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Rússia lança mais de 700 mísseis e drones e eleva terror na Ucrânia

Um ataque russo em larga escala com mais de 700 mísseis e drones atinge a Ucrânia durante a madrugada de terça-feira, mata ao menos 22 pessoas e fere mais de 100. A ofensiva alcança Kiev e várias cidades do país, aprofunda o medo da população e sinaliza uma nova escalada na guerra.

Noite mais longa em quatro anos de guerra

Os ucranianos se acostumam, há mais de quatro anos, a atravessar madrugadas em abrigos subterrâneos e estações de metrô. A rotina de correr entre o conforto precário de casa e as paredes de concreto virou marca da invasão iniciada em 2022. Nesta terça-feira, porém, a noite parece mais violenta que o habitual.

Em poucas horas, sirenes soam em quase todo o território, de Kiev a Dnipro. Sistemas de defesa disparam sem pausa contra uma combinação rara de mísseis e drones lançados pela Rússia. As autoridades contabilizam ao menos seis mortos na capital e 16 em Dnipro, mas admitem que o número sobe à medida que equipes de resgate avançam por montes de escombros.

Olha Mudra, moradora de um bloco de apartamentos em Kiev, assiste à explosão de perto. O impacto destrói parte do prédio e cobre o entorno com fumaça espessa. “Havia fumo por todo o lado, não se conseguia ver nada”, relata à agência Reuters, enquanto a filha de seis anos, Natalia, observa em silêncio.

Ela conta que o tempo parece parar. “Não percebíamos o que estava a acontecer, uma espécie de apocalipse”, descreve. Sem saber se foi um míssil, um drone ou fragmentos de uma interceptação, ela corre pelos corredores escuros tentando chamar vizinhos. “As pessoas estavam a usar lanternas, porque estava escuro. Não conseguíamos perceber onde estávamos.”

Do lado de fora, bombeiros e equipes médicas atravessam um labirinto de concreto quebrado e vidros estilhaçados. Moradores correm na direção oposta, carregando crianças, animais de estimação e malas improvisadas. Em Dnipro, socorristas encontram uma criança de três anos entre os destroços, imagem que rapidamente percorre as redes sociais ucranianas.

A poucos quilômetros dali, Anna Krzhypenska, 21, passa mais uma madrugada no metrô de Kiev. Estudante, ela reconhece o caminho até a plataforma quase de olhos fechados. “É difícil, física e mentalmente”, admite. “Gostávamos de acordar pacificamente pela manhã, com uma chávena de café, mas, em vez disso, temos de ir lá para baixo.”

Retaliação declarada e escalada anunciada

Moscou classifica o ataque como retaliação ao que chama de atentado ucraniano contra uma residência universitária em Lugansk, região ocupada no leste. Segundo o Kremlin, 21 estudantes morrem no episódio. Kiev nega qualquer responsabilidade e acusa a Rússia de usar a tragédia como pretexto para ampliar a ofensiva.

O governo russo, que desde 2022 alterna períodos de bombardeios intensos e fases de aparente menor intensidade, fala agora em “novo paradigma” militar. O porta-voz do Kremlin promete ataques “sistemáticos” a alvos em território ucraniano, sinalizando que o ritmo e a violência podem aumentar nos próximos dias.

Especialistas em segurança ouvidos por veículos internacionais apontam que o uso combinado de centenas de mísseis e drones indica planejamento de longo prazo. Para saturar as defesas ucranianas, a estratégia aposta em sobrecarregar radares e baterias antiaéreas, espalhando alvos por diferentes cidades. O resultado imediato é uma noite em que praticamente todo o país entra ao mesmo tempo em alerta máximo.

Na prática, a população volta ao cenário mais agudo da guerra. Hospitais reforçam estoques de sangue, municípios testam geradores para o caso de apagões e escolas reavaliam aulas presenciais. A cada sirene que soa, famílias repetem o ritual de recolher documentos, medicamentos e poucos pertences essenciais antes de descer escadas em direção aos abrigos.

Em Kiev, onde vivem cerca de 3 milhões de pessoas, bairros inteiros acordam sem janelas. Vitrines explodem, carros são virados pela pressão das ondas de choque, linhas de ônibus e metrô de superfície operam com interrupções. A paisagem urbana mistura neve, poeira e fumaça, enquanto autoridades estimam prejuízos de milhões de dólares em infraestrutura atingida.

Guerra mais longa, rotina mais frágil

O ataque desta terça-feira reforça a sensação de que a guerra entra em nova fase de desgaste prolongado. Para os ucranianos, o conflito já passa de quatro anos, somando a invasão em grande escala de 2022 às tensões abertas desde a anexação da Crimeia, em 2014. Cada onda de mísseis amplia o cansaço de uma população que tenta manter empregos, estudos e serviços básicos em meio à incerteza.

Famílias que haviam voltado a algumas rotinas, como aulas presenciais e turnos de trabalho integrais nos escritórios, reavaliam planos. Empresas testam mais uma vez o trabalho remoto, e órgãos públicos reforçam instruções para evacuação rápida. Quem vive perto de instalações de energia, ferrovias ou depósitos militares convive com a sensação permanente de alvo potencial.

A comunidade internacional acompanha a escalada com preocupação. Países europeus e os Estados Unidos já discutem novos pacotes de ajuda militar e humanitária, enquanto alertam para o risco de colapso de serviços civis na Ucrânia. Cada ataque em massa pressiona estoques de mísseis defensivos, encarece a reconstrução e afeta diretamente a capacidade do Estado ucraniano de manter escolas, hospitais e transporte funcionando.

As autoridades ucranianas continuam a buscar desaparecidos em Kiev, Dnipro e outras cidades. Equipes de resgate trabalham em turnos contínuos, tentando localizar sobreviventes sob os escombros. A contagem de mortos, hoje em ao menos 22, tende a subir nas próximas horas, e o número de feridos já ultrapassa 100 pessoas.

Do lado russo, o discurso é de continuidade. Moscou reafirma que novas operações de grande escala podem ocorrer a qualquer momento, em resposta a ações que atribui à Ucrânia em territórios ocupados. O “novo paradigma” mencionado pelo Kremlin sugere uma fase de ataques mais frequentes e coordenados, o que reduz ainda mais o espaço para qualquer negociação de cessar-fogo no curto prazo.

A Ucrânia tenta, ao mesmo tempo, reconstruir o que é destruído a cada semana e manter algum grau de normalidade. Crianças como Natalia, que crescem entre sirenes e abrigos, já conhecem o caminho até o bunker tão bem quanto o trajeto até a escola. A dúvida que ronda Kiev, Dnipro e dezenas de outras cidades é quanto tempo essa rotina de guerra ainda vai ditar cada amanhecer.

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