Surto de Ebola Bundibugyo acende alerta na África Central, diz OMS
Um surto raro e agressivo de Ebola atinge a República Democrática do Congo e Uganda desde abril e já provoca ao menos 148 mortes suspeitas. A OMS declara emergência de saúde pública internacional, enquanto um médico americano infectado é transferido às pressas para tratamento em Berlim.
Identificação tardia e vírus sem vacina ampliam risco
O novo foco da doença é provocado pela cepa Bundibugyo, uma variante pouco conhecida do vírus Ebola que não tem vacina nem tratamento específico. A confirmação vem após semanas de incerteza e diagnósticos inconclusivos em hospitais da província de Ituri, no nordeste congolês, onde médicos registram mortes rápidas e sintomas que se confundem com outras infecções tropicais.
A Organização Mundial da Saúde estima, com base em dados do governo da RDC, ao menos 51 casos oficialmente confirmados e 575 suspeitos. As autoridades rastreiam mais de 800 contatos próximos, num cenário que o diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, descreve como “particularmente preocupante” por causa do atraso na detecção, da mobilidade constante da população e do envolvimento direto de profissionais de saúde entre as vítimas.
O alerta inicial chega à OMS em 5 de maio, quando hospitais de Mongbwalu, em Ituri, relatam uma “doença desconhecida” com alta letalidade e a morte de quatro profissionais de saúde em apenas quatro dias. Testes para a cepa Zaire, historicamente ligada à maioria dos surtos na região, dão negativo, o que adia a confirmação. Amostras só revelam a presença de Bundibugyo depois de analisadas na capital Kinshasa.
A representante da OMS na RDC, Anne Ancia, admite que existe uma “lacuna crítica” de quatro semanas entre o primeiro caso conhecido, em abril, e a identificação do vírus. Nesse intervalo, o paciente zero suspeito – um profissional de saúde de Mongbwalu – passa por atendimento em Bunia com febre, vômito e forte mal-estar, sem o clássico sangramento associado ao Ebola até o quinto dia de infecção. Ele morre em 5 de maio, antes da confirmação laboratorial.
Sem o diagnóstico, o corpo retorna à comunidade para um funeral tradicional. Familiares lavam, tocam e preparam o morto para o enterro, depois de desistirem do uso de caixão, prática comum em regiões onde a oferta é limitada. “Eles trocaram o caixão. E então houve o funeral, e foi a partir daí que começou”, relata Ancia. O ritual, visto como momento central de despedida, acaba se tornando um dos principais eventos de supertransmissão do surto.
Do Congo a Berlim: médico americano simboliza alcance do surto
Entre as vítimas confirmadas está o cirurgião americano Peter Stafford, especialista em queimaduras, que atuava em Bunia com a organização humanitária Serge. Ele opera um paciente que depois se revela infectado por Ebola e desenvolve sintomas compatíveis com a doença nas semanas seguintes. Testes confirmam a infecção e, em uma operação discreta, Stafford é removido para a Alemanha.
O médico desembarca em Berlim na manhã de quarta-feira (20) e é internado no Hospital Universitário Charité, referência em doenças infecciosas. A ministra da Saúde alemã, Nina Warken, informa que o paciente permanece “em estado estável”, enquanto equipes montam um cerco sanitário em torno dos profissionais que o atendem. O Departamento de Saúde e Serviços Humanos dos EUA decide enviar à Alemanha um coquetel experimental de anticorpos, que inclui um composto ainda em análise, o MBP134, já testado em animais contra a cepa Bundibugyo.
O caso de Stafford acelera a reação internacional. Os Estados Unidos organizam a retirada de seis contatos de alto risco ligados ao médico. Cinco seguem para monitoramento em solo alemão, e um é encaminhado à República Tcheca. Todos permanecem assintomáticos, inclusive a esposa de Stafford, a também médica Rebekah Stafford, e o colega Patrick LaRochelle, que seguem protocolos rígidos de quarentena.
Uganda registra, até terça-feira (19), dois casos confirmados de Ebola Bundibugyo, ambos importados da RDC. O primeiro paciente morre após receber atendimento em uma unidade de saúde ugandense. O segundo também cruza a fronteira já infectado. O Ministério da Saúde de Uganda ativa vigilância reforçada em áreas de fronteira, instala triagens em estradas e aeroportos e coloca equipes de resposta rápida em alerta.
A OMS classifica o risco como alto nos níveis nacional e regional, mas baixo no cenário global. A avaliação leva em conta o histórico da doença e a dificuldade de transmissão sem contato direto com fluidos corporais contaminados, como sangue, vômito ou fezes. Pessoas expostas podem levar até 21 dias para manifestar sintomas, mas, em regra, não transmitem o vírus antes do início da febre, diarreia e mal-estar intenso.
Restrições de viagem, economia em tensão e aposta em ciência
O avanço da Bundibugyo reacende memórias recentes de grandes surtos na região. Entre 2014 e 2016, a África Ocidental enfrenta a maior crise de Ebola já registrada, com mais de 28,6 mil casos notificados e mais de 11 mil mortes. A RDC, sozinha, contabiliza 17 surtos desde 1976, incluindo um entre 2018 e 2020 que soma 3.481 casos e 2.299 mortes, segundo a OMS. Naquele cenário, esforços intensos levam ao desenvolvimento de vacinas e terapias específicas para a cepa Zaire, hoje em uso em vários países.
A Bundibugyo, contudo, foge a essa proteção. Pesquisas indicam que o vírus se replica mais lentamente e demora mais para desarmar as defesas do organismo, o que pode explicar taxas de letalidade mais baixas. No primeiro surto documentado, em 2007, na fronteira entre Uganda e RDC, a mortalidade é de 32%, inferior a outros tipos de Ebola que chegam a matar até 90% dos infectados. O ritmo mais lento, no entanto, pode prolongar a permanência do vírus no corpo e ampliar o tempo de sintomas persistentes.
A ausência de vacina específica empurra o tratamento para medidas de suporte. Hospitais em Ituri e em territórios vizinhos tentam manter pacientes hidratados, estabilizar pressão e oxigenação e controlar a dor, em unidades frequentemente sobrecarregadas por anos de conflito armado e cortes de recursos. “Temos uma incerteza significativa sobre o número de infecções e até onde o vírus se espalhou”, admite Ancia, citando a dificuldade de vigilância em áreas remotas e instáveis.
O impacto ultrapassa o sistema de saúde. Governos da região e países distantes apertam controles de fronteira e criam barreiras à circulação. Os Estados Unidos restringem a entrada de estrangeiros que passaram nos últimos 21 dias por Uganda, RDC, Congo e Sudão do Sul. Viagens não essenciais à província de Ituri sobem para Nível 4, o grau máximo de alerta americano, com recomendação explícita de “não viajar”. O restante da área do surto na RDC é classificado como Nível 3, que desaconselha deslocamentos que não sejam estritamente necessários.
Centenas de trabalhadores congoleses e ugandenses sentem os efeitos imediatos das restrições. Comerciantes que dependem de feiras transfronteiriças perdem clientela, transportadores encaram barreiras e horas em filas de triagem, e famílias separadas pela fronteira adiam visitas e funerais. Governos locais tentam equilibrar a necessidade de conter o vírus com a pressão de comunidades que sobrevivem, no dia a dia, da livre circulação entre vilarejos e cidades.
Meses de incerteza à frente
Equipes da OMS e dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA mantêm presença permanente em campo. O CDC atua há décadas na região, com cerca de 100 profissionais em Uganda e quase 30 na RDC, entre epidemiologistas, laboratoristas e especialistas em comunicação de risco. A agência americana relata ter mobilizado “centenas de pessoas” em sua sala de crise em apenas dois dias, com foco em treinamento, protocolos de isolamento e apoio a laboratórios.
Especialistas calculam que um imunizante específico contra o Ebola Bundibugyo leve meses para ficar pronto, mesmo com a corrida de laboratórios públicos e privados. “É provável que leve meses para desenvolver uma vacina específica para o vírus Bundibugyo”, afirma o infectologista Vasee Moorthy, em coletiva da OMS. Até lá, o freio ao surto depende basicamente de rastreamento de contatos, mudanças em rituais de funeral e rapidez para isolar novos casos.
O diretor-geral da OMS insiste que o risco global permanece baixo e que não há motivo para pânico em outros continentes. O próprio CDC reforça que não há registro de transmissão em território americano e classifica a ameaça geral aos Estados Unidos como “baixa”. Ainda assim, o caso do cirurgião levado a Berlim expõe a fragilidade de fronteiras em um mundo de voos diários entre grandes centros e áreas rurais onde o vírus salta de animais silvestres para humanos.
Governos da África Central agora correm para reforçar sistemas de vigilância enfraquecidos por anos de guerra e cortes de ajuda internacional. A resposta nas próximas semanas vai definir se o surto de Bundibugyo ficará restrito a bolsões da RDC e de Uganda ou se entrará para a lista de emergências globais que mudam rotas de viagem, pressionam economias frágeis e testam, mais uma vez, a capacidade da ciência de reagir a tempo.
