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Rússia intensifica ataques aéreos e testa limite das defesas da Ucrânia

A Rússia eleva a intensidade dos ataques aéreos contra a Ucrânia e lança recorde de mísseis hipersônicos até 4 de junho de 2026, pressionando defesas já sobrecarregadas. As ofensivas em ondas combinam drones baratos, mísseis balísticos e de cruzeiro e deixam dezenas de mortos em diferentes regiões do país.

Kiev sob pressão e estratégia de sobrecarga

A capital ucraniana volta a acordar com sirenes, explosões sucessivas e colunas de fumaça no horizonte. Na madrugada desta terça-feira (2), bombeiros correm por ruas cobertas de destroços em Kiev, onde edifícios residenciais e comerciais de vários andares pegam fogo após mais uma série de ataques russos. Carros queimam ao lado de fachadas estilhaçadas, enquanto equipes de resgate tentam localizar sobreviventes em apartamentos destruídos.

As cenas se repetem em outras cidades, mas a escala recente chama atenção. Autoridades ucranianas relatam que, em uma única ofensiva, a Rússia lança quase 300 drones de ataque, além de dezenas de mísseis de diferentes tipos. Em outro momento, o presidente Volodymyr Zelensky acusa Moscou de disparar, em curto intervalo, 500 drones e 40 mísseis contra o país. O objetivo declarado por especialistas não é apenas atingir alvos individuais, mas saturar o sistema defensivo ucraniano até o ponto de ruptura.

A estratégia segue um roteiro que hoje se repete com precisão. Ondas de drones de baixo custo abrem caminho em grande quantidade. Em seguida, chegam mísseis balísticos de alta velocidade, que exigem interceptores mais sofisticados. Só depois entram em cena os mísseis de cruzeiro, mais lentos, mas capazes de contornar o relevo e atingir centros urbanos e instalações militares. Analistas do Royal United Services Institute (Rusi) e do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS) afirmam que essa lógica de “sobrecarga” aumenta a chance de que parte do arsenal atravesse o escudo aéreo.

O último grande ataque em todo o território ucraniano deixa ao menos 23 mortos e 151 feridos, segundo Kiev. Nenhum dos oito mísseis hipersônicos “Zircon” lançados nessa ofensiva é abatido. Trata-se do maior número desse tipo de arma já utilizado em uma única operação. Os projéteis viajam em velocidades tão altas que praticamente impedem a reação das baterias defensivas, e carregam ogivas com poder suficiente para destruir grandes navios de guerra, como porta-aviões.

Defesas no limite e falta de interceptores

Os sistemas de defesa aérea da Ucrânia, montados às pressas desde o início da invasão em 2022 e reforçados por aliados ocidentais, demonstram resistência considerável frente ao volume atual de ataques. Estimativas do Rusi e do CSIS apontam que o país mantém taxa de interceptação de cerca de 90% dos drones lançados a cada mês, patamar semelhante ao período anterior à escalada recente. Parte dessas intercepções ocorre não só por mísseis, mas também por guerra eletrônica, que desvia munições de áreas densamente povoadas.

O ponto frágil, no entanto, está na defesa contra mísseis balísticos e hipersônicos. No ataque de terça-feira, a Rússia dispara 41 mísseis balísticos. Trinta conseguem atingir seus alvos, incluindo instalações de energia na região de Kharkiv e pontos estratégicos em outras cidades. Em Dnipro, um ataque em “duplo disparo” mata um bombeiro que atendia a uma ocorrência causada por uma explosão anterior, prática que aumenta o risco para equipes de emergência e moradores que tentam deixar abrigos.

Volodymyr Zelensky afirma à rede americana CBS News que recebe apenas de 60 a 65 mísseis interceptores por mês, volume insuficiente para cobrir o ritmo atual de lançamentos russos. “Não há mísseis suficientes para o sistema Patriot; muitos foram usados no Oriente Médio”, reforça Yurii Ihnat, porta-voz da Força Aérea Ucraniana, à CNN. Com menos munição disponível, comandantes são obrigados a escolher quais alvos priorizar, deixando áreas inteiras com proteção reduzida.

Regiões consideradas menos estratégicas sofrem o impacto dessa escassez. “Outro fator é como o inimigo utiliza seus mísseis – ou seja, eles usam mísseis balísticos especificamente contra regiões menos protegidas contra esse tipo de ataque”, explica Ihnat. Especialistas ouvidos por think tanks ocidentais apontam que Kiev, sede do governo e centro político e econômico do país, recebe uma camada de defesa mais robusta, enquanto cidades menores e áreas rurais ficam expostas.

Nesta última ofensiva, porém, até a capital parece mais vulnerável. Produtores da CNN em Kiev relatam ter ouvido explosões seguidas por longos silêncios de defesa antiaérea, sem o som característico dos sistemas lançando interceptores. As autoridades ucranianas afirmam que parte das munições russas atinge instalações militares, o que Moscou apresenta como sucesso operacional. Ao mesmo tempo, imagens de prédios civis danificados e famílias desabrigadas alimentam novas acusações de ataques deliberados a áreas residenciais.

Rússia muda tática após impasse em terra

O aumento da intensidade dos bombardeios acompanha mudanças no equilíbrio do conflito em solo. Depois de avanços graduais em frente terrestre, as forças russas enfrentam dificuldades para ampliar ganhos territoriais. Em abril, pela primeira vez desde 2024, a Ucrânia recupera mais território do que a Rússia conquista no período. A linha de frente permanece fluida em várias regiões, mas o impulso russo em terra perde fôlego.

Para Thomas Withington, pesquisador associado de ciências militares do Rusi, essa é a chave para entender a nova fase de ataques. “A Rússia está realmente com dificuldades para obter ganhos significativos no campo de batalha”, afirma. Na avaliação dele, o Kremlin busca compensar a estagnação terrestre com poder aéreo. “Acho que, dada a situação atual, o uso do poder aéreo é possivelmente a única via disponível para a liderança russa que espera ter algum tipo de efeito estratégico sobre a Ucrânia”, diz.

Os números de drones usados pela Rússia mostram essa mudança de postura. No início do ano, Moscou lança cerca de 5 mil drones de ataque Shahed por mês. Em maio, o volume sobe para mais de 8 mil, de acordo com análise do CSIS. A maioria desses equipamentos é relativamente barata, de fabricação em série, e pode ser produzida em ritmo bem superior ao dos interceptores sofisticados que a Ucrânia precisa para se defender.

A disparidade de custos pesa na balança. Cada drone derrubado consome munição que, muitas vezes, vale mais do que o próprio alvo. A pressão constante força Kiev a gastar recursos em ataques que, individualmente, têm baixo custo para Moscou. Essa dinâmica beneficia a Rússia em uma guerra de desgaste prolongada, na qual a capacidade industrial e o fluxo de ajuda externa tornam-se determinantes.

O impacto humano imediato é visível nas ruas. Em Dnipro e outras cidades atingidas, famílias deixam apartamentos às pressas, carregando malas improvisadas e documentos. Escolas suspendem aulas presenciais, hospitais transferem pacientes para andares subterrâneos e equipes médicas reorganizam plantões diante da possibilidade de novas ondas de feridos. As companhias de energia tentam reparar redes elétricas danificadas, em um esforço para evitar apagões prolongados em meio ao clima ainda instável do fim da primavera.

Escalada prolonga guerra e aumenta pressão internacional

Os novos ataques colocam em evidência um impasse militar e político. Ao intensificar os bombardeios, a Rússia mantém a capacidade de causar danos significativos em infraestrutura civil e militar, mesmo sem grandes avanços em terra. A Ucrânia, por sua vez, prova que consegue derrubar a maioria dos drones e parte dos mísseis, mas não dispõe de interceptores suficientes para neutralizar totalmente a combinação de armas que agora chega com maior frequência.

A escalada tende a ampliar a dependência de Kiev em relação ao apoio militar ocidental, em especial no fornecimento de mísseis Patriot e de outros sistemas de defesa aérea avançados. Governos europeus e os Estados Unidos já enfrentam pressões internas sobre estoques limitados e prioridades regionais, após terem deslocado parte de suas reservas para crises no Oriente Médio. Cada novo ataque de grande escala reforça pedidos públicos de Zelensky por mais armamentos e recursos, enquanto diplomatas tentam manter coesa a frente de apoio à Ucrânia.

No campo diplomático, o uso recorrente de mísseis hipersônicos “Zircon” e a tática de sobrecarregar defesas alimentam debates sobre possíveis violações do direito internacional humanitário, diante do alto número de vítimas civis e da destruição de prédios residenciais. Organismos multilaterais cobram investigações, mas esbarram na falta de consenso entre membros do Conselho de Segurança da ONU, onde a Rússia mantém poder de veto.

Para a população ucraniana, a perspectiva é de mais noites em abrigos, mais interrupções de energia e mais incerteza sobre o futuro. Os ataques recentes mostram que o espaço aéreo acima do país permanece central na estratégia do Kremlin. A resposta dos aliados de Kiev, tanto em volume de interceptores quanto em pressão diplomática, vai ajudar a definir se esses bombardeios continuam crescendo ou se encontram um limite nas próximas semanas.

Entre as crateras abertas por mísseis e os incêndios que consomem prédios em Kiev, Dnipro e Kharkiv, permanece em aberto uma pergunta essencial: até que ponto a guerra aérea pode substituir o avanço em terra e, a que custo humano, essa escolha será mantida.

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