Áudio expõe Rabicó negociando drogas e lavagem no Salgueiro
Áudios obtidos pela polícia do Rio expõem Rabicó, chefe do Comando Vermelho no Complexo do Salgueiro, negociando drogas e lavagem de dinheiro em 2026. A operação que mira o uso de ferros-velhos para movimentar recursos do tráfico leva o líder a perder o comando direto das atividades ilícitas na região.
Áudios revelam bastidores do esquema
Os arquivos de áudio, colhidos ao longo de meses de monitoramento, mostram Rabicó discutindo valores, remessas e formas de camuflar dinheiro do tráfico em estabelecimentos de sucata na Região Metropolitana. Em um dos trechos, segundo policiais que acompanham o caso, ele orienta comparsas a registrar notas frias e misturar dinheiro em espécie com a receita oficial dos ferros-velhos para evitar o rastreamento bancário.
A investigação avança em silêncio ao longo do primeiro semestre de 2026, com escutas autorizadas pela Justiça e acompanhamento de movimentações financeiras que somam centenas de milhares de reais. Relatórios internos apontam depósitos fracionados, entre R$ 2 mil e R$ 8 mil, feitos quase diariamente em contas de empresas ligadas a laranjas, até formar montantes superiores a R$ 500 mil em menos de três meses.
Os policiais cruzam os áudios com imagens de câmeras de segurança e dados da Receita Federal para mapear a rede de ferros-velhos usada pelo grupo. Na prática, as empresas de sucata funcionam como um grande funil: recebem carros roubados, peças sem procedência e, ao mesmo tempo, escoam o dinheiro vindo da venda de cocaína e maconha no Salgueiro e em bairros vizinhos de São Gonçalo e Niterói.
Um investigador que participa da apuração descreve o papel de Rabicó na cadeia criminosa. “Ele não aparece no balcão, mas decide preço, rota e quem recebe. Os áudios mostram que nada importante acontece sem o aval dele”, afirma. As conversas, segundo a polícia, também detalham a cobrança de taxas de proteção sobre comerciantes da região e a divisão semanal do lucro entre diferentes células do Comando Vermelho.
Golpe na estrutura financeira do Comando Vermelho
A operação que leva à prisão de Rabicó atinge um ponto sensível do Comando Vermelho: o caixa. Ao desmontar o uso de ferros-velhos como fachada de legalidade, a polícia estrangula o fluxo de recursos que abastece a compra de armas, munições e drogas. Delegados falam, em caráter reservado, em uma queda imediata de até 30% na capacidade de investimento do grupo na região do Salgueiro.
No complexo, onde vivem dezenas de milhares de moradores, o impacto é sentido tanto nas bocas de fumo quanto nas relações cotidianas. A súbita ausência do chefe provoca disputas internas e relatos de reuniões emergenciais entre traficantes para redefinir funções e territórios. A preocupação de moradores ouvidos pela reportagem, sob anonimato, é com o risco de confrontos entre facções internas em meio ao vácuo de poder. “Quando muda a chefia, sempre piora. Eles querem mostrar força”, diz um morador de 42 anos.
A divulgação dos áudios reforça a pressão sobre outros líderes da facção, que passam a evitar celulares e aplicativos de mensagem, segundo a polícia. O receio é que novas gravações revelem rotas de abastecimento de drogas para outras favelas do Rio, incluindo áreas da Zona Norte e da Baixada Fluminense. Um oficial envolvido na operação avalia que a exposição pública muda o cálculo do crime. “A partir do momento em que o chefe é flagrado negociando no telefone, todo mundo precisa rever o jeito de se comunicar e de movimentar dinheiro”, afirma.
Especialistas em segurança pública ouvidos pela reportagem consideram o caso um raro golpe preventivo na estrutura financeira do crime organizado. Em vez de reagir apenas a tiroteios e confrontos, a investigação mira o dinheiro que sustenta a máquina criminosa. “Quando o Estado chega no bolso, o crime sente. Sem lavagem, o tráfico perde alcance, não consegue expandir”, avalia um pesquisador ligado a uma universidade pública do Rio.
Disputa pelo comando e próximos passos da repressão
A saída de Rabicó do comando direto das operações no Salgueiro abre uma disputa silenciosa entre quadros médios da facção, interessados em assumir o posto e o controle do caixa. A polícia trabalha com ao menos dois nomes cotados para ocupar o espaço deixado pelo líder, ambos já monitorados em inquéritos sobre tráfico e associação criminosa. O risco, reconhecem agentes de inteligência, é que a luta por poder provoque novas ondas de violência na Região Metropolitana, com reflexos em municípios vizinhos.
No campo institucional, o caso reforça a defesa de políticas que integrem repressão qualificada e ações sociais nos territórios dominados pelo tráfico. Integrantes do governo estadual afirmam, reservadamente, que operações contra lavagem de dinheiro devem ganhar prioridade até o fim de 2026, com ampliação de equipes e investimentos em tecnologia de rastreamento financeiro. A expectativa é que dados recolhidos nessa investigação alimentem novos inquéritos e ajudem a identificar parceiros comerciais, transportadores e operadores financeiros ainda fora do alcance da Justiça.
A população do Complexo do Salgueiro convive com a incerteza. Moradores relatam aumento de patrulhamento em pontos estratégicos e abordagens mais frequentes em acessos à comunidade, enquanto aguardam sinais concretos de redução da presença armada nas ruas. Organizações locais de direitos humanos defendem que o desmonte da estrutura financeira do tráfico seja acompanhado por investimentos em escolas, serviços de saúde e geração de renda, para evitar que novos grupos ocupem o espaço deixado por Rabicó.
As próximas semanas serão decisivas para medir o alcance real da operação. Se a investigação avançar sobre outros braços econômicos do Comando Vermelho, como transporte clandestino e exploração de serviços informais, o impacto tende a extrapolar o Salgueiro e redesenhar o mapa do crime na Região Metropolitana. A pergunta que permanece, no entanto, é se o Estado conseguirá transformar esse golpe pontual em uma estratégia duradoura ou se o vácuo aberto hoje dará lugar a um novo comando, com velhas práticas e rotas de dinheiro reconstituídas.
