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Marinho rejeita compensação e pressiona Congresso por fim da escala 6×1

O ministro do Trabalho, Luiz Marinho, defende nesta segunda quinzena de maio de 2026 a aprovação da PEC que extingue a escala de trabalho 6×1 e rejeita qualquer compensação financeira aos empresários. Ele afirma que o ganho de produtividade e a redução de faltas já pagam a conta da mudança.

Embate no Congresso sobre o custo do fim da 6×1

O debate ocorre no Congresso Nacional, em Brasília, em fase decisiva para a proposta de emenda constitucional que transforma a jornada padrão em 5×2. Representantes do setor patronal falam em impacto econômico de R$ 160 bilhões ao ano e cobram do governo uma espécie de amortização desse custo. O Planalto, porém, fecha a porta para qualquer tipo de subsídio.

Marinho se apoia em números de produtividade e em precedentes históricos para sustentar que o Estado não deve socorrer empresas nesse processo. “O trabalhador e trabalhadora quando está satisfeito, produz mais. Não me venha com papo de compensação, porque a compensação está nos dados que eu tô falando, na diminuição de falta e na maior produtividade”, disse, em debate público sobre a PEC.

O ministro resgata a aprovação da Consolidação das Leis do Trabalho, na década de 1940, e a redução da jornada semanal em 1988, ambas sem pacotes bilionários de ajuda estatal. Na avaliação dele, a transição para o fim da escala 6×1 segue a mesma lógica: custo inicial para parte das empresas, mas ganhos líquidos para o conjunto da economia.

A discussão ganha peso político num momento em que pesquisas recentes registram recuo no apoio popular ao fim da 6×1. A mudança mexe com a rotina de milhões de trabalhadores do comércio, da indústria e de serviços, mas também pressiona margens de setores que se apoiam em operação contínua, como varejo, logística e alimentação.

Disputa de narrativas: produtividade, escravidão e populismo

O relator da PEC, deputado Leo Prates (Republicanos-BA), alinha-se abertamente à posição do governo contra a compensação. Ele afirma que a própria ideia de indenizar empresários pela redução da jornada carrega um ranço histórico. “Muitas pessoas falam em compensação. Se muitos falam que os empresários têm que ser compensados, eles estão dizendo que a hora do trabalhador é deles. Isso remete a uma cultura escravocrata”, afirma. “Essa palavra compensação, o erro começa daí. Nós temos que mitigar os efeitos econômicos, mas essa palavra me parece completamente inadequada.”

O discurso contrasta com críticas duras de parte da oposição. O deputado Renan Santos classifica a proposta que extingue a escala 6×1 como “picaretagem populista do governo” e adverte para o que chama de risco de fechamento de postos de trabalho diante do aumento dos custos. Pré-candidato à Presidência da Câmara, o deputado Cury também se posiciona pelo modelo 5×2, mas tenta calibrar o tom e defender que as próximas vagas no Supremo Tribunal Federal sejam ocupadas por mulheres, numa tentativa de dialogar com o eleitorado moderado.

O governo aposta na narrativa de que trabalhadores mais descansados produzem mais e faltam menos. Técnicos da equipe de Marinho argumentam, reservadamente, que a diminuição do absenteísmo, combinada a menor rotatividade, tende a compensar parte relevante do aumento da folha. A lógica é simples: menos substituição, menos treinamento, menos perda de qualidade na produção e no atendimento.

O debate no Congresso reúne ainda o ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos (PSOL-SP), o ministro do Desenvolvimento, Wellington Dias (PT-PI), o deputado Rogério Correia (PT-MG) e o presidente da comissão especial que analisa o tema, Alencar Santana (PT-SP). A presença de três ministros e de líderes da base mostra que o Planalto trata o fim da 6×1 como prioridade social e também como vitrine política.

O que muda na jornada e quem sente primeiro o impacto

A escala 6×1, ainda comum no comércio, em shoppings, supermercados e serviços essenciais, prevê seis dias seguidos de trabalho para um de descanso. A PEC em discussão substitui esse modelo por uma jornada 5×2, com folgas semanais mais regulares. Na prática, empresas que hoje operam com poucos turnos terão de contratar mais ou reorganizar escalas para cobrir fins de semana e feriados.

Entidades empresariais calculam que o novo arranjo pode elevar em até dois dígitos o custo da folha de pagamento em alguns segmentos, especialmente no varejo físico e na hotelaria. O número de R$ 160 bilhões, citado por representantes do setor, soma o impacto direto em salários, encargos trabalhistas e reorganização de turnos. O governo não confirma a conta e insiste que o balanço precisa incluir ganhos de produtividade e de consumo, impulsionados por trabalhadores com mais tempo livre e saúde preservada.

Sindicalistas veem na PEC um passo para atualizar a legislação trabalhista à realidade de uma economia mais automatizada, em que o desgaste físico se torna menos aceitável socialmente. Empresários mais refratários, porém, dizem que a mudança chega num momento de margens apertadas, juros altos e competição acirrada com o comércio eletrônico e com serviços digitais, muitos deles fora do alcance da mesma regulação.

Nos bastidores, lideranças setoriais tentam emplacar ajustes no texto do relator para suavizar a transição, como prazos mais longos de adaptação e regimes diferenciados para pequenas empresas. A equipe de Marinho resiste a criar exceções amplas, sob o argumento de que a fragmentação pode esvaziar o efeito da PEC e perpetuar jornadas consideradas abusivas.

Relatório sai dia 25; governo corre por 308 votos

O relatório de Leo Prates deve ser apresentado na segunda-feira, 25 de maio, na comissão especial. A previsão, segundo deputados da base, é levar o texto ao plenário da Câmara já na quarta ou quinta-feira seguintes. Para ser aprovada, a PEC precisa de 308 votos favoráveis em dois turnos, um placar que exige apoio de parte da oposição.

Marinho faz apelos públicos a líderes partidários e fala em “sensibilidade de todo o parlamento” para aprovar a mudança. “O presidente da comissão tá comprometido, o presidente Hugo Motta tem sinalizado que apoia, que quer acabar com a escala 6×1, mas nós precisamos que o conjunto de deputados e deputadas aprove de 308 votos a PEC”, afirma. A disputa, nas próximas semanas, deve revelar não só a força do governo na Câmara, mas também até que ponto o país está disposto a redesenhar a própria noção de tempo de trabalho.

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