Suíços rejeitam limite populacional de 10 milhões em referendo nacional
Eleitores da Suíça rejeitam neste domingo (14) a proposta de limitar a população do país a 10 milhões de habitantes. A iniciativa, patrocinada pelo Partido Popular Suíço, perde por margem projetada de 55% a 45% e preserva o atual modelo de imigração e de relação com a União Europeia.
Referendo encerra disputa sobre imigração e futuro econômico
A votação nacional encerra meses de campanha acirrada em torno de um tema que cruza identidade, economia e meio ambiente. O plano previa um teto populacional até 2050 e obrigava o governo a agir quando o país alcançasse 9,5 milhões de habitantes, o que hoje está a cerca de 400 mil pessoas de distância.
Os suíços vivem sob um sistema de democracia direta em que decisões centrais passam pelas urnas. Para levar o tema ao pleito, ativistas reuniram 100 mil assinaturas, número suficiente para forçar um referendo nacional. O alvo, desta vez, era o ritmo de crescimento de um país que salta de 7,3 milhões de habitantes em 2002 para 9,1 milhões em pouco mais de duas décadas, com 27% de residentes nascidos no exterior.
O Partido Popular Suíço, de direita, com histórico de campanhas contra a imigração, tenta enquadrar a proposta como resposta a uma suposta perda de controle. “Perdemos o controle”, afirma Nils Fiechter, 29, deputado do partido no parlamento do cantão de Berna. Ele reclama de “imigração descontrolada” e sustenta que a Suíça “deixa de ser a Suíça”.
A sigla associa o aumento da população a problemas do cotidiano urbano. Fiechter lista “escassez de moradias, trânsito congestionado, escolas sobrecarregadas e serviços sociais precários” como efeitos diretos da chegada de estrangeiros. Pelas regras defendidas pelo partido, o governo poderia endurecer a concessão de asilo e acabar com o direito de reunificação familiar para trabalhadores de fora do país assim que o patamar de 9,5 milhões fosse alcançado.
A narrativa enfrenta resistência de adversários políticos e de parte do empresariado, que enxergam na proposta mais risco do que solução. Helin Genis, 31, social-democrata eleita para o conselho municipal de Berna, enxerga na campanha uma busca por culpados fáceis. “Não são os imigrantes que determinam os valores dos aluguéis. Não são os imigrantes que aumentam os preços dos planos de saúde”, diz. Para ela, focar a crise “pela ótica da imigração não leva a soluções, mas à divisão”.
Limite rejeitado preserva laços com UE e mão de obra estrangeira
A rejeição ao teto populacional mantém intacto um dos pilares da relação da Suíça com a União Europeia: o acordo de livre circulação de pessoas. Mais da metade dos produtos suíços é vendida no bloco, principal parceiro comercial do país. Em Bruxelas, o recado é claro há anos: não é possível usufruir do mercado único e, ao mesmo tempo, restringir de forma unilateral a mobilidade de trabalhadores.
Se o limite de 10 milhões fosse aprovado, a Suíça poderia ser forçada a romper esse compromisso, abrindo uma frente de atrito com a UE em plena fase de tensões comerciais globais. Rudolf Minsch, economista-chefe da associação empresarial Economiesuisse, alerta antes da votação que o país “poderia enfrentar desafios em nossas relações com a União Europeia”. Ele lembra que “a UE ainda é, de longe, o parceiro comercial mais importante” e fala em necessidade de relações “estáveis e claras” com o bloco.
Nos bastidores, a preocupação vai além da diplomacia. Hospitais, casas de repouso e hotéis dependem de forma direta da força de trabalho estrangeira. Metade dos funcionários do setor hoteleiro é imigrante, e o sistema de saúde se apoia em profissionais que chegam de outros países europeus para cobrir a demanda de uma população em rápido envelhecimento.
Hoje, cerca de 20% dos habitantes da Suíça têm mais de 65 anos. Especialistas alertam que o equilíbrio entre aposentados e contribuintes se torna frágil sem um fluxo constante de jovens trabalhadores. O Partido Popular responde que a imigração alimenta um ciclo de pressão permanente por mais leitos hospitalares e por mais vagas em escolas e creches. Oposição e sindicatos retrucam que o país não forma internamente, em ritmo suficiente, a mão de obra que precisa para sustentar o próprio padrão de vida.
Do lado político, o governo e a maior parte dos demais partidos classificam a proposta como “iniciativa do caos”. A avaliação é de que um limite rígido e sem paralelo em outros países não resolve a escassez de moradia nem o congestionamento nas grandes cidades, ao mesmo tempo em que empurra a Suíça para um isolamento caro e arriscado. Cartazes da campanha contrária perguntam em letras grandes: “Romper com a Europa, em um momento como este?”.
Pressões internas, medo de isolamento e os próximos capítulos
O debate sobre o futuro da Suíça não se dá em um vácuo. O país, tradicionalmente neutro, aumenta gastos em defesa e planeja cooperação mais estreita em segurança com vizinhos europeus. Sente os efeitos da guerra na Ucrânia, do conflito no Irã e das tarifas punitivas impostas pelos Estados Unidos, que chegaram a 39% sobre alguns produtos suíços. Um acordo para reduzir essas taxas para 15% ainda não está concluído.
Nesse ambiente, o temor de ficar “sozinho neste mundo instável e perigoso” pesa. A frase é do deputado social-democrata Jon Pult, que enxerga no limite populacional uma ameaça à inserção internacional do país. A campanha contra a proposta explora esse sentimento com imagens fortes, em cartazes que mostram Donald Trump, Vladimir Putin e Xi Jinping lado a lado, como sinal de um cenário externo mais duro e imprevisível.
A derrota no referendo, porém, não encerra o embate político em torno da imigração. O Partido Popular Suíço tende a manter a pauta no centro de sua atuação e a apresentar novas iniciativas nas urnas, apoiado na percepção de parte do eleitorado de que o país cresce rápido demais. Fiechter insiste que o objetivo é “proteger um modo de vida” e afirma que “qualquer pessoa que ame a Suíça, seja com ou sem origem migrante, quer que ela continue sendo um lugar onde vale a pena viver”.
Do outro lado, líderes de esquerda e do centro reforçam que a resposta passa por políticas públicas, não por tetos populacionais. Helin Genis resume a divergência ao dizer que a questão central não é “como excluir pessoas”, mas “como criamos moradias acessíveis suficientes, garantimos boas condições de trabalho e investimos em um serviço público forte”. Empresários e sindicatos convergem no diagnóstico de que o foco deve estar em infraestrutura, planejamento urbano e integração de imigrantes, e não em limites numéricos.
O resultado do referendo reafirma o peso da democracia direta suíça e expõe uma sociedade dividida entre o desejo de preservar seu modelo social e o medo de se fechar ao mundo. A rejeição do teto populacional adia decisões duras sobre crescimento, ambiente e imigração, mas não elimina a pressão sobre transporte, moradia e serviços públicos. O próximo capítulo, agora, será escrito em novos pleitos e em negociações com Bruxelas, em um cenário em que a pergunta central permanece em aberto: até onde a Suíça está disposta a ir para conciliar prosperidade, abertura e segurança interna?
