Sobrevivente relata 42 horas à deriva após pane em jet ski em Ilhabela
A jovem Bruna, que desaparece no domingo (24) durante um passeio de jet ski em Ilhabela (SP), relata ter ficado cerca de 42 horas à deriva no mar. Ela sobrevive ao naufrágio da moto aquática, é resgatada com hipotermia e ajuda a esclarecer as circunstâncias do acidente, enquanto o colega Dheorge segue desaparecido.
Pane em alto-mar e boatos em terra firme
Bruna sai da Praia de Ponta das Canas, em Ilhabela, no litoral norte de São Paulo, para um passeio curto de jet ski no fim da tarde de domingo, 24 de maio de 2026. A bordo está Dheorge, colega que ela conhece horas antes, durante uma confraternização em uma lancha ancorada na região.
Minutos depois da partida, a volta deixa de ser uma certeza. Segundo o relato que ela divulga nas redes sociais após receber alta hospitalar, o jet ski começa a apresentar um problema estrutural no meio do mar. A traseira da moto passa a encher de água e o que seria um veículo de apoio se transforma em risco de afundamento.
Bruna decide rebater versões que circulam desde o resgate e distorcem a dinâmica do acidente. “Não ficamos no jet-ski pois começou a entrar água e afundar a parte traseira e era impossível ficar segurando nele”, escreve. O problema mecânico se soma à força da correnteza, que, em vez de empurrar a dupla de volta à costa, arrasta os dois para o mar aberto.
Ela também corrige a forma como a relação com Dheorge é retratada em redes sociais. “Ele era meu colega que conheci na lancha”, afirma, ao negar que os dois mantêm um relacionamento amoroso. Amigos presentes na confraternização, conta Bruna, testemunham o momento exato em que os dois deixam a praia na moto aquática.
O silêncio da sobrevivente nos dois primeiros dias após a alta alimenta especulações na internet. Em sua nota, ela diz que passa o período focada em se recuperar física e emocionalmente. “Ainda não tive a oportunidade de conversar com a família do meu colega pois eu estava/estou me recuperando e não tinha cabeça para voltar toda a situação que aconteceu”, desabafa.
Luta pela sobrevivência e alerta sobre segurança
O que começa como passeio termina como teste extremo de sobrevivência. Sem poder se apoiar no jet ski, que continua a afundar, Bruna e Dheorge passam a noite na água, flutuando com coletes salva-vidas e enfrentando a correnteza que os afasta cada vez mais do litoral de Ilhabela. “Ficamos juntos em todo momento até terça de madrugada”, relata.
O mar, conhecido por mudanças bruscas de vento e corrente na região entre Ilha de Búzios e Ilha do Tamanduá, impõe um cenário adverso. Ao longo de mais de um dia, a dupla alterna momentos de esperança e exaustão, enquanto o jet ski, parcialmente submerso, desaparece do campo de visão. Bruna diz que Dheorge mantém o colete o tempo todo. Ela não vê o momento em que ele some. “Ele não tirou o colete e eu não vi ele afundando”, afirma.
Equipes do Grupamento de Bombeiros Marítimo (GBMar), da Marinha e da Polícia Militar são acionadas ainda na noite de domingo. O trabalho ganha força na segunda-feira (25), com uso de embarcações, mergulhadores e aeronaves. No mesmo dia, as equipes localizam o jet ski parcialmente afundado e o celular de uma das vítimas, com bateria fraca, boiando próximo à estrutura.
Os dados de GPS do aparelho ajudam a delimitar o raio das buscas e compõem agora o inquérito aberto pela Polícia Civil e pelas autoridades marítimas. A apuração pretende esclarecer se o defeito no equipamento decorre de falha de manutenção, erro de operação ou problema de fabricação. O caso reabre o debate sobre fiscalização de motos aquáticas de uso recreativo em um dos destinos mais procurados do litoral paulista.
Bruna é encontrada por volta da manhã de terça-feira (26), entre a Ilha de Búzios e a Ilha do Tamanduá, a cerca de 18 a 22 quilômetros do ponto de partida original. Segundo o GBMar, ela está bastante debilitada, com quadro de hipotermia, depois de passar aproximadamente 42 horas exposta à água fria, ao vento e ao sol sem abrigo.
Socorristas a levam ao Hospital Municipal Governador Mário Covas Júnior, em Ilhabela, onde ela permanece internada por pouco mais de dois dias. Na quinta-feira (28), deixa a unidade em uma cadeira de rodas, sob aplausos de familiares, da equipe médica e de funcionários. Um balão com a frase “eu sou um milagre” resume o sentimento em torno da sobrevivente, que segue tomando medicações e em repouso.
Buscas por Dheorge e pressões por mudanças
Enquanto a história de Bruna ganha detalhes, a de Dheorge continua em aberto. As buscas entram no quinto dia com envolvimento de mergulhadores do GBMar, embarcações da Marinha e apoio aéreo de helicópteros da Polícia Militar e da Força Aérea Brasileira. Até o momento, as equipes confirmam apenas a localização de um colete salva-vidas pertencente ao homem desaparecido.
A persistência da operação reflete a pressão de familiares e amigos e a própria incerteza sobre o que acontece nas últimas horas em que ele permanece ao lado de Bruna. Em alto-mar, a ausência de testemunhas e a dificuldade de rastrear correntes tornam cada hora decisiva. Em terra, a repercussão nas redes sociais aumenta a cobrança por respostas sobre eventuais falhas de fiscalização e sobre a responsabilidade pela manutenção do jet ski.
Especialistas em segurança náutica ouvidos por autoridades apontam que acidentes envolvendo motos aquáticas crescem em destinos turísticos sem estrutura proporcional de fiscalização e orientação. Em Ilhabela, que recebe dezenas de milhares de visitantes em feriados e fins de semana de verão, o caso reacende discussões sobre exigência de cursos para condutores, inspeções frequentes nos equipamentos e limites para circulação em áreas com correntes intensas.
A investigação em curso cruza o relato de Bruna, os dados coletados no celular encontrado junto ao jet ski e informações técnicas sobre o histórico da moto aquática. O objetivo é definir se há responsabilidade criminal ou administrativa do proprietário, da empresa envolvida ou de terceiros. A conclusão deve influenciar normas locais e servir de referência para outros municípios litorâneos que dependem do turismo náutico.
Enquanto a jovem tenta retomar a rotina em casa e diz que ainda não tem condições emocionais de se encontrar com a família de Dheorge, o caso avança como símbolo dos riscos subestimados em esportes aquáticos. A cada dia de buscas, a pergunta que permanece em aberto é se o mar ainda guarda alguma chance de desfecho para a família do homem desaparecido e se o choque provocado por essa travessia forçada será suficiente para mudar a forma como o lazer em alto-mar é regulado em Ilhabela e no restante da costa brasileira.
