Submarino revela paisagem oculta na Antártica e desaparece
Uma equipe internacional de cientistas liderada pela oceanógrafa Anna Wåhlin revela, em estudo publicado nesta sexta (5), um mundo submerso sob a plataforma de gelo Dotson, na Antártica Ocidental. O mapa inédito, obtido em janeiro de 2024 por um submarino autônomo, mostra uma base glaciar cheia de terraços, cânions e marcas profundas – e chega ao público cercado por um mistério: o veículo que registrou tudo desaparece logo após a missão.
Um mundo escondido sob o gelo
O protagonista da descoberta é o Ran, um submarino robótico de cor laranja brilhante, projetado para navegar onde humanos e navios não chegam. Na expedição de 2024, o veículo percorre mais de 1.000 quilômetros de ida e volta sob a plataforma Dotson, avançando cerca de 17 quilômetros dentro da escuridão total da cavidade glacial.
O Ran opera sem sinal de rádio ou GPS. A espessa camada de gelo sobre a cabeça bloqueia qualquer comunicação convencional. O robô depende de rotas pré-programadas e de um sofisticado sistema de navegação acústica para se orientar a centenas de metros de profundidade, a temperaturas próximas de zero.
Ao retornar ao navio de pesquisa, o robô transfere os dados de um trecho de aproximadamente 140 quilômetros quadrados na base da plataforma. As primeiras imagens revelam uma surpresa: o fundo da Dotson está longe de ser uma superfície lisa e passiva. A topografia aparece recortada por terraços, canais profundos e estruturas alongadas em forma de “gotas de lágrima” esculpidas diretamente no gelo.
Anna Wåhlin, professora da Universidade de Gotemburgo e líder da missão, tenta traduzir o impacto da cena. “É como ver o lado oculto da Lua pela primeira vez”, afirma. Para a equipe, a sensação é de abertura de uma porta para um território rapidamente moldado por água e calor, invisível aos satélites que, do espaço, enxergam apenas uma mancha branca aparentemente estática.
Como o oceano corrói o gelo e mexe com o nível do mar
Os dados do Ran ajudam a responder uma pergunta central para a ciência do clima: por que algumas partes da Antártica Ocidental derretem tão mais rápido que outras? Sob a plataforma Dotson, o submarino detecta a atuação de correntes de águas profundas, mais quentes e salgadas, que entram nas cavidades sob o gelo e atacam a base da estrutura.
Na região oeste da plataforma, essas correntes chegam com mais força e concentram mais calor. O resultado é um derretimento acelerado quando comparado ao lado leste, onde a água circula de forma mais lenta. A diferença aparece gravada no relevo: canais largos e fundos marcam os caminhos preferenciais da água quente, enquanto terraços em degraus se formam onde o fluxo perde velocidade.
As marcas em forma de gota, com comprimentos que variam entre 20 e 300 metros, revelam outro tipo de ataque. O gelo é esculpido por jatos de água turbulenta, que giram e rasgam a base congelada. As fendas naturais do gelo funcionam como verdadeiras rodovias, canalizando água morna para o interior da plataforma e acelerando a erosão por baixo.
O impacto dessa dinâmica vai além da Antártica. Plataformas flutuantes como a Dotson já estão na água, por isso seu derretimento direto não aumenta o nível do mar. Elas atuam, porém, como grandes freios que seguram o avanço de imensas geleiras apoiadas em terra firme. Quando essas plataformas afinam ou colapsam, as geleiras deslizam mais depressa para o oceano.
Esse efeito dominó preocupa climatologistas e planejadores urbanos. A aceleração da perda de gelo continental pode pressionar o nível global do mar nas próximas décadas, redesenhando mapas de inundação, ameaçando zonas portuárias e exigindo bilhões de dólares em obras de contenção em cidades costeiras. Os modelos atuais, baseados em estimativas mais simples da base do gelo, tendem a subestimar essas mudanças.
Um robô perdido e o futuro da pesquisa polar
Em janeiro de 2024, a equipe volta à Dotson para repetir o mapeamento e observar quanto a plataforma muda em um intervalo de poucos anos. O plano é comparar os dados e medir a velocidade do desgaste. O primeiro mergulho da nova campanha começa como previsto. Horas depois, o Ran não aparece no ponto combinado de retorno.
Os cientistas ativam o protocolo de emergência. Drones, helicópteros e equipamentos acústicos tentam localizar sinais do submarino. As buscas se estendem por dias, sem resultado. O robô de milhões de dólares some em algum ponto sob centenas de metros de gelo e água escura, deixando apenas o conjunto de medições já transmitidas.
O desaparecimento expõe o custo e o risco de explorar ambientes extremos. A Antártica é hoje um laboratório fundamental para entender o aquecimento global, mas continua hostil a qualquer tecnologia humana. Cada incursão sob uma plataforma de gelo exige anos de preparação, navios especializados, equipes treinadas e instrumentos que podem se perder em um único erro de rota.
Apesar da perda, a comunidade científica trata o legado do Ran como um divisor de águas. As medições detalhadas da cavidade sob a Dotson permitem calibrar e corrigir modelos de computador usados no mundo inteiro para projetar o futuro do clima. A expectativa é reduzir incertezas sobre quanto e quão rápido o mar pode subir até o fim do século e além de 2100.
Os resultados publicados em Science Advances alimentam debates em fóruns internacionais como o IPCC, que compila o estado da arte sobre mudanças climáticas. Governos e agências de planejamento urbano dependem dessas projeções para decidir onde construir, como proteger infraestruturas costeiras e que metas de redução de emissões adotar.
O caso também reforça a urgência de investir em novas gerações de veículos autônomos, sensores mais resilientes e sistemas de comunicação subaquática que reduzam o risco de missões perdidas. Enquanto a equipe de Anna Wåhlin planeja futuras campanhas e novos equipamentos, uma pergunta permanece em aberto sob a superfície gelada da Antártica: quantos outros mundos escondidos como o da Dotson ainda esperam para ser mapeados – e quanto tempo o planeta tem para reagir ao que eles revelam?
