Esportes

Santos negocia rescisão de Mayke e Zé Rafael após gasto de R$ 50 mi

O Santos negocia a rescisão de contrato de Mayke e Zé Rafael, contratados em 2025 e 2026, após investimento próximo de R$ 50 milhões sem retorno em campo.

Aposta cara que não se paga na Vila Belmiro

As conversas avançam na Vila Belmiro em meio à pressão esportiva e financeira. O time está na zona de rebaixamento do Brasileiro, e a folha salarial estoura o limite considerado saudável pela diretoria. No centro do problema estão dois nomes experientes, trazidos para liderar um elenco jovem e pressionado, mas que acabam simbolizando um projeto que não entrega o prometido.

Zé Rafael chega ao Santos em fevereiro de 2025, comprado do Palmeiras por 2,5 milhões de euros, cerca de R$ 15,5 milhões à época. Assina vínculo até o fim de 2027, com salário na casa de R$ 1 milhão por mês. A expectativa é que ele repita na Baixada Santista o protagonismo que teve no Allianz Parque, onde vira peça-chave em títulos recentes.

O meio-campista, porém, desembarca em Santos em recuperação de uma cirurgia na coluna. Ele trata um desalinhamento de vértebras, problema grave para qualquer atleta profissional. Recuperado do procedimento, volta a jogar, mas sofre uma sequência de lesões que mina qualquer sequência: tendinite patelar no joelho esquerdo, estiramento no joelho direito e limitações recorrentes nas condições de jogo.

Enquanto luta para retomar a forma, vê o corpo não responder no ritmo exigido pelo calendário nacional. O departamento médico acompanha de perto, estabelece prazos e reavaliações, mas a volta plena nunca se confirma. Aos 32 anos, Zé Rafael alterna poucas boas atuações com longos períodos fora, até ser afastado por decisão técnica. Cuca comunica à diretoria que não conta mais com o camisa 8.

Mayke segue caminho parecido, ainda que com contexto diferente. O lateral-direito deixa o Palmeiras em 2025, liberado antecipadamente após pedido do técnico Abel Ferreira à presidente Leila Pereira. A saída é tratada como espécie de prêmio ao jogador, multicampeão no clube alviverde, que busca um novo desafio na carreira.

Em agosto de 2025, Mayke assina com o Santos por cerca de R$ 1 milhão mensais. A ideia é simples: ter um lateral rodado, acostumado a jogos grandes, para dar estrutura defensiva e liderança a um elenco instável. As dores constantes no joelho direito, no entanto, o acompanham desde os primeiros meses na Baixada. O rendimento cai, a confiança despenca e ele perde espaço para Igor Vinicius, que assume a titularidade.

Como reserva, Mayke se torna pesado para o orçamento. O custo de dois jogadores de salário milionário, sem protagonismo em campo, passa a ser visto como insustentável, especialmente diante da má campanha no Brasileiro. As torcidas organizadas miram a crítica em Alexandre Mattos, o executivo responsável pelas contratações.

Pressão sobre Mattos e desgaste interno

As chegadas de Mayke e Zé Rafael fazem parte de um pacote montado por Mattos e pelo presidente Marcelo Teixeira para tentar reerguer o clube. A direção aposta em nomes já testados em grandes cenários, com histórico vitorioso no Palmeiras, onde o executivo também trabalhou. Internamente, o discurso é de que a dupla poderia liderar um grupo descrito como “pressionado e limitado”.

Marcelo Teixeira não se diz surpreendido com o risco que assume. A avaliação é de que se trata de uma “aposta” cara, mas necessária diante da urgência esportiva. O problema é que a conta chega rápido demais. Entre o valor da compra de Zé Rafael e os salários da dupla, o gasto se aproxima de R$ 50 milhões em pouco mais de um ano e meio, sem impacto consistente no desempenho.

O time patina, os resultados não vêm e a paciência da torcida se esgota. Chefes de torcidas organizadas intensificam as cobranças sobre Mattos, em reuniões e nas arquibancadas da Vila Belmiro. Nas redes sociais, as críticas à política de contratações se tornam diárias. A diretoria passa a ser cobrada por uma reformulação profunda, tanto no elenco quanto no comando do futebol.

A pressão não recai apenas sobre a dupla em negociação. Outros nomes do elenco entram na lista de saídas. Zé Ivaldo e Rincón também devem deixar o clube, em mais um movimento para aliviar a folha e ajustar o grupo ao perfil desejado por Cuca. No curto prazo, o objetivo é simples: respirar financeiramente e tentar reagir no Brasileiro para evitar um novo rebaixamento, fantasma recorrente na última década.

Em conversas reservadas, integrantes do Conselho Deliberativo questionam a continuidade de Mattos. O executivo, por sua vez, sinaliza internamente que prepara uma nova reformulação para o meio do ano. A leitura é de que o elenco, da forma como está montado, não responde ao modelo de jogo pretendido e sofre com desequilíbrio entre jogadores veteranos, caros, e jovens ainda em formação.

No campo, Cuca já deixa claro à alta cúpula que prefere trabalhar com um grupo mais enxuto e saudável fisicamente. O treinador defende a saída de atletas que acumulam problemas médicos e não entregam intensidade ao longo de 90 minutos. “O melhor é negociar os dois”, avisa, em referência direta a Mayke e Zé Rafael.

Reestruturação urgente e futuro em aberto

A negociação pela rescisão amigável, conduzida por Mattos, busca reduzir o impacto financeiro imediato e abrir espaço para contratações mais baratas e úteis ao modelo de jogo. O clube tenta evitar ações na Justiça e alongamentos de dívida, cenário comum em rompimentos litigiosos. Cada economia mensal em salários é vista como fôlego para investir em setores carentes, como zaga e ataque.

A discussão sobre o futuro de Neymar, outro tema sensível nos bastidores, fica em segundo plano, mas ajuda a desenhar o tamanho da incerteza. Depois da Copa, a permanência do atacante na Vila Belmiro está longe de ser garantida. A avaliação é que, se ele conseguir retomar a condição de jogo, pode ser negociado com mercados como Estados Unidos ou mundo árabe, em nova tentativa de equilibrar as contas.

Enquanto isso, a relação com a arquibancada vive um fio de navalha. Parte da torcida ainda confia na experiência de Mattos, marcada por títulos em outros clubes. Outra parcela cobra sua saída antes do fim da temporada. No meio desse fogo cruzado, o Santos tenta reconstruir um elenco mais funcional, menos caro e capaz de entregar o básico: pontuar, sair da zona de rebaixamento e devolver alguma previsibilidade esportiva ao clube.

As próximas semanas tendem a ser decisivas. A formalização das rescisões de Mayke e Zé Rafael, a definição do futuro de nomes como Zé Ivaldo, Rincón e o próprio Mattos, e a janela de meio de ano irão indicar se o Santos aprende com a conta salgada de suas apostas recentes ou se repete um ciclo que já cobra caro na Vila Belmiro.

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