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Surto de ebola expõe vazio deixado pelos EUA na saúde global

O surto de ebola que explode na República Democrática do Congo em maio de 2026 alcança Uganda e fecha fronteiras na região. A crise vira o primeiro teste da saúde global sem os Estados Unidos dentro da Organização Mundial da Saúde.

Escalada rápida em zona de conflito

Em apenas 11 dias, autoridades congolesas confirmam mais de 1.000 casos e ultrapassam 200 mortes. É uma velocidade rara mesmo para padrões de doenças altamente contagiosas. O vírus se espalha sobretudo no leste da RDC, área marcada por conflitos armados e presença de milícias apoiadas por Ruanda, onde cadeias de comando em saúde pública praticamente desmoronam.

Do outro lado da fronteira, Uganda confirma ao menos sete casos, incluindo registros na capital, Kampala. O governo ugandês reage na quarta-feira, 27 de maio, fechando a fronteira com a RDC numa tentativa de conter a travessia de pessoas possivelmente infectadas. A decisão isola comunidades que dependem do comércio diário entre os dois países, mas é tratada como medida de sobrevivência.

A chegada do ebola à capital ugandesa preocupa epidemiologistas em todo o mundo, que veem no deslocamento interno e na conexão aérea de Kampala um vetor de exportação silenciosa do vírus. Nas vilas próximas ao lago Alberto, profissionais de saúde relatam filas em postos improvisados, enquanto hospitais sofrem com falta de equipamentos básicos de proteção.

O temor cresce porque a cepa em circulação, identificada como Bundibugyo, não conta com vacina aprovada nem com tratamento antiviral específico. A lembrança da pandemia de Covid-19 ainda é recente, mas não se traduz em preparo equivalente. “A tecnologia para vacina não substitui equipes treinadas no terreno”, insiste um especialista ouvido em Nova York.

O vácuo deixado por Washington

O surto coloca sob holofote uma mudança estrutural na saúde global. Desde que os Estados Unidos se retiram da OMS e desmantelam a agência de desenvolvimento Usaid, em 2025, o sistema internacional perde seu principal financiador e organizador de respostas a emergências sanitárias. A saída americana abre um rombo superior a meio bilhão de dólares no orçamento da OMS e desarticula rotinas de monitoramento que se mantinham há décadas.

No mesmo ano, o Centro de Controle e Prevenção de Doenças, o CDC, demite centenas de especialistas em prevenção de epidemias, conhecidos como “detetives de doenças”. São profissionais treinados para desembarcar em zonas de surto em poucos dias, rastrear cadeias de transmissão e organizar quarentenas eficazes. A gestão do secretário de Saúde e Serviços Humanos, Robert Kennedy Jr., também provoca renúncias em massa na agência sediada em Atlanta.

Sem essa máquina de resposta, o alerta global sobre o ebola chega tarde. “Poucos duvidam de que o aviso teria soado mais cedo com o nível de vigilância que existia antes”, resume a jornalista Lúcia Guimarães, que acompanha a crise de Nova York. Ela lembra que, em surtos anteriores, equipes americanas pousavam em campo antes mesmo de a imprensa internacional notar a gravidade da situação.

Desta vez, a Casa Branca reage de forma defensiva. O governo de Donald Trump decide enviar cidadãos americanos expostos ao ebola para centros de quarentena no Quênia, em vez de repatriá-los para tratamento especializado. Segundo o jornal The New York Times, autoridades avaliam impedir o retorno de qualquer cidadão que tenha tido contato direto com casos suspeitos, uma ruptura com o padrão adotado em epidemias anteriores.

Um memorando revelado pela rede ABC mostra o CDC pedindo voluntários entre seus próprios funcionários para reforçar a triagem em três aeroportos que recebem voos da África Central, a duas semanas do primeiro jogo da Copa do Mundo. Canadá, que também sedia partidas do torneio, anuncia a suspensão temporária da entrada de viajantes provenientes da RDC, de Uganda e do Sudão do Sul. O México segue a mesma linha.

Sistema global à prova

O avanço do ebola confirma o prognóstico mais sombrio feito após a Covid-19: a próxima grande crise viria de uma zona de conflito. Na RDC, hospitais já enfrentam não apenas superlotação, mas ataques armados. Milícias invadem unidades em disputa por corpos de parentes, em funerais que seguem ritos tradicionais e aumentam o risco de contágio. Situações semelhantes foram registradas em 2018, no último grande surto de ebola na região.

Com a fragmentação da autoridade local, campanhas de informação tropeçam em boatos e desconfiança. Em algumas comunidades, moradores suspeitam que equipes de saúde tragam a doença, não que tentem combater o vírus. Sem a presença de missões robustas de resposta, com logística e meios de proteger os profissionais, a desinformação encontra terreno fértil.

A crise atinge também a mobilidade internacional. Companhias aéreas revisam rotas que passam por Entebbe e Kinshasa. Organizadores da Copa do Mundo analisam protocolos de testagem adicionais para torcedores vindos da África Central, diante do aumento de casos e da ausência de vacina para a cepa Bundibugyo. Cada nova barreira sanitária tem efeito econômico imediato sobre comércio, turismo e cadeias de suprimento regionais.

Ao mesmo tempo, o surto derruba a narrativa de que a velocidade inédita da vacina contra a Covid-19 abriria uma nova era de segurança sanitária automática. Sem investimento contínuo em equipes, laboratórios de campo e redes de vigilância, a tecnologia fica sem braço operacional. “Prevenção não se improvisa em meio ao incêndio”, observa um pesquisador de saúde global ouvida em Nova York.

O que pode vir depois

Governos africanos pressionam por mais recursos, mas encontram um cenário de cooperação fragmentado. Países europeus aumentam contribuições emergenciais à OMS, porém admitem, nos bastidores, que não conseguem cobrir sozinhos o espaço financeiro e técnico deixado pelos Estados Unidos. Pequim e Moscou se movem para ocupar parte desse vácuo, oferecendo equipes e insumos, em uma disputa também geopolítica.

Especialistas defendem que a resposta ao surto de ebola vá além do envio de médicos e tendas de isolamento. A prioridade, dizem, deve ser reconstruir cadeias locais de comando em saúde, proteger profissionais em campo e restabelecer programas de vigilância que foram desmontados nos últimos anos. Sem isso, o risco é que cada nova emergência repita o roteiro atual, com alertas tardios, fronteiras fechadas às pressas e decisões unilaterais que protegem alguns e expõem muitos.

A evolução do surto nas próximas semanas deve indicar se o vírus permanece concentrado na África Central ou se rompe mais fronteiras, por terra e ar. O mundo observa a curva de casos na RDC e em Uganda como um teste decisivo da capacidade de reação de um sistema de saúde global com menos coordenação e mais incertezas. A pergunta que se impõe, em Kinshasa, Kampala e Nova York, é se o planeta conseguirá reconstruir essa arquitetura antes do próximo choque.

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