da costa, para evitar o potencial tsunami”, descreve o morador Jufry Dalita, das remotas ilhas Sangihe, citado pela agência estatal Antara. A reação rápida reduz o risco imediato, mas volta a expor a dependência de sistemas de alerta e de rotas de fuga bem definidas em áreas de baixa renda e infraestrutura frágil.
A Malásia oferece ajuda às Filipinas. O primeiro-ministro Anwar Ibrahim afirma que o país está pronto para prestar assistência e faz um apelo público. “Rezo pela segurança e bem-estar de todos os afetados, desejando-lhes força e coragem nos dias difíceis que virão”, publica na rede social X. A cooperação regional, que inclui monitoramento de ondas e compartilhamento de dados sísmicos, volta a ser testada em uma região marcada por grandes desastres, como o tsunami de 2004 no Oceano Índico.
País em reconstrução permanente diante do Anel de Fogo
O abalo desta segunda-feira se insere em uma sequência de grandes terremotos recentes nas Filipinas. O país ainda convive com os efeitos do tremor mais mortal em 12 anos, um terremoto raso de magnitude 6,9 que atinge a costa da ilha de Cebu oito meses antes e mata 79 pessoas. Duas semanas depois daquele episódio, Mindanao volta a tremer com dois terremotos poderosos, um deles de magnitude 7,4.
A repetição de grandes abalos em menos de um ano pressiona o sistema de defesa civil e testa a capacidade do governo de reforçar padrões de construção, mapas de risco e planos de evacuação. Em cidades como General Santos e Alabel, comerciantes contabilizam prejuízos enquanto avaliam se será possível reabrir as portas sem investimentos pesados em reforço estrutural. Famílias em vilarejos de Sarangani se veem obrigadas a abandonar casas erguidas em encostas frágeis, sem garantia de reassentamento em áreas mais seguras.
As autoridades iniciam um levantamento detalhado dos danos, que deve levar dias para cobrir estradas rurais, plantações e pequenas comunidades costeiras. A prioridade imediata é encontrar sobreviventes, manter abrigos abastecidos e restabelecer energia e comunicação em pontos isolados. Equipes técnicas começam a inspecionar pontes, escolas e hospitais para decidir o que pode continuar em uso e o que precisará ser demolido.
Mindanao volta a aprender, de forma dolorosa, que não há trégua em uma das regiões mais sísmicas do planeta. A questão, agora, é se a reconstrução conseguirá ir além da resposta emergencial e produzir cidades e vilarejos menos vulneráveis ao próximo grande tremor, que, no Anel de Fogo, nunca é uma hipótese distante.
