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Redes estrangeiras começam a deixar Cuba sob pressão de sanções dos EUA

Grandes redes internacionais, como Meliá, Iberostar e Blue Diamond, iniciam em junho de 2026 a retirada de operações em Cuba. A decisão responde ao endurecimento das sanções econômicas dos Estados Unidos e amplia a incerteza sobre o principal motor da economia da ilha: o turismo.

Turismo sob pressão em plena alta temporada

Os primeiros ajustes aparecem nos balcões de recepção e nos sites de reservas. Quartos deixam de ser ofertados, contratos são revisados às pressas e algumas unidades encerram as vendas para o segundo semestre. Executivos falam em “reorganização estratégica”, mas na prática o movimento marca um recuo coordenado das principais redes estrangeiras presentes na ilha.

As mudanças ocorrem em meio a um novo ciclo de sanções de Washington, que mira receitas ligadas ao turismo e a empresas com participação estatal cubana. Operadores relatam dificuldade crescente para realizar pagamentos em dólar, obter seguros internacionais e renovar contratos com intermediários financeiros na Europa e no Canadá. “A conta operacional deixou de fechar”, admite, sob condição de anonimato, um consultor que trabalha há mais de dez anos com hotéis espanhóis no Caribe.

Sanções atingem coração da economia cubana

Cuba aposta no turismo desde os anos 1990, quando abriu espaço a joint ventures com grupos estrangeiros para driblar o colapso soviético. Em 2018, o país recebe cerca de 4,7 milhões de visitantes, segundo dados oficiais. Em 2023, ainda sob o impacto da pandemia e de restrições financeiras, o número cai para pouco mais de 2,4 milhões, menos da metade do pico anterior. O governo projeta 3,5 milhões de turistas em 2026, meta que agora parece mais distante.

As redes Meliá, Iberostar e Blue Diamond administram, juntas, dezenas de hotéis em polos como Varadero, Cayo Coco e Holguín. Em alguns destinos, controlam mais de 60% da oferta de leitos voltados ao turismo internacional. A saída gradual dessas empresas ameaça milhares de empregos diretos, de recepcionistas a gerentes, além de postos indiretos em transporte, agricultura, pesca e serviços. “Quando um hotel fecha andares, a renda de toda a comunidade encolhe”, resume um economista cubano radicado em Madri.

As novas sanções americanas ampliam punições a companhias que operam com entidades estatais cubanas e dificultam o acesso a sistemas de pagamento e crédito. Bancos europeus passam a desconfiar de qualquer transação que envolva a ilha, com medo de multas bilionárias, como já ocorreu em casos anteriores. A engrenagem que sustenta a presença estrangeira no turismo cubano começa a travar.

O impacto também é político. Ao mirar um setor que responde por parcela relevante das divisas do país, estimada em mais de 10% do PIB em períodos de bonança, os Estados Unidos reforçam a pressão sobre o governo de Havana, já afetado por falta de combustíveis, apagões e migração recorde. “As sanções não atingem apenas autoridades, mas o cotidiano de quem serve café da manhã, limpa quartos e dirige táxi”, critica um diplomata latino-americano que acompanha o dossiê em organismos multilaterais.

Trabalhadores e fornecedores ficam no centro da crise

Para funcionários dos hotéis, o recuo das redes estrangeiras significa risco imediato de cortes de jornada, férias compulsórias e demissões. Um sindicato independente calcula que, em alguns complexos hoteleiros, até 40% dos postos podem ser afetados caso as unidades sejam repassadas às pressas a operadores locais sem capital para reformas e marketing internacional. O governo cubano não divulga números, mas reconhece em comunicados recentes “reajustes temporários” em empreendimentos turísticos.

Fornecedores locais também sentem o baque. Agricultores que abastecem resorts com frutas, vegetais e carnes temem perder contratos em moeda forte. Pequenos empresários que organizam passeios, mergulhos e traslados veem reservas minguar desde o anúncio das mudanças. “Se as grandes marcas vão embora, os turistas escolhem outro destino no Caribe”, afirma um guia de Varadero. A comparação com vizinhos como República Dominicana e México, onde cadeias internacionais seguem em expansão, pesa ainda mais.

O movimento das redes estrangeiras envia um sinal ao mercado global. Empresas de cruzeiros, companhias aéreas e plataformas de reservas monitoram o risco regulatório e financeiro de operar na ilha. Investidores que cogitavam novos projetos de hotéis e marinas adiam decisões ou revisam planos. Analistas avaliam que, sem uma flexibilização das sanções ou um redesenho profundo do modelo de negócios cubano, a ilha pode perder espaço para destinos que oferecem menos incerteza jurídica e financeira.

A curto prazo, a saída de Meliá, Iberostar e Blue Diamond tende a reduzir a entrada de dólares, pressionar ainda mais a taxa de câmbio paralela e ampliar a escassez de produtos básicos. Famílias que dependem de remessas do exterior e de bicos ligados ao turismo veem o orçamento encolher. A instabilidade econômica alimenta frustração social num país que já enfrenta filas por alimentos, falta de medicamentos e êxodo crescente rumo aos Estados Unidos, México e Espanha.

Futuro do turismo cubano fica em aberto

Havana promete reagir. Autoridades estudam ampliar o espaço para investidores de países aliados, como Rússia, China e Emirados Árabes, e oferecem isenções fiscais e facilidades migratórias. Técnicos discutem a criação de mecanismos de pagamento alternativos ao dólar, em moedas locais ou digitais, para contornar bloqueios. A aposta é manter a infraestrutura hoteleira em funcionamento, ainda que sob novas bandeiras.

Especialistas ouvidos por entidades internacionais apontam, porém, que capital e marca levam tempo para se consolidar em um mercado globalizado. Sem a presença de redes reconhecidas, Cuba pode levar anos para recuperar a confiança de operadoras na Europa e na América do Norte. A temporada de 2026 começa com mais dúvidas que reservas confirmadas. O destino que durante décadas vendeu ao mundo a imagem de praias intocadas e música nas calçadas tenta agora responder a uma pergunta incômoda: quem virá ocupar o vazio deixado pelas gigantes do turismo que começam a partir?

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