Sete laosianos ficam presos em caverna após deslizamento em Xaisomboun
Sete laosianos estão presos desde 19 de maio em uma caverna na província de Xaisomboun, no centro do Laos, após um deslizamento de terra bloquear a saída. As equipes de resgate correm contra o tempo em túneis estreitos e parcialmente alagados para tentar trazê-los de volta à superfície com vida.
Busca por ouro termina em armadilha subterrânea
O grupo entra na caverna em uma terça-feira em busca de ouro, em uma região conhecida por reservas minerais e atividade de mineração informal. Horas depois, fortes chuvas provocam um deslizamento de terra que soterra a entrada da formação calcária e transforma o garimpo improvisado em uma armadilha de difícil acesso.
Desde então, a montanha nas imediações de Long Tieng concentra a atenção de voluntários, militares e especialistas em resgate em cavernas. Pelo menos cinco dos sete homens são encontrados com vida, segundo equipes que atuam dentro do sistema subterrâneo, mas seguem presos em câmaras isoladas, sem rota segura de saída.
A informação sobre o número exato de sobreviventes ainda é motivo de divergência. Socorristas tailandeses afirmam, na quarta-feira (27), que cinco homens são localizados. A organização laosiana Resgate Voluntário para Pessoas sustenta que os sete integrantes do grupo estão vivos e em segurança nas galerias internas. Nenhuma das versões é confirmada de forma independente até o momento.
Enquanto o impasse sobre os números persiste, o foco no interior da caverna é manter os homens vivos. As equipes instalam linhas de comunicação improvisadas, transportam alimentos leves e remédios e planejam, espaço a espaço, o trajeto de retorno pelos cerca de 340 metros de túneis que separam a entrada bloqueada das câmaras onde os laosianos se abrigam.
Operação desafia limites físicos e climáticos
A travessia até os presos expõe as condições extremas do local. O corredor principal é totalmente escuro, tem trechos inundados e pontos em que a passagem não ultrapassa 58 centímetros de largura. Em alguns momentos, mergulhadores relatam que precisam retirar parte do equipamento para conseguir avançar até a próxima cavidade.
Capacetes, máscaras de respiração e monitores de gases são obrigatórios em cada incursão, para acompanhar o nível de oxigênio e a presença de substâncias tóxicas. Os socorristas dependem de cilindros de ar comprimido que se esvaziam em poucas dezenas de minutos dentro do ambiente confinado. “Precisamos pegar emprestado o máximo de cilindros de oxigênio possível e queremos instalar um posto de recarga de oxigênio em frente à caverna”, escreve o voluntário Kengkard Bongkawong nas redes sociais.
O esforço ganha reforço internacional. Voluntários tailandeses se unem à operação no domingo (24), entre eles um mergulhador que participa, em 2018, do resgate dos 12 meninos e de seu treinador em uma caverna inundada no norte da Tailândia, episódio que mobiliza equipes do Reino Unido, dos Estados Unidos e de diversos países. Agora, parte dessa experiência volta a ser posta à prova em Xaisomboun.
O geólogo australiano Arnold Dix, especialista em desastres que lidera o resgate de 41 mineiros indianos em um túnel desabado em 2023, acompanha o caso à distância e faz um alerta. Ele afirma que, depois de sete dias dentro da caverna, o risco de doenças entre os homens presos aumenta sensivelmente. Também destaca o perigo para quem atua no salvamento. “Meus sentimentos estão com os socorristas que estão lá no Laos neste momento. Espero que tenham sucesso, mas também espero que não morram no processo”, diz à emissora pública Australian Broadcasting Corporation.
Do lado de fora, o clima adiciona uma camada de incerteza. A temporada de monções traz chuvas intensas e repentinas, capazes de encher túneis em questão de horas. O Centro de Comando e Controle Metta Tham Kalasin (MTK), que coordena parte da operação, classifica como “afortunadas” as condições da terça-feira (26), quando não chove por dois dias consecutivos, o que permite bombear água para fora da caverna e reduzir o nível nos pontos críticos. A previsão da CNN Weather, porém, indica tempestades intermitentes à tarde e à noite nos dias seguintes.
Risco humano, pressão internacional e lições para a mineração
A situação em Xaisomboun expõe a fragilidade de trabalhadores que recorrem ao garimpo em busca de renda em regiões montanhosas e pouco fiscalizadas. A caverna onde o grupo se aventura fica no sopé de uma área de mineração, cortada por cursos d’água subterrâneos e sujeita a “estruturas meteorológicas complexas” durante o período de chuvas, segundo a agência estatal Lao Phattana News. A combinação de rocha calcária, água em grande volume e galerias estreitas torna qualquer incidente rapidamente crítico.
Mais de 100 pessoas participam atualmente da operação de resgate, incluindo ao menos 15 mergulhadores experientes que atuam no caso da Tailândia em 2018. A presença de estrangeiros contrasta com a tradicional reserva do regime laosiano, um Estado comunista de partido único que controla de perto a divulgação de informações. A CNN informa ter buscado posicionamento do Ministério das Relações Exteriores do Laos, sem resposta até agora.
O episódio reabre o debate sobre segurança em zonas de exploração mineral e responsabilidade de empresas e autoridades locais. Em muitas áreas, garimpos funcionam à margem de regras formais, com pouca supervisão técnica e quase nenhum plano de emergência para estruturas naturais usadas como acessos subterrâneos. Cada dia adicional de buscas em Xaisomboun aumenta o custo da operação, pressiona serviços de saúde regionais e expõe lacunas em protocolos para desastres em cavernas na Ásia continental.
A lembrança do resgate na Tailândia, que se estende por mais de duas semanas em 2018, mantém o interesse internacional sobre o desenrolar da missão no Laos. A comparação, porém, tem limites claros. Em Xaisomboun, os túneis são mais estreitos, o sistema de cavernas é menos mapeado e a estrutura de apoio local é bem mais modesta. Isso amplia o grau de incerteza e torna cada avanço de alguns metros um feito técnico complexo.
Próximos passos sob a sombra da chuva
As próximas horas se concentram em duas frentes. Dentro da caverna, socorristas testam rotas alternativas, medem níveis de oxigênio em tempo real e definem se será possível retirar os homens de forma gradual, em uma operação que deve combinar trechos de rapel e trechos de mergulho em água turva. Fora dela, alpinistas examinam a face da montanha em busca de acessos verticais a partir de quatro poços identificados no topo, na tentativa de abrir um atalho que encurte o trajeto subterrâneo.
O cenário mais provável é um resgate escalonado, em vários dias, condicionado à chegada de mais cilindros, bombas de água e equipamentos de comunicação. Caso a previsão de novas tempestades se confirme, parte do trabalho pode ter de ser interrompida para evitar que os próprios socorristas fiquem presos no interior da montanha. A forma como o Laos conduz essa operação, e o quanto aceita apoio externo, tende a influenciar futuras regras de segurança em áreas de mineração e turismo em cavernas na região. Resta saber se o tempo, dentro e fora da caverna, permitirá que todos os homens voltem à superfície para contar essa história.
