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Spadaro reage a ataque de Trump e expõe racha com Papa Leão XIV

O padre jesuíta Antonio Spadaro reage nesta segunda-feira (13) aos ataques de Donald Trump ao papa Leão XIV e acusa o ex-presidente de tentar reduzir a voz do pontífice à lógica do poder. A troca de farpas ocorre em meio à escalada da guerra envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã e às vésperas de uma viagem de dez dias do papa por quatro países africanos.

Vaticano enfrenta investida política de Trump

Spadaro, subsecretário do Dicastério para a Cultura e a Educação do Vaticano e um dos intelectuais mais próximos de Leão XIV, escolhe a rede social X para responder a Trump. Em inglês e italiano, ele afirma que o republicano não discute ideias com o papa, mas tenta enquadrá-lo em um vocabulário que obedece à força e ao interesse nacional.

“Trump não debate com Leão: ele implora que o papa se refugie em uma linguagem que ele possa dominar. Mas o papa fala outra língua, uma que se recusa a ser reduzida à gramática da força, da segurança, do interesse nacional”, escreve o jesuíta em postagem feita na manhã desta segunda-feira. Na mesma mensagem, Spadaro sugere que, quando o poder político se volta contra uma voz moral, é porque não consegue contê-la.

A reação pública do Vaticano rompe o silêncio adotado nos últimos dias diante da escalada verbal de Trump. Na noite de domingo (12), o republicano afirma “não ser fã do papa Leão” e volta a atacar a atuação do pontífice em temas de segurança internacional. Em seu perfil na rede Truth Social, o ex-presidente chama o papa de “fraco no combate ao crime” e “péssimo em política externa”.

O alvo de Trump é um papa americano que se posiciona com frequência sobre a guerra entre Estados Unidos, Israel e Irã. Na semana anterior, Leão XIV classifica como “verdadeiramente inaceitáveis” as ameaças do republicano contra o povo iraniano. A reprimenda pública irrita aliados do ex-presidente e alimenta a percepção de que o pontífice atua como um freio moral à retórica de confronto militar.

Choque entre autoridade moral e poder nuclear

O embate ganha força porque toca um ponto sensível da política americana: o uso de armas nucleares e o alcance da intervenção militar. Ao criticar o pontífice, Trump acusa o papa de enviar sinais ambíguos sobre o desarmamento. “Não gostamos de um papa que diga que é aceitável ter uma arma nuclear. Ele é um homem que não acha que devamos brincar com um país que quer uma arma nuclear para poder destruir o world”, afirma o republicano, em frase confusa que mistura inglês e retórica doméstica.

Leão XIV, ao contrário, repete em discursos recentes que a dissuasão nuclear não pode ser tratada apenas como questão estratégica ou de segurança nacional. Em encontros com diplomatas no início de abril, ele fala em “zelo mundial pela guerra” e critica governos que, segundo ele, recorrem a ameaças atômicas como instrumento de barganha. O papa insiste que nenhuma razão política justifica colocar populações inteiras sob risco de destruição em massa.

A divergência não é apenas teológica. Ela se traduz em pressão concreta sobre decisões de Washington e de seus aliados no Oriente Médio. Quando o primeiro papa americano condena explicitamente a retórica de um ex-presidente dos Estados Unidos, ele mexe num terreno que historicamente a Igreja percorre com cautela: a fronteira entre fé e geopolítica. O contraste se torna ainda mais evidente porque as declarações ocorrem enquanto forças americanas e israelenses mantêm operações militares contra alvos ligados ao Irã.

Christopher Lamb, correspondente da CNN no Vaticano que acompanha de perto o pontificado de Leão XIV, descreve o momento como sem precedentes recentes. “Não me lembro da última vez que o presidente dos Estados Unidos atacou um papa dessa maneira”, afirma. Para ele, o pontífice se torna “uma espécie de contrapeso espiritual e diplomático ao presidente Trump”, com estilo de liderança e prioridades que caminham na direção oposta à do republicano.

Viagem à África amplia alcance da disputa

Enquanto a troca de acusações se intensifica, Leão XIV se prepara para uma das viagens mais simbólicas de seu pontificado. A partir desta semana, o papa cumpre uma agenda de dez dias em quatro países africanos. O roteiro inclui a Argélia, de maioria muçulmana, seguida de Camarões, Angola e Guiné Equatorial. Será a primeira vez que um papa visita a Argélia em exercício, o que reforça o peso político do gesto em um momento de tensão entre o Ocidente e o mundo islâmico.

Lamb destaca que “o contraste entre um papa americano na Argélia, um país muçulmano, num momento em que os EUA estão envolvidos numa operação militar no Irã, é gritante”. A imagem de um pontífice nascido nos Estados Unidos que se apresenta como mediador e pregador da paz em território muçulmano desafia, na prática, a narrativa de choque de civilizações alimentada por discursos beligerantes. A viagem, planejada há meses, ganha um novo significado ao ocorrer logo após os ataques verbais de Trump.

No Vaticano, auxiliares do papa avaliam que a ofensiva de Trump pode ter efeito duplo. De um lado, reforça a polarização interna nos Estados Unidos, onde setores conservadores já enxergam o pontífice como adversário ideológico. De outro, amplia o alcance internacional da mensagem de Leão XIV sobre desarmamento, diplomacia e proteção de civis em zonas de conflito. As críticas do republicano acabam projetando ainda mais o papel do papa como voz global em defesa do limite ao uso da força.

Analistas de relações internacionais veem nesse confronto um teste para a capacidade da Igreja Católica de atuar como mediadora em crises que envolvem potências nucleares. Se a narrativa de Leão XIV ganhar ressonância fora dos círculos católicos, governos europeus e países do Sul Global podem encontrar no Vaticano um aliado para pressionar por cessar-fogos e acordos de controle de armas. Caso prevaleça a visão de Trump, que desqualifica o papa como ator relevante na segurança internacional, essa influência tende a se restringir ao campo simbólico.

Papel da Igreja na guerra e o que vem a seguir

A resposta de Spadaro funciona como aviso de que o Vaticano não aceita ser empurrado para a lógica de blocos nacionais. Ao rejeitar a “gramática da força” mencionada em seu post, o jesuíta tenta recolocar a fala do papa no terreno da ética universal, acima de fronteiras e interesses imediatos. A disputa é menos sobre uma frase isolada de Trump e mais sobre quem define os termos do debate em tempos de guerra.

Nas próximas semanas, cada gesto de Leão XIV na África e cada nova declaração de Trump tendem a alimentar esse embate. Bispos e conferências episcopais ao redor do mundo avaliam como incorporar, em documentos e homilias, as recentes falas do papa sobre armas nucleares e o conflito no Irã. Em Washington, diplomatas medem o impacto de um pontífice que dialoga com governos muçulmanos enquanto critica duramente a retórica americana.

O episódio deixa em aberto até onde a Igreja Católica está disposta a ir ao confrontar grandes potências em nome de princípios morais. A viagem de dez dias pela Argélia, Camarões, Angola e Guiné Equatorial deve oferecer as primeiras pistas. O resto dependerá de como o mundo, dividido entre o cálculo da força e o apelo da consciência, decide escutar a língua que o papa insiste em falar.

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