Ultimas

Revisão de atas no Peru passa a favorecer Keiko Fujimori

A revisão das atas eleitorais no Peru passa a beneficiar majoritariamente a candidata Keiko Fujimori nesta fase final de apuração. A recontagem, conduzida pela Justiça Eleitoral, torna-se o centro da disputa e pode redefinir o resultado presidencial.

Recontagem sob tensão nacional

Salas da Junta Eleitoral em Lima e em diferentes regiões do país trabalham em ritmo contínuo desde o início da semana. Técnicos, juízes e fiscais partidários se debruçam sobre centenas de atas contestadas, uma a uma, em um processo que o órgão descreve como “rigoroso e transparente”. Nesse universo de documentos revisados, a maior parte dos votos reaparece a favor de Keiko Fujimori.

A etapa de revisão ganha peso porque ocorre quando a contagem oficial já se aproxima da reta final. Cada ata reavaliada pode inverter pequenas margens em distritos disputados voto a voto. Em algumas localidades andinas, onde a abstenção passa de 20%, uma única mesa com cerca de 200 votos torna-se decisiva para definir quem assume o Palácio de Governo pelos próximos cinco anos.

Membros da Junta Eleitoral evitam antecipar números consolidados, mas reconhecem, em caráter reservado, que o saldo parcial beneficia a candidata de direita. “As atas revisadas até agora mostram uma tendência favorável à senhora Fujimori”, afirma um integrante do órgão, sob condição de anonimato. “Nosso foco, porém, é garantir que cada voto esteja corretamente registrado, não definir quem ganha.”

Disputa sobre a legitimidade do pleito

A revisão nasce de uma enxurrada de contestações apresentadas por partidos e observadores nas horas seguintes ao fechamento das urnas. As queixas incluem assinaturas divergentes, erros de soma e supostas inconsistências no preenchimento dos formulários. Em algumas regiões, mais de 10% das mesas enfrentam questionamentos formais, o que obriga a Junta a reabrir urnas e revisar atas linha por linha.

Keiko Fujimori, herdeira política do ex-presidente Alberto Fujimori e candidata pela terceira vez ao Palácio de Governo, aposta nessa etapa como última fronteira da disputa. “Confiamos que a revisão mostrará a verdadeira vontade dos peruanos”, diz um assessor próximo à campanha. A equipe insiste que a contagem inicial subestima votos em áreas urbanas onde a candidata teria vantagem consistente, sobretudo entre eleitores de renda média e comerciantes informais.

Setores da oposição, por outro lado, temem que o processo seja usado para alimentar suspeitas e prolongar a incerteza. Líderes críticos à candidata afirmam que qualquer tentativa de questionar o veredito final pode acirrar um país já polarizado. “O Peru não aguenta mais uma eleição contestada por anos”, avalia um cientista político da Universidade Nacional Mayor de San Marcos. Ele lembra que, em 2016, a diferença inferior a 0,3 ponto percentual entre os finalistas desencadeia uma longa batalha política.

O clima nas ruas reflete essa divisão. Em Lima, manifestantes se concentram desde o fim de semana diante da sede da Junta Eleitoral, em turnos alternados de apoio e protesto. Enquanto grupos favoráveis a Fujimori pedem “respeito a cada voto”, rivais exibem faixas com a frase “sem golpe, sem fraude”. A polícia instala grades metálicas e reforça o patrulhamento após episódios de empurra-empurra na noite anterior.

Impacto na disputa e na estabilidade democrática

Os números ainda parciais da revisão provocam movimentos imediatos na arena política. Aliados de Keiko Fujimori defendem que a tendência nas atas revisadas confirma o discurso de que há “votos escondidos” a seu favor, especialmente em zonas em que boletins foram anulados por erros formais. Se o padrão se mantiver, projeções internas estimam uma possível virada em distritos onde a diferença inicial não ultrapassa 1 ponto percentual.

Candidatos derrotados no primeiro turno observam a cena e calculam o peso de uma eventual vitória de Fujimori. Governadores regionais, sindicalistas e empresários do setor de mineração aguardam definições para ajustar planos de investimento. O Peru depende de contratos de longo prazo em cobre e gás natural, e qualquer sinal de instabilidade institucional afeta decisões que envolvem bilhões de dólares em projetos nos Andes e na Amazônia.

Organismos internacionais acompanham a apuração com atenção redobrada. Missões de observação da região ressaltam, em comunicados, que a revisão de atas é um instrumento legítimo de qualquer sistema eleitoral, desde que siga regras claras e prazos determinados. “A chave é que o processo seja transparente, público e previsível”, afirma um observador estrangeiro ouvido pela reportagem. Para ele, o risco maior não está na recontagem em si, mas na forma como campanhas usam cada etapa para alimentar narrativas de vitória ou derrota antecipadas.

O histórico recente do país amplia a sensibilidade. Em menos de seis anos, o Peru troca de presidente quatro vezes, em meio a renúncias, impeachments e prisões por corrupção. A memória desses episódios faz com que cada nova eleição seja vista como um teste de resistência democrática. Um resultado apertado, questionado por qualquer dos lados, tende a alimentar protestos contínuos, bloqueios de estradas e paralisações em setores estratégicos, como transporte e mineração.

O que pode acontecer a partir de agora

A Junta Eleitoral trabalha com prazos que vão de dias a poucas semanas para concluir a análise de todas as atas contestadas. Em bastidores, magistrados admitem que a pressão política cresce a cada dia de indefinição. A legislação local prevê a proclamação oficial do vencedor logo após o fechamento da fase de recursos, sem margem para novas instâncias de contestação interna.

Keiko Fujimori aposta em manter a mobilização de sua base até o anúncio final. A campanha prepara atos públicos em Lima e em ao menos cinco grandes cidades do país, com foco em regiões onde a revisão de atas já mostra vantagem numericamente significativa. Adversários planejam reagir com manifestações paralelas, exigindo que qualquer resultado seja acompanhado de auditorias independentes e relatório detalhado sobre as mesas revisadas.

O desfecho definirá não apenas o ocupante do Palácio de Governo pelos próximos cinco anos, mas também o grau de confiança da população em seu sistema eleitoral. A forma como a Junta Eleitoral conduz os próximos dias pode estabelecer um precedente para toda a região andina, em um momento em que eleições apertadas e denúncias de fraude se multiplicam. A pergunta que permanece é se o país aceitará o veredito das urnas revisadas como um ponto final ou como o início de um novo ciclo de contestação política.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *