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Sánchez e Keiko encerram campanha em disputa aberta pela presidência do Peru

Roberto Sánchez e Keiko Fujimori encerram nesta quinta-feira (5) as campanhas para o segundo turno presidencial no Peru, marcado para domingo, 7 de junho de 2026. A eleição define quem governará o país entre 2026 e 2031 em meio a uma década de instabilidade e desconfiança nas instituições.

País polarizado escolhe entre nova Constituição e retorno do fujimorismo

O fim oficial da campanha expõe um Peru dividido entre dois projetos opostos. Sánchez, candidato da coalizão de esquerda Juntos por el Perú, aposta na convocação de um referendo para substituir a Constituição de 1993, elaborada no governo Alberto Fujimori. Keiko, herdeira política do ex-presidente, promete uma cruzada contra o crime e tenta transformar a insegurança em eixo central da disputa.

As últimas pesquisas indicam empate técnico, com a diferença entre os dois dentro da margem de erro. O cenário impede qualquer previsão segura e reforça o peso de cada voto num país com cerca de 35 milhões de habitantes. A memória recente de crises sucessivas, que produziram oito presidentes em dez anos, amplia a sensação de que o resultado pode redefinir o rumo da democracia peruana.

Duas praças, dois discursos e uma mesma urgência

Sánchez escolhe Arequipa, segunda maior cidade do país, para encerrar a campanha. No palanque, repete a promessa de consultar diretamente os eleitores sobre uma nova Carta. “Faremos um grande referendo e diremos: ‘Querido povo, chegou o momento, vocês querem uma nova Constituição?’”, afirma, mirando a base social que associa o texto de 1993 à concentração de poder e ao legado do fujimorismo.

O candidato descreve a votação de domingo como um divisor de águas. “O dia 7 de junho é um dia fundamental, um momento histórico para o Peru. Quero que saibam que não vou decepcioná-los”, diz, ao citar a família, militantes e apoiadores como símbolos de um compromisso de “recuperar o Peru”. Atrás do discurso, sua campanha exibe o mapa de um país exausto de crises institucionais e disposto a testar uma refundação constitucional.

Keiko Fujimori concentra a reta final em mensagens sobre segurança pública. Promete uma “guerra” contra criminosos, com endurecimento de leis e fortalecimento das forças policiais. Procura falar a um eleitorado urbano, assustado com o avanço do crime organizado e com a sensação de ausência do Estado em bairros periféricos. Evita, porém, abrir mão da marca do sobrenome, apostando na memória de parte da população que associa o fujimorismo à “ordem” dos anos 1990.

Enquanto Keiko mira o medo das ruas, Sánchez tenta capturar a insatisfação com a elite política. Sua campanha acusa o fujimorismo de ter mergulhado o país no caos desde 2016, quando Fuerza Popular conquista maioria parlamentar e acentua o confronto com o Executivo. O discurso encontra eco em ex-candidatos presidenciais que, nas últimas horas, declaram apoio à esquerda.

Apoios de última hora e disputa pela institucionalidade

Na jornada de encerramento, Sánchez exibe uma frente ampliada. Recebe o apoio de Alfonso López Chau, líder do partido de centro-esquerda Ahora Nación; de Ricardo Belmont e Daniel Barragán, dirigentes do Obras; de George Forsyth, do Somos Perú; além de Mesías Guevara, do Partido Morado, e Yhony Lescano, da Cooperación Popular. São figuras que ocuparam espaço na corrida eleitoral e agora se apresentam como contrapeso a uma eventual concentração de poder pelo fujimorismo.

López Chau resume o argumento central desse grupo. “Não quero que, no meu país, o poder tenha todo o poder”, declara. Para ele, a separação entre Executivo, Congresso e Judiciário é “o centro de toda Constituição e de todo país”. O dirigente sustenta que, se a aliança de Sánchez vencer, o fujimorismo continuará controlando o Congresso, mas haverá equilíbrio entre os poderes. Caso Keiko alcance a presidência, afirma, “ela controlará tudo e não haverá divisão de poderes”.

George Forsyth reforça o tom de ruptura ao pedir que os peruanos não votem em partidos que governam ou influenciam o país nos últimos anos. Classifica esses grupos como parte de um “pacto mafioso” e rejeita “mais ocupação das instituições pelo fujimorismo”. Lembra que, desde 2016, quando Keiko conquista maioria legislativa, o país entra em um ciclo de enfrentamentos entre Executivo e Congresso, impeachment sucessivos e queda de presidentes.

O discurso de Sánchez busca se apropriar dessa leitura. Ele promete “recuperar a democracia”, restabelecer o equilíbrio entre os poderes e revogar o que chama de “leis pró-crime”. Afirma que, a partir de 7 de junho, trabalhará para devolver à população o direito ao referendo, instrumento que pretende transformar em pilar da nova ordem institucional. A mensagem é dirigida tanto ao eleitorado de esquerda quanto a setores de centro que temem uma escalada autoritária.

Memória de 2021 reacende temor de contestação do resultado

No discurso de encerramento, Sánchez tenta blindar o processo eleitoral. Garante que aceitará o resultado das urnas e cobra o mesmo compromisso público de Keiko. “Nós estamos em condições de aceitar os resultados eleitorais e reafirmo isso. Ao contrário, exortamos Keiko a não transmitir mensagens ambíguas e a ser clara em relação ao processo eleitoral”, afirma.

O apelo mira um episódio recente. Em 2021, Keiko perde a eleição presidencial para Pedro Castillo por cerca de 44 mil votos e passa semanas questionando a legitimidade da votação. Fala em manipulação e alteração de atas, sem apresentar provas que convençam organismos eleitorais e observadores internacionais. A contestação prolonga a crise e alimenta a desconfiança de parte da sociedade na capacidade do sistema político de produzir saídas estáveis.

Sánchez avisa que uma repetição dessa narrativa pode empurrar o país de volta ao abismo. Alerta para o risco de maior instabilidade “neste processo de renovação da democracia tão importante para o país”. Ao mesmo tempo, mobiliza sua própria estrutura para vigiar o pleito. Convoca 90 mil observadores para acompanhar a votação nas mesas eleitorais e pede formalmente a presença de missões internacionais.

O candidato cita a Organização dos Estados Americanos e a União Europeia e apela à “comunidade internacional” para que atue como fiadora da transparência. “Que acompanhem este processo, para que ele seja transparente, fiscalizado, e para que reafirme e reconheça a vontade do povo”, diz. A estratégia busca reduzir o espaço para discursos de fraude e, ao mesmo tempo, sinalizar moderação a investidores e governos estrangeiros inquietos com a ideia de uma nova Constituição.

Domingo testa limites da democracia peruana

A votação de domingo ocorre em um país cansado de substituições no Palácio de Governo e de choques permanentes entre Executivo e Legislativo. Em dez anos, o Peru vê oito presidentes passarem pelo cargo, alguns derrubados por impeachment, outros renunciando sob forte pressão política e social. O desgaste corrói a confiança nas instituições e alimenta um sentimento difuso de que o sistema atual não entrega estabilidade nem segurança.

O segundo turno entre Sánchez e Keiko condensa essa insatisfação em uma escolha binária. De um lado, a promessa de refundação constitucional, com riscos e incertezas sobre o desenho final do novo regime. De outro, o retorno do fujimorismo ao comando do Executivo, apoiado em um discurso duro de combate ao crime e na perspectiva de controle ampliado sobre o Congresso. Em um cenário de empate técnico, qualquer contestação do resultado pode reacender protestos de rua e empurrar o país para mais um ciclo de confrontos.

Os próximos dias indicam se o Peru aproveita a eleição para reconstruir um mínimo de consenso institucional ou se aprofunda a divisão que marca a última década. A resposta começa a ser escrita nas urnas no domingo e seguirá em disputa nas ruas, no Congresso e nas cortes, muito além do anúncio oficial do vencedor.

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