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Tentativa de ataque arma caos e cenas surreais em jantar com Trump

Um ataque a tiros interrompe na noite de sábado (25) o jantar dos correspondentes da Casa Branca, em Washington, e força a evacuação às pressas de autoridades e convidados. O presidente Donald Trump é retirado do salão sob escolta do Serviço Secreto. No meio do caos, imagens de convidados deixando o local com taças e garrafas de vinho viralizam e transformam o susto em um retrato inesperado do surrealismo político americano.

Salão de gala vira cena de operação policial

O salão de festas do hotel Hilton, tradicional palco do jantar anual que reúne jornalistas, executivos de mídia, políticos e celebridades, se transforma em cenário de operação policial em poucos minutos. Por volta das 21h de sábado, um homem armado tenta invadir o espaço reservado ao evento, que reúne centenas de convidados a menos de quatro quilômetros da Casa Branca.

Identificado depois como Cole Thomas Allen, ele carrega armas de fogo e facas e consegue ferir um agente do Serviço Secreto antes de ser detido. O som dos disparos, somado aos gritos de alerta da segurança, quebra o clima de gala e faz a orquestra silenciar. Guardanapos caem no chão, cadeiras se arrastam às pressas e o jantar, que deveria seguir madrugada adentro, termina em poucos segundos.

O Serviço Secreto reage com o protocolo máximo. Trump e membros do alto escalão do governo são retirados por rotas laterais. Convidados recebem ordens contraditórias em sequência: primeiro, que permaneçam sentados; depois, que se abaixem; por fim, que deixem o salão com calma. Na prática, o resultado é um corredor tumultuado em direção às saídas de emergência.

No meio da confusão, surgem as imagens que marcam a noite. Um registro mostra o fotógrafo Andrew Harnik, da agência Getty Images, com a câmera em uma mão e um copo de uísque na outra. A foto circula em poucos minutos em grupos de jornalistas e, em seguida, ganha as redes sociais. “Cool as a cucumber”, escreve a fotógrafa Carol Guzy, vencedora do World Press Photo em 2026, ao compartilhar a cena. “Serenidade sob pressão…”, completa ela, resumindo a sensação de quem vê um profissional seguir trabalhando, copo firme, enquanto a segurança corre.

Outras cenas reforçam o contraste entre risco real e reação quase blasé de parte da plateia. Vídeos mostram convidadas recolhendo garrafas de vinho das mesas antes de acompanhar a evacuação. Em outra gravação, um homem continua comendo sua salada enquanto agentes armados atravessam o salão e orientam pessoas a se abrigar. O personagem é identificado depois como Michael Glantz, agente da Agência de Artistas Criativos, a CAA.

Questionado pela CNN, Glantz minimiza o medo. “Sou nova-iorquino”, diz, lembrando a rotina de sirenes e alertas na maior cidade do país. “Vivemos com sirenes e coisas acontecendo o tempo todo. Não fiquei com medo. Há centenas de agentes do Serviço Secreto se atirando sobre mesas e cadeiras, e eu queria assistir.” Ele também admite um motivo mais prosaico para permanecer sentado: não queria estragar o smoking novo no chão do Hilton.

Segurança sob escrutínio e memes em tempo real

O incidente atinge um dos símbolos da relação entre imprensa e governo nos EUA. Criado em 1921, o jantar da Associação de Correspondentes da Casa Branca se torna, ao longo das décadas, um termômetro do clima político em Washington. Presidentes usam o palco para fazer piadas sobre si mesmos e adversários, enquanto jornalistas aproveitam o acesso raro a autoridades em um ambiente menos formal.

Nos últimos anos, o evento também entra na disputa política. Veículos como o The New York Times anunciam publicamente, desde 2008, que não compram mesas no jantar, em gesto de distanciamento. Mesmo assim, a noite permanece como vitrine da elite de Washington, com ingressos disputados e cobertura ao vivo em canais de notícias e redes sociais.

A tentativa de ataque de sábado expõe a vulnerabilidade desse ambiente híbrido, em que segurança de chefe de Estado convive com tapete vermelho. O Serviço Secreto, já pressionado por episódios recentes envolvendo drones e invasões ao perímetro da Casa Branca, enfrenta novas cobranças. A investigação mira não apenas as motivações de Cole Thomas Allen, mas também o caminho que ele percorre até se aproximar do hotel carregando armas e facas.

Enquanto agentes isolam o entorno do Hilton, a narrativa pública do episódio é moldada em tempo real pelas redes sociais. Fotos de convidados com taças na mão, vídeos de repórteres se abaixando entre mesas e relatos desencontrados sobre o número de disparos se espalham antes mesmo de o governo divulgar uma nota oficial. O contraste entre o ferimento de um agente, a evacuação em massa e a aparente calma de parte do público alimenta debates sobre percepção de risco em ambientes de alta segurança.

Especialistas em segurança citados pela imprensa americana lembram que situações desse tipo costumam gerar reações extremas e contraditórias. Há quem corra, quem congele e quem tente manter a rotina a qualquer custo, até por autoproteção psicológica. No jantar de sábado, a imagem da taça de vinho erguida no meio do tumulto vira metáfora instantânea de um país acostumado a conviver com armas de fogo, alertas de ataque e protocolos cada vez mais rígidos.

Horas depois do incidente, uma nova cena reforça o caráter absurdo da noite. Com o hotel evacuado, dezenas de repórteres, ainda vestidos com smokings e vestidos longos, seguem para a Casa Branca para acompanhar a entrevista coletiva de Trump no fim da noite de sábado. Corredores normalmente ocupados por jornalistas de terno escuro e pastas de couro ganham brilho de paetês e gravatas borboleta. A coreografia burocrática das perguntas e respostas oficiais contrasta com o figurino de festa, e o episódio se consolida como uma espécie de peça de teatro involuntária sobre a política americana.

Investigação, pressões políticas e a próxima edição do jantar

As autoridades americanas evitam, nas primeiras 48 horas, cravar as motivações de Cole Thomas Allen. A investigação apura eventuais vínculos com grupos extremistas, histórico de transtornos mentais e sinais prévios de radicalização. O nome do agressor entra rapidamente em bancos de dados federais e passa a ser cruzado com registros de compras de armas e movimentações interestaduais.

Organizadores do jantar são pressionados a explicar detalhes do credenciamento, da checagem de antecedentes e da comunicação com o Serviço Secreto. A Associação de Correspondentes da Casa Branca, que tradicionalmente foca o discurso na defesa da liberdade de imprensa e no financiamento de bolsas de estudo para jovens jornalistas, se vê obrigada a falar de cercas, detectores de metal e rotas de fuga.

A Casa Branca usa a entrevista de sábado à noite para sinalizar controle. Trump exalta a atuação do Serviço Secreto, promete responsabilizar o agressor e tenta minimizar o impacto político do episódio. A oposição, por sua vez, aponta falhas de segurança, lembra outros episódios recentes envolvendo armas em espaços públicos e cobra mais transparência sobre protocolos em eventos com o presidente.

No curto prazo, a principal consequência prática recai sobre a agenda de eventos oficiais em Washington. Hotéis que recebem autoridades e grandes coletivas revisam planos de segurança, contratos com empresas privadas e rotas de acesso para vans de imprensa. Organizadores admitem, nos bastidores, que novos convites para eventos de grande porte tendem a incluir cláusulas mais duras sobre responsabilidade em caso de ataque.

A próxima edição do jantar dos correspondentes, prevista para abril de 2027, já entra no radar como teste da capacidade de Washington de combinar normalidade institucional e proteção reforçada. A associação discute, com aliados e patrocinadores, se mantém o formato atual, com centenas de convidados em um único salão, ou se migra para um modelo mais enxuto, com número menor de mesas e distância maior entre o presidente e o público.

Entre memes de taças de vinho, fotos de smokings espremidos em corredores da ala oeste e relatos de tiros ainda sob checagem, permanece uma pergunta central: até que ponto o país aceita conviver com o risco constante de violência armada como parte do espetáculo político.

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